AODISSEIA
Filmes

Crítica: Vingança

Doce Vingança 2.0

5 de junho de 2018 - 14:53 - Tiago Soares

Quem gostou de Doce Vingança, filme de 2011 que teve boa repercussão – mesmo sendo um remake de A Vingança de Jennifer de 1978 – vai ligar os pontos e lembrar do filme (que teve sequências não tão marcantes assim), ao ler a sinopse de Vingança (2018). Ambos são filmes que relatam abusos sofridos por mulheres, que conseguiram dar a volta por cima e se vingar de seus agressores, saindo mais fortes no processo.

Mas, peraí, você me contou o final do filme é isso? Nesse caso, o meio é muito mais importante do que o fim, e até mesmo o início. Esta ‘Vingança’ é francesa e oriunda de um movimento cinematográfico que perdurou por parte dos anos 2000, o New French Extremity, filmes de terror franceses cercados de sangue, sexo explícito e muita, mais muita violência.

Mas tudo ganha significado, graças ao cuidado da diretora, roteirista e feminista Coralie Fargeat. Em seu primeiro longa, ela conta a história de Jennifer (também), uma bela jovem, que decide passar um tempo numa casa distante com seu amante Richard (Kevin Janssens). Lá eles encontram Stan (Vincent Colombe) e Dimitri (Guillaume Bouchède), sócios de Richard, que após sair numa manhã, retorna e encontra uma Jennifer que foi abusada e está com medo (com imensa razão) de permanecer no local.

Coralie decide mostrar menos e dizer mais através da omissão. A violência velada, é muitas vezes maior do que aquilo que pode ser exposto. Está num olhar imundo, está numa fala altamente machista como:“mas você é linda, não há como resistir…” – está na atitude ao empurrar Jennifer para a morte, e fingir que esqueceu tudo.

A partir daí, tudo que Coralie quis omitir, acaba saindo, seja em forma de vísceras, sangue, olhos e ossos partidos. Tudo que ela escondeu ao se tratar de Jennifer, ganha contornos sanguinolentos no ato de vingança. Comparado ao longa citado acima, Vingança ganha ao não deteriorar a imagem de sua protagonista, humilhando-a até que alcance o estado de ódio necessário, mas fazendo com que o sentimento de revide seja parte da personagem.

É muito mais verossímil ver Jennifer sofrer os traumas de seus atos, a medida em que eles são cometidos, já que a mesma não é uma assassina. É prazeroso, por mais mórbido  e sadista que seja, ver Matilda Lutz (do fraquíssimo O Chamado 3), dar um tiro com uma arma que é o dobro do seu tamanho, que a joga pra trás, ao mesmo tempo em que ela atinge seu objetivo.

O trabalho visual de Coralie ao lado do diretor de fotografia Robrecht Heyvaert é fantástico. Cores e luzes vibrantes destoam completamente do clima denso e pesado. Não há escolhas visuais óbvias aqui, e tudo serve a narrativa. A maquiagem também merece destaque, já que tudo parece incrivelmente realista.

O filme talvez encontre seu elo mais fraco no roteiro, que estende as ações demais, deixando um filme de menos de 2 horas, mais longo do que de fato parece. A cena final poderia muito bem ser reduzida (apesar de muito bonita e simbólica). Dito isso, Vingança é um thriller com muito potencial, que entrega o que promete em todos os sentidos.