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Filmes

Crítica: Vingança a Sangue-Frio é o “diferentão” da vez

Cercado por sarcasmo, filme ao menos não repete a fórmula de Liam Neeson


24 de março de 2019 - 16:32 - Flávio Pizzol

Depois de muitos anos marcados por peças teatrais, filmes sérios e indicações ao Oscar, Liam Neeson (A Lista de Schindler) virou sua carreira de cabeça pra baixo quando decidiu estrelar Busca Implacável. Uma decisão acertada que não só o deu um status de astro de ação numa idade incomum, como praticamente inaugurou um novo subgênero do cinema de ação: longas de perseguição com Neeson. Nem todos funcionam, mas isso não impede que o público crie uma certa expectativa que, no caso de Vingança à Sangue Frio, pode ser mortal.

Digo isso, porque a narrativa do filme pode surpreender aqueles que esperam uma loucura cheia de pancadaria e ação. A ideia de colocar Neeson como um pai que decide entrar numa jornada de vingança após o assassinato do filho até segue o padrão (acompanhado por um texto que, como sempre, ignora os mistérios para criar uma trama bastante direta) e não apresenta nada de novo, mas a pegada do filme foge da fórmula e assume as rédeas como principal característica da produção. Isso significa que, mesmo partindo de uma premissa extremamente batida, o longa aproveita o cenário isolado como desculpa pra injetar uma ação mais cadenciada e até mesmo contemplativa em diversos momentos.

Claro que isso faz com que o todo perca alguns pontos na dinâmica, porém ser menos corrido não significa ser ruim. Por mais que o texto de Vingança a Sangue Frio tenha sim momentos mais arrastados (principalmente no segundo ato) e algumas piadas deslocadas, a maior parte funciona dentro da proposta de mostrar – com doses grandes de um humor típico dos Irmãos Coen – um pai amargurado que trabalha tirando neve das estradas. Ele não é um policial ou um agente supertreinado como os que Nesson interpretou nos últimos anos. É um cara normal que decide fazer justiça com as próprias mãos, seguindo um timing próximo do seu universo cercado por neve e simplicidade.

Talvez isso faça você dar algumas piscadas mais longas ou aquele sorriso sem graça, mas a culpa, nesse caso, pode ser muito mais da sua expectativa que do filme em si. Ele optar por um caminho diferente do que vinha sendo feito pelo próprio Neeson não é um erro, considerando justamente o contexto pacato da cidade. É uma escolha proposital que, mesmo fazendo sentido, leva tanto a alguns vacilos, quanto a bons acertos. O que acaba sendo um problema de verdade no texto escrito por Frank Baldwin (estreante responsável pela futura série de The Warriors) é a quantidade de subtramas desnecessárias que fazem com que a trama se estenda muito mais do que o necessário.

Toda a história do protagonista é boa e as sequências com o vilão possuem um charme sangrento que se encaixa na premissa de Vingança a Sangue Frio, entretanto o resto poderia ter sido facilmente resumido, abrindo espaço para outras sequências de ação ou uma contemplação que evoluísse o longa de maneira mais efetiva. Tem os capangas que se beijam só pra justificar uma decisão que poderia ser simplificada com um par de diálogos, tem os índios brincando na neve sem nenhuma consequência durante o terceiro ato e até mesmo um personagem que fica voando de parapente só para criar uma piada na última cena. Mesmo sendo coisas pequenas que não afetariam tanto assim a duração da projeção, tudo isso poderia ser retirado pra enxugar o filme e aprimorar a tal da dinâmica citada lá em cima.

Dessa forma, como o roteiro acaba se resumindo a algumas derrapadas na neve e acertos que não ultrapassam a linha do funcional, muito do trabalho que salva o filme de ser pavoroso recai justamente sobre a direção estilosa do norueguês Hans Petter Moland (O Cidadão do Ano). Ele consegue ser inventivo – dentro dos limites da proposta – durante as cenas de morte, acerta o timing das revelações das notas de falecimento que quebra o ritmo, extrai o melhor de uma fotografia permeada por beleza e solidão, e trabalha com um humor mórbido que ganha vida através do cortes. Não é nada fora da cartilha básica, porém são os pontos que, como eu disse, sobressaem da tela ao ponto de tornar a experiência menos excruciante.

É um trabalho bacana que cria alguma unidade com a atuação sóbria, porém eficiente, de Liam Neeson (As Viúvas). Ele parece estar à vontade no papel de protagonista de Vingança a Sangue Frio e rouba os holofotes nas cenas de ação que não parecem ter nada de inovador para ele, nos momentos onde o texto tenta pincelar o drama e na relação com o garotinho. Emmy Rossum (Shameless) e Tom Bateman (Assassinato no Expresso do Oriente) também ajudam o filme com trabalhos funcionais e algumas doses de carisma que expõe justamente a diversão que deve ser fazer esse tipo de filme. Infelizmente, a única pessoa que, como contraponto, não parece curtir o estilo do job e surge completamente deslocada sem o desenvolvimento do drama de sua personagem é Laura Dern (Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros).

E esse acaba sendo um dos vários desperdícios que poderiam aumentar o peso de uma produção que se conclui apenas como decente, suportável e minimamente divertida. Acerta na construção de uma trama que foge do padrão que vinha ocupando todos os longas de ação estrelado por Neeson (ou qualquer outro ator com as mesmas características), mas erra na organização das suas tramas, afasta os melhores personagens por vários minutos para focar em sequências cansativas e, indo mais longe, dá um passo em falso quando vilaniza os índios sem nenhum desenvolvimento do background. Em outras palavras: Vingança a Sangue Frio não chega ao ponto de ser insuportável, mas poderia ser muito melhor se tivesse construído o entorno da premissa com mais cuidado.