4

hr_Whiplash_7

Desde que esse longa foi o grande vencedor do Festival de Sundance, eu já fiquei ansioso para ver o mesmo. Whiplash prometia ser o filme que iria unir de um jeito único a música e o cinema, duas das minhas maiores paixões. Ele certamente faz isso, mas eu não esperava que ele poderia ser muito mais.

O longa conta a história de Andrew, um jovem de 19 anos que quer ser o maior baterista de jazz de todos os tempos. Para atingir seu objetivo, ele tem que passar pela banda de Fletcher, um maestro durão, arrogante e quase nazista. Enquanto esse faz de tudo para levar Andrew ao limite, o jovem vai mudando toda sua vida para não desistir do seu sonho.

A história nem é algo tão novo e tudo isso pode parecer só mais um daqueles dramas musicais motivacionais, onde o herói passa pelo pão que o diabo amassou para depois vencer e ter um final feliz. Logicamente existe uma parcela do filme que usa isso, mas o roteiro do novato Damien Chazelle acerta ao cheio ao transformar esse processo de superação em algo parecido com um suspense psicológico.

O filme é recheado de momentos que fazem o espectador prender a respiração, segurar na poltrona, roer as unhas ou todos esses juntos, dependendo do gosto do consumidor. A diferença desse para qualquer outro filme do tipo é o ritmo e a tensão que Damien impõe tanto através da sua escrita, quanto estando atrás das câmeras. E isso é brilhante.

Como diretor, o jovem, que ainda vai completar 30 anos esse mês, também consegue demonstrar um talento impressionante na condução de cenas. Ele consegue ritmar o filme, usando de maneira certeira um conjunto de planos-sequência, câmera fixa e super closes em um edição perfeita. Ele não demonstra ter, em nenhum momento, alguma dúvida sobre a emoção ou o sentimento que quer passar e isso é algo digno de nota para um estreante na cadeira de diretor. Se Andrew treme antes de se apresentar no climax do filme, Damien não faz isso por nenhum segundo sem querer.

Outro acerto do filme está no desenvolvimento firme de seus personagens e de suas ações. Tudo é apresentado da maneira certa e no mento certo, fazendo com que o público entenda as motivações, os objetivos e a mente dos personagens em diálogos precisos e certeiros. Não existe nada ali que seja gordura. O filme se desenvolve de maneira pontual e se encerra em um momento perfeito, sem que tenhamos certeza absoluta do futuro de Andrew e se esse representará um final feliz para o personagem.

Nesse desenvolvimento, só existe um interlúdio antes do terceiro ato que me incomoda um pouquinho, já que quebra de maneira mais brusca o clima do filme. No entanto, por mais que esse trecho soe estranho, ele é justificado quando o longa entra em seu final e nos deparamos com um climax extremamente impactante e catártico.

Claro que além dos bons ângulos de câmera e da edição intensa, o som do filme também precisava ser sensacional, já que se trata de um longa com aspectos musicais. A trilha sonora é extremamente importante na climatização da tensão que citei no início do texto, mas a parte musical em si também merece aplausos. Com peças originais de jazz compostas para o filme, Whiplash traz o melhor de um gênero que já teve momentos de maior glória, mas merece continuar sendo ouvido, sentido e apreciado.

É tudo muito bem feito no filme, entretanto a verdadeira força de tudo está no elenco, especificamente em Miles Teller e J.K. Simmons. O primeiro, que será o próximo Sr. Fantástico nos cinemas, é um grande ator e impressiona ainda mais por tocar bateria de verdade. Todas as emoções de Andrew são transmitidas de maneira certeira e forte, principalmente a raiva e a dor representadas pelo o sangue espalhado na bateria.

Enquanto isso, o veterano J.K. constrói um dos melhores coadjuvantes dos últimos tempos e, praticamente, rouba o filme para ele. Vencedor do Globo de Ouro e favorito ao Oscar de ator coadjuvante, Simmons consegue caminhar entre alguém acolhedor e outra pessoa completamente ameaçadora e psicopata em poucos segundos, tendo tanto momentos mais reveladores e emocionantes, quanto alguns realmente assustadores. É um personagem complexo e poderoso, que mexe com o público toda vez que levanta a mão direita ou muda o olhar.

Um filme surpreendente, tenso e extremamente poderoso, que não inova em sua história, mas consegue fazer com que seu desenvolvimento fuja completamente do normal. Roteiro intenso, direção perfeita e atuações preciosas fazem com Whiplash já esteja brigando para ser um dos melhores filmes de 2015, mesmo sabendo que o ano está só começando.

OBS 1: Um curiosidade é que o filme tem um roteiro original, mas está brigando por uma vaga como adaptado no Oscar 2015, porque, antes do longa, foi produzido um curta metragem para conseguir garantir o orçamento para rodar o filme.

Indicados ao Framboesa de Ouro

Previous article

Galavant

Next article

You may also like

4 Comments

  1. […] Ao seu lado, Edward Norton (interpretando praticamente ele mesmo) e Emma Stone também possuem um bom tempo de tela e justificam suas indicações ao Oscar. Inclusive, eu gostaria que Norton levasse a estatueta para casa, pois ele é um grande ator que nunca foi agraciado com essa honra. Entretanto, esse ano a estatueta certamente (e com justiça) vai para J.K Simmons, por Whiplash. […]

  2. […] Um ponto de partida bastante clichê que, superficialmente, pode fazer com que o longa seja interpretado como um romance comum e antiquado que resolve alguns questionamentos da maneira mais corrida possível e entrega um final um pouquinho apelativo. Até concordo que tudo isso aparece em doses homeopáticas, mas La La Land passa a ser muito mais quando reúne comédia, romance e drama com perfeição, entrega músicas recheadas de originalidade, brinca com o próprio mercado em que está inserido e ainda discute temas simbólicos como a busca incessante pela realização de um grande sonho. Fruto de mais um trabalho primoroso de roteiro e direção do jovem Damien Chazelle (Whiplash: Em Busca da Perfeição). […]

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes