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Séries

Crítica: Westworld – 2ª Temporada

Você já questionou a natureza da sua realidade hoje?

28 de junho de 2018 - 10:30 - Flávio Pizzol
Aviso: Como anfitrião da Delos, tenho o orgulho de dizer que esse texto tem spoilers. Bem-vindo à crítica!

Apoiada por um orçamento gigantesco, Westworld estreou com o grande peso de ser a possível substituta de Game of Thrones na programação da HBO. O sucesso chegou e a série acabou cumprindo os clamores do canal por público com tranquilidade, mas mostrou no processo que o fator diversão permaneceria em segundo plano enquanto uma ficção científica complexa e cheia de discussões filosóficas se formava na superfície. O resultado: Westworld fritou nossos cérebros, conquistou nossos corações e terminou 2016 como a melhor produção do ano em quase todos os sites e revistas especializadas.

Diante desse contexto, eu não preciso dizer que a ansiedade em torno do próximo capítulo dessa loucura era enorme, né? Todo mundo queria saber o que aconteceria após a morte de Robert Ford, a descoberta das linhas temporais envolvendo William e a “proclamação de independência” dos anfitriões. Com alguma passagem de tempo que nunca é especificada, a segunda temporada começa exatamente de onde deveria, explorando as consequências distintas – e muitas vezes sangrentas – que essa inversão dos lados gerou entre os robôs e humanos que estavam dentro do parque.

Uma premissa ampla que os roteiristas guiados por Jonathan Nolan (Batman – O Cavaleiro das Trevas) e Lisa Joy (Burn Notice) conseguiram, mais uma vez, transformar em uma aula de organização narrativa. É absolutamente incrível apreciar a maneira como eles costuram núcleos e linhas temporais (em maior quantidade que na temporada anterior) que dialogam muito bem entre si, oferecem objetivos e dilemas distintos para cada peça principal, expandem o universo filosoficamente e literalmente na revelação de novos parques e ainda amarram tudo num final de tirar o fôlego.

Uma rede de tramas intricadas que só encontra alguma consistência quando o roteiro sabe selecionar o que precisa ou não ser mostrado. E, convenhamos, Jonathan e Lisa já mostraram que jogam esse jogo com grande precisão. Você já parou pra pensar, por exemplo, como o cerne das histórias de Westworld sempre gira em torno de elementos simples e extremamente palpáveis como a maternidade, a liberdade ou o roubo de dados? Pois é esse tipo de escolha que permite ao texto da série jogar muita informação na cara do espectador sem deixá-lo necessariamente perdido (na maior parte das vezes), porque a complexidade em si fica restrita às interações entre seus personagens cheios de camadas. às discussões filosóficas pesadas que permeiam as tramas e ao jeito nada simplório de entregar respostas – na hora certa – ao mesmo tempo em que cria novas perguntas. Se isso não é uma aula de roteiro, não sei o que é…

No entanto, não existe fórmula infalível e a segunda temporada acabou, sim, saindo dos trilhos em alguns momentos. Não houve nenhum descarrilhamento, porém a repetição insistente das mesmas discussões éticas ou morais e a preocupação em plantar pistas suficientes para colocar fogo no Reddit tornaram alguns episódios arrastados e/ou um pouquinho perdidos em suas próprias ambições. Poderíamos até dizer que ela estava andando em círculos, perseguindo o próprio rabo, se o final não conseguisse reunir todas as pontas com tanta eficácia. Afinal, estamos falando de Westworld e algumas peças-chave desse roteiro precisam até mesmo ser ressaltadas separadamente:

1) A conexão entre os personagens e o público são construídas tão rapidamente que o trabalho parece ser fácil. É claro que o fato dos protagonistas serem muito ricos ajuda na hora de criar alguma empatia, mas é quando os coadjuvantes roubam a cena que essa qualidade fica evidente. Eles mal aparecem, falam algumas palavras e você já compreendeu seus desejos ou está torcendo para que sua missão seja cumprida. Só nessa temporada, temos os exemplos de Akecheta (Zahn McClarnon) e Akane (Rinko Kikuchi) que conquistaram nosso coração com apenas um episódio focado neles. Só uma mistura certeira de precisão e talento na hora de escrever pra fazer isso acontecer com tanta frequência.

2) Apesar das repetições que já foram citadas acima, ninguém pode negar que Westworld, como uma boa ficção científica, sabe como inserir discussões filosóficas sobre a humanidade na sua narrativa. A gama de assuntos é tão grande que eu poderia ficar o dia todo falando, mas quer destacar duas coisas: o poder de escolher e lidar com as consequências está no centro de tudo; defender a ideia de que o real é insubstituível em um mundo onde as relações entre robôs são mais verdadeiras que aquelas desenvolvidas entre humanos exige um bocado de coragem.

3) A série provou, de uma vez por todas, que sabe como criar catarse para entregar finais espetaculares. E eu nem estou falando apenas do episódio em si, mas também do encerramento de cada um dos protagonistas atingirem seus respectivos ápices nos momentos certeiros. Até coadjuvantes, como o roteirista interpretado por Simon Quarterman (Filha do Mal) ganham os finais apoteóticos que o espectador deseja, alterando o status quo da história e impactando que assiste de alguma forma. 

No meio de tudo isso, Westworld ainda conta com uma direção que sabe instigar, inserir significados em cada plano (nada é aleatório aqui) e converter o dinheiro investido em valor de produção. Tanto o mundo real quanto os parques apresentados pela série são palpáveis, ricos e visualmente imponentes graças a uma direção de fotografia afiada, um figurino completo e uma direção de arte que merece ser aplaudida de pé. A riqueza de detalhes presentes no Shogun World ou na Forja, por exemplo, enche os olhos do espectador e merece ser exaltada.

É uma grandiosidade que, somada ao cuidado, se espalha por cada cenário, tomada aérea ou cena de ação, e leva o espectador para dentro de um jeito que por muito tempo só o cinema conseguiu fazer. Tudo é muito bem coreografado, violento e emocionante na medida certa para a existência de duelos típicos à altura dos grandes spaghetti de Sergio Leone ou de um episódio que apresenta toda uma sociedade, gera algumas vibrações diferentes com lutas de espada cheias de personalidade e ainda brinca com a expansão do universo ao revelar respostas sobre a criação das narrativas dentro do parque. O resultado acaba sendo tão completo e poderoso que faz Westworld funcionar tanto como ficção científica cabeçuda pretendida pelo roteiro, quanto como essa imaginativa versão dos faroestes clássicos temperada com um pouquinho de Kurosawa e Bollywood.

Pra completar, a grande favorita ao título de melhor série da atualidade também um elenco impecável. E, mais uma vez, eu não estou falando só do fato da HBO ter conseguido um número de estrelas inacreditável, mas também sobre como cada um desses grandes nomes interpreta seus personagens com alma, adicionando nuances que melhoram ainda mais o roteiro e a direção. Infelizmente, alguns personagens, como a própria Dolores, sofrem por estarem mais unidimensionais nessa segunda temporada, porém o talento de Evan Rachel Wood (Tudo pelo Poder), Thandie Newton (Han Solo: Uma História Star Wars), Jeffrey Wright (A Noite do Jogo), James Marsden (Tudo Por um Furo), Ed Harris (O Show de Truman), Anthony Hopkins (Hannibal), Tessa Thompson (Thor: Ragnarok), Ben Barnes (The Punisher) e Peter Mullan (Filhos da Esperança) superam esses percalços.

E o nível das atuações é nivelado tão pelo alto que seria impossível falar sobre a montanha-russa de emoções que cada um desses atores transmitiu pro espectador a cada episódio, graças aos já citados – exaustivamente – trabalhos de direção, roteiro, técnica e trilha sonora (não, eu não poderia deixar Ramin Djawadi de fora). Mas eu só tô repetindo tudo isso pra dizer que a segunda temporada é inferior ao brilhante ano de estreia de Westworld sem perder sua força, seu brilho e seu coração em nenhum instante. O fator novidade que veio com a primeira temporada já não estava mais no tabuleiro, as pistas já eram procuradas de maneira menos eloquente e algumas decisões narrativas levaram a certos escorregões, porém os pontos fortes que fizeram Westworld mexer com tanta gente ainda marcam presença para criar uma continuação completa e merecedora da sua atenção.


OBS 1: Como assim mataram o Rodrigo Santoro?

OBS 2: Que cena pós-créditos encomendada por Satanás pra fuder nossa mente, hein Dona HBO…