AODISSEIA
Filmes

Crítica: Vidro é a primeira grande decepção do ano

Filme não passa de um universo quebrado em cacos que nem sempre se encaixam...

18 de janeiro de 2019 - 02:14 - Flávio Pizzol

Corpo Fechado (2000) é um filme à frente do seu tempo que reúne com brilhantismo estudos de personagem, tensão e uma reinvenção realista dos quadrinhos. Já Fragmentado (2016) é um ótimo suspense de sequestro que se revela como parte de algo maior. No entanto, os dois longas tem em comum o fato de esconderem seu verdadeiro propósito pra mexer com o espectador. Um privilégio que o Vidro não tem, já que todo mundo sabe que ele é conclusão de uma trilogia sobre super-heróis (mesmo que realistas) e colocou muita expectativa nisso. E o problema aqui é justamente esse: mesmo entregando coisas interessantes dentro desse âmbito, o resultado é um filme despedaçado que decepciona mais do que surpreende.

A trama desse terceiro capítulo acompanha um David Dunn mais velho, atuando como vigilante enquanto tenta encontrar A Horda para salvar algumas garotas sequestradas. Ou seja, seguindo suas carreiras como herói e vilão até que o confronto entre eles resulte na prisão de ambos em um hospício onde a misteriosa Dra. Ellie Staple pretende provar que os super-poderes são apenas frutos de mentes psicóticas e traumatizadas. A questão é que, além disso tudo, esse é o mesmo lugar onde o grande Mr. Glass ficou preso desde a revelação de seus planos vilanescos contra David.

É lógico que a proposta vai soar um tanto quanto mirabolante, mas é impossível negar que ela tem a cara da franquia e resulta em um começo realmente bom. A reapresentação de Dunn após tantos anos, a relação dele com o filho, a atuação de Kevin e suas personalidades sem nenhuma amarra e a evolução dos personagens como um todo são peças que se encaixam o suficiente pra prender a atenção dos fãs e conduzir tudo para uma cena de ação que eu não esperava ver tão cedo. É claro que M. Night Shyamalan (A Visita) não perde a chance de filmar tudo do jeito menos grandioso possível, porém a sequência cumpre seu papel de injetar um ar mais “heroico” na produção sem perder a chance de lembrar que estamos diante de um filme pé no chão. Em outras palavras: ainda que cenas de ação no primeiro ato seja um recurso típico da Marvel, você precisa saber que não entrou pra ver nenhum Vingadores.

E, por mais que pareça, isso passa bem longe de ser um ponto negativo, afinal estamos falando de um universo que chamou atenção justamente por apresentar seus super-heróis nesse contexto realista. O problema aqui é que Vidro deve ser o filme mais desorganizado dos três, contando até mesmo com um segundo ato que parece fazer questão de deixar esses defeitos claros. Não existe equilíbrio entre as tramas de cada personagem, a transição entre os diversos gêneros é fraca e a montagem se perde constantemente numa imensidão de núcleos que não parecem estar no lugar certo. E esse último aspecto talvez seja o que mais me incomoda, já que, seguindo a natureza de um “crossover“, esse longa tem personagens e subtramas demais pra se dar ao luxo de não ser bem resolvido narrativamente. E o resultado disso é um segundo ato extremamente arrastado que perde tempo nas motivações erradas, explorando personalidades da Horda que não levam a nada ou tentando explicar certas amarrações desnecessárias quando poderia aproveitar melhor a interação entre os protagonistas ou a discussão psicológica que cerca a trama para de fato desenvolvê-los.

E, pra piorar a situação, isso também faz com que o longa falhe grandiosamente na sua construção como um bom suspense. O segundo ato em questão não tenta criar nenhuma cena de tensão, não flerta em nenhum momento com algum senso de perigo ou urgência e se preocupa ainda menos em conectar as peças para chegar em algum lugar. É óbvio que ele chega em nesse ponto onde as promessas se cumprem e o escopo se expande para assumir suas relações com as histórias em quadrinhos, mas, nesse ponto, o público já está saturado das pistas confusas e o clímax acaba gastando mais tempo arcando com as consequências de não ter um background bem construído do que realmente surpreendendo.

E chega a ser triste notar que boa parte desses escorregões poderiam ser evitados com um pouquinho mais de organização, visto que a ausência de Mr. Glass de boa parte da obra é uma das peças que impede Vidro de ser mais direto. Ele é o responsável por revelar os verdadeiros propósitos da trama, encaixar as partes do quebra-cabeça e dar energia para a produção como um todo, logo faz falta no restante do longa. Sim, eu sei que essa demora é proposital e explicada com todas as letras pelo seu papel de organizador – mastermind – do tabuleiro, entretanto ser intencional ou premeditado não significa que vai funcionar sem nenhum falha. E, nesse caso, quando o texto erra em elementos tão básicos, não adianta ter Samuel L. Jackson (Kong: A Ilha da Caveira), Bruce Willis (Moonrise Kingdom), James McAvoy (Atômica), Anya Taylor-Joy (A Bruxa) e Sarah Paulson (Bird Box) roubando os holofotes ou interpretando milhares de personalidades na mesma cena, porque tudo vai soar problemático e fora do lugar.

Também não adianta tecer referências brilhantes aos quadrinhos inseridas no centro da narrativa, criar um ótima cena de ação no clímax ou cumprir as citadas promessas de reunir e concluir o universo, porque o resultado já vai ser um terceiro ato bastante apressado que engata uma reviravolta uma atrás da outra (algumas boas, outras nem tanto), impedindo que o espectador sinta o impacto do que está vendo e quase obrigando o texto a encaixar certos artifícios didáticos que nem Christopher Nolan teria coragem de usar. Isso sem contar com os vários finais que, no meio dos personagens dedicados a explicar todas as reviravoltas de frente pra câmera, vão enganando o espectador e alongando Vidro muito mais do que o necessário.

Mas calma: isso não significa que o Shyamalan é um diretor/roteirista ruim ou que o filme seja péssimo. Vidro tem bons diálogos (destaque pra reunião de todos eles com a médica), os movimentos de câmera e enquadramentos são inventivos, o uso das cores como parte da narrativa é brilhante e o final chega muito perto de salvar a produção, porém a desorganização narrativa – que não fica restrita só ao texto ou ao trabalho como diretor – prejudica o desenvolvimento de um filme redondo como seus anteriores e que possa, acima de tudo, conquistar nosso coração como um ótimo suspense. E, como uma coisa leva a outra, Vidro acaba sendo a conclusão mediana e bastante brochante de um universo que merecia muito mais.


OBS 1: Ainda tô de cara com o fato de que o Dunn é deixado literalmente de lado por uns quarenta minutos durante o segundo ato sem motivo nenhum.

OBS 2: A reviravolta principal desse filme é boa, mas não é daquelas que faz você querer rever tudo em busca de pistas…

OBS 3: [COMEÇO DOS SPOILERS] O segundo final do longa é um belo de um coito interrompido e me incomodou muito. Eu sei que uma história daqueles personagens fictícios pode continuar sem outro filme, mas flertar com isso quando prometeu uma conclusão é a mesma coisa que encerrar sem encerrar nem deixar aberto. No entanto, entendo que o fato de ter saído decepcionado com o todo pode ter deixado essa impressão maior e mais exagerada na minha mente, então deixo a pergunta pra quem já viu Vidro: qual a sua opinião sobre o final? [FIM DOS SPOILERS]