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Filmes

Crítica: Vingadores – Guerra Infinita (SEM SPOILERS)

O começo de um encerramento agridoce e inesperado

26 de Abril de 2018 - 09:20 - Flávio Pizzol

Dez anos. Dezoito filmes. Bilhões de dólares arrecadados. Dezenas de personagens marcados na cultura pop. E, mesmo que poucos soubessem, tudo era apenas o caminho que nos preparava para o maior evento cinematográfico já presenciado pelo ser humano. Carregando toneladas e mais toneladas de hype nas costas, Vingadores – Guerra Infinita finalmente chega aos cinemas para coroar a história da Marvel com o começo impactante e doloroso daquele que pode ser o clímax mais surpreendente de todos os tempos.

A história, como todo alma presente no planeta Terra deve saber, acompanha a busca final de Thanos pelas Jóias do Infinito com o objetivo de completar a manopla (quase o álbum de figurinha da Copa, só que mais poderoso) e usá-la para balancear o universo. Contando com a ajuda de seus filhos/capangas, o vilão atravessa galáxias e planetas com uma sede de destruição que logicamente chama a atenção de heróis que surgem pedras inofensivas no caminho do chefão.

Por mais que esteja enrolando e divagando para não dar nenhum spoilers, uma coisa que pode ser dita sem nenhum medo: se você entendeu, no meio dessa sinopse maluca, que o foco do longa não está nos Vingadores, você achou muito certo. Thanos é um dos personagens em cena que nunca foi desenvolvido, logo o roteiro de Christopher Markus e Stephen McFeely (os mesmos de Guerra Civil) acerta ao criar uma estrutura narrativa que permita apresentar e desenvolver a linha de raciocínio que direciona as ações do vilão. Como aconteceria em um grande jogo, o texto usa a busca pelas joias como fases que vão guiando a jornada do vilão e, consequentemente, seus encontros com Os Vingadores.

 

 

Mesmo parecendo estranha dentro da construções prévias do universo, essa organização facilita e muito o desenrolar de uma história que tinha tudo para ser confusa. É muito difícil fazer qualquer comentário sem dar spoilers, mas posso adiantar que Markus e McFeely receber um prêmio por conseguir juntar tantos personagens e marcantes sem deixar o ritmo cair ou o fio da meada se perder. Lógico que tudo precisa acontecer de maneira extremamente acelerada, porém isso nunca chega a ser um prolema, já que uma mesma sequência é usada para estabelecer o lugar de cada herói nesse grande tabuleiro, apresentar em que pé estão seus relacionamentos mais próximos e preparar o cenário para algum encontro (leia-se pancadaria) com o vilão ou seus lacaios. É tudo muito direto e conciso.

Esse imediatismo cobra seu preço quando um certo momento do filme pede um pouquinho mais de desenvolvimento na relação de Gamora com seu pai adotivo, mas também injeta uma agilidade que faz o filme voar. Não fique preocupado quando ver que os núcleos foram apresentados, desenvolvidos e alcançaram os respectivos clímax sem que você percebesse, porque isso é só resultado do casamento entre uma edição certeira e um roteiro que sabe exatamente o caminho que precisa percorrer até o final. E, falando no percurso, os roteiristas usam a tão criticada Fórmula Marvel a seu favor o tempo todo, entregando humor, catarse e drama nas horas perfeitas.

No entanto, seria injusto colocar todos esses acertos nas mãos de Christopher Markus e Stephen McFeely, quando os diretores Anthony e Joe Russo (Community) são peças-chave no trabalho que a Marvel tem feito nos últimos anos. Eles provaram que conseguiam brincar com gêneros diferentes e manter o pé no chão em Soldado Invernal, dominaram a arte de reunir super-heróis e entregar cenas de ação incríveis sem apelar pra momentos de grandiosidade desnecessária e, agora, completam o curso com uma colagem de cenas construídas com o timing certeiro para impactar. Thanos, por exemplo, perderia boa parte da sua presença de cena, caso o filme já não começasse com o pé na porta e estabelecesse o nível de ameaça nos primeiros minutos. Até mesmo as aparições de certos personagens (muitas delas desconhecidas pelo público) poderiam soar como algo qualquer, se eles não soubesse como tirá-los da sombra da forma mais catártica possível.

 

 

Contando com efeitos visuais de primeira e uma fotografia simplesmente incrível, os dois cravam seus nomes na história dos blockbusters ao acertarem em praticamente tudo na área criativa e logística. O fato de ser humanamente impossível listar todos os membros do elenco nesse texto adianta algumas pistas do pesadelo que foram as gravações, mas o que está na tela jamais passa essa sensação. Eles fazem um ótimo trabalho quando a ideia é confrontar personagens que nunca dividiram o palco e acertam com ainda mais força ao usar,de maneira direta, o carisma e a química entre os atores no restante do tempo. Em outras palavras, você só precisa preparar o ambiente e deixar que os nomes de sempre roubem os holofotes.

Nesse caso, é óbvio que Robert Downey Jr., Chris Evans e Chris Hemsworth continuam sendo os responsáveis por carregar o peso das principais subtramas nas costas, entretanto nomes como Tom Holland, Chris PrattChadwick Boseman, Dave Bautista, Bradley Cooper, Mark RuffaloBenedict Cumberbatch assumem o posto em alguns momentos de grande importância muito bem distribuídos pelo roteiro. O fato dos grandes desenvolvimentos de personagem serem substituídos pela reunião mais direta dos heróis em prol de uma missão pontual e urgente rouba um pouco do destaque que esses talentos incríveis poderiam ter individualmente, mas o longa poderia seguir outro caminho se quisesse encaixar todo mundo em 2 horas e meia de projeção.

Já com Thanos, a história é completamente diferente: ele é o protagonista de boa parte do filme e precisa funcionar de maneira mais isolada que os heróis para convencer o público de sua motivação. E, ainda que seja difícil concordar com algo tão bizarro quanto a destruição de metade do universo, a compreensão do que o levou até ali existe graças ao roteiro e ao trabalho impecável de Josh Brolin (Sicario: Terra de Ninguém). A atuação por captura de movimenta atingiu níveis de realismo absurdo, servindo sempre como fermento para a construção de um vilão ameaçador, sarcástico e imprevisível.

 

 

E, no final das contas, Vingadores – Guerra Infinita consegue fazer exatamente o que prometeu: surpreender nos diversos momentos que ficaram trancados às sete chaves até agora, preparar um coquetel de emoções muito próximo do que era esperado e, acima de tudo, entregar o filme que o Universo Cinematográfico da Marvel precisava para começar a conclusão do seu primeiro ciclo. Passa longe de ser perfeito e pode até incomodar alguns pela ausência de um encerramento verdadeiro, mas sabe brincar com os sentimentos do espectador, criar momentos de impacto (que não podem ser descritos sem soltar algum spoiler) e preparar o terreno para o fim como poucos. Tudo o que você pode fazer é preparar o coração para se divertir, vibrar, sofrer e quem sabe conter as lágrimas que podem surgir nos últimos minutos que antecedem o fim.

 


OBS 1: Me desculpem se o texto ficou genérico demais. Fiz o melhor que pude para comentar aspectos importantes sem dar spoilers…

OBS 2: De qualquer forma, vou precisar rever o filme antes de explicar algumas coisas que estou sentindo…


OBS 3: A partir daqui, vou incluir algumas considerações que podem ter SPOILERS. Se você não viu o filme, saia da página e volte depois para a discussão…

a) Para quem ainda tinha alguma dúvida, Vingadores 4 será sim uma continuação direta de Guerra Infinita.

b) O filme é realmente construído como a preparação do terreno para o fim e eu entendo como isso pode incomodar parte do público, mas o final possui sim uma conclusão dentro do arco do Thanos. Ao menos, não é um final no estilo Desolação de Smaug.

c) Sim, o Doutor Estranho sabia o que está fazendo quando entregou a Jóia do Tempo. Na minha opinião, ele viu que Thanos precisava destruir metade do planeta pra alguém chamar a Capitã Marvel.

d) A atitude passional de Peter Quill em uma das principais lutas contra Thanos revoltou parte da sala em que eu estava, mas eu entendo a construção do personagem e acho até mesmo que tudo aquilo pode fazer parte de um plano do Doutor.

e) Já a relação entre Thanos e Gamora é um problema que me tirou do filme (o único) e quase cortou um ponto da nota final. Um flashback – puxado do nada – e uma lágrima escorrendo no olho não foram o suficiente pra me convencer que ele amava ela.

f) Mesmo sabendo que o momento não é definitivo, a cena do Homem-Aranha morrendo nos braços do Tony foi dolorosa demais pra mim e comprovou minha teoria de que o Capitão ia morrer nos braços dele. Só errei o herói, mas tá valendo…

g) A ausência de trilha sonora e piadas nesses últimos minutos é um acerto indiscutível.

h) Ao contrário do que eu pensava, o filme não gira em torno de um plot twist de explodir cabeças. Ele é sim composto por alguns momentos que usam caminhos diferentes do esperado (a maneira como o Doutor entrega a Jóia, por exemplo) e uma pá de cenas que, apesar de não serem necessariamente reviravoltas, dependem da surpresa pra impactar. Tudo antes de chegar a um final tão emocional que consegue ser inesperado até pra quem já tinha cogitado aquilo.