AODISSEIA
Filmes

Viver Para Cantar (To Live to Sing): A arte da demolição

Quando o cinema cotidiano encontra o cinema burocrático.


7 de outubro de 2019 - 23:48 - Tiago Soares

Por vezes o cinema se une as lutas diárias e desafios constantes contra a burocracia e o sistema. Acompanhar a saga de homens e mulheres ávidos por seus e até por mais direitos, é sempre algo relevante. “Viver Para Cantar” (To Live To Sing) não foge dessa premissa ao contar a história de Zhao Li (Zhao Xiaoli, em incrível atuação) e sua trupe de ópera moderna. Surpreendidos com a demolição de várias teatros antigos da região de Chengdu na China, a líder do grupo percebe que o local em que se apresentam também irá ruir. Buscando mudar a situação, Zhao Li resolve esconder de todos o fim iminente, ao mesmo tempo em que teme perder a sua família.

Poético, o longa chinês com co-produção da França e do Canadá, dosa o drama com belíssimas imagens de apresentações, à medida em que a arte começa a fazer parte da realidade da protagonista. Simbólico, o filme de Johnny Ma por vezes se perde entre os números performáticos, em sua maioria recheados de significado, mas vazios quando usados de qualquer jeito. A demolição contrasta com a beleza e a permanência do viés artístico atrelado aos valores criativos, nos dá uma comparação imediata com o cinema brasileiro atual.

Trazendo para nossa realidade, é inegável não pensar na rixa com o atual governo e suas diversos formas de censurar nossa arte, assim como os tratores querem acabar com o teatro. O diretor poderia muito bem limitar o visual de seu filme a algo essencialmente oriental, mas acaba sendo natural e de fácil compreensão para nós, ocidentais. A relação familiar de Zhao com sua trupe é potencializada na figura da sobrinha Dan Dan (Gan Guidan), com quem tem mais uma relação de mãe e filha do que qualquer coisa, vendo a menina como um reflexo de sua juventude.

Viver Para Cantar acaba sendo um filme sobre não esquecer as próprias raízes, ao mesmo tempo em que busca compreender o momento certo de parar. Sendo sutil nas críticas sobre comércio versus cultura, e entre o tradicionalismo chinês e a modernidade, Johnny Ma entrega uma obra delicada e surrealista.

 

* Filme visto na 43º Mostra de São Paulo