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Delicadeza e surrealismo se encontram em “Viver Para Cantar”, drama chinês sobre uma trupe de ópera moderna que luta para sobreviver


Por vezes o cinema se une as lutas diárias e desafios constantes contra a burocracia e o sistema. Acompanhar a saga de homens e mulheres ávidos por seus e até por mais direitos, é sempre algo relevante. “Viver Para Cantar” (To Live To Sing) não foge dessa premissa ao contar a história de Zhao Li (Zhao Xiaoli, em incrível atuação) e sua trupe de ópera moderna.

Surpreendidos com a demolição de várias teatros antigos da região de Chengdu na China, a líder do grupo percebe que o local em que se apresentam também irá ruir. Buscando mudar a situação, Zhao Li resolve esconder de todos o fim iminente, ao mesmo tempo em que teme perder a sua família.

Poético, o longa chinês com co-produção da França e do Canadá, dosa o drama com belíssimas imagens de apresentações, à medida em que a arte começa a fazer parte da realidade da protagonista.

Simbólico, Viver Para Cantar de Johnny Ma por vezes se perde entre os números performáticos, em sua maioria recheados de significado, mas vazios quando usados de qualquer jeito. A demolição contrasta com a beleza e a permanência do viés artístico atrelado aos valores criativos, nos dá uma comparação imediata com o cinema brasileiro atual.

viver para cantar filme

Trazendo para nossa realidade, é inegável não pensar na rixa com o atual governo e suas diversos formas de censurar nossa arte, assim como os tratores querem acabar com o teatro. O diretor poderia muito bem limitar o visual de Viver Para Cantar a algo essencialmente oriental, mas acaba sendo natural e de fácil compreensão para nós, ocidentais.

A relação familiar de Zhao com sua trupe é potencializada na figura da sobrinha Dan Dan (Gan Guidan), com quem tem mais uma relação de mãe e filha do que qualquer coisa, vendo a menina como um reflexo de sua juventude.

Viver Para Cantar acaba sendo um filme sobre não esquecer as próprias raízes, ao mesmo tempo em que busca compreender o momento certo de parar. Sendo sutil nas críticas sobre comércio versus cultura, e entre o tradicionalismo chinês e a modernidade, Johnny Ma entrega uma obra delicada e surrealista.


* Filme visto na 43º Mostra de São Paulo

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Viver Para Cantar

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Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

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