AODISSEIA
Filmes

Crítica: Vidas à Deriva evidencia o poder do amor e da força de vontade

Coloca mais um ótimo drama sobre naufrágos pra conta

14 de agosto de 2018 - 16:45 - Flávio Pizzol

Sustentado por uma longa lista de exemplos que pode conter filmes como A Vida de Pi, Até o Fim, Na Natureza Selvagem e até mesmo O Regresso, o cinema já comprovou por a+b que pessoas isoladas duelando contra natureza costumam gerar filmes interessantes nos mais diversos gêneros. Vidas à Deriva entra nessa mesma onda e, mesmo se arriscando ao inserir um romance no centro da trama, consegue ser um desses dramas poderosos e intensos que tem tudo para ser citado em textos como esse que serão escritos no futuro.

A trama, baseada em fatos reais, acompanha Tami Oldham, uma jovem que saiu de casa com o objetivo de conhecer o mundo. Seu plano de vida seria basicamente escolher um destino, aproveita as belezas locais enquanto trabalha o suficiente para seguir em frente e partir para o próxima parada, mas ela se apaixona por um velejador solitário e aceita um trabalho ao lado dele: atravessar o pacífico para deixar um barco na Califórnia. Como se uma mudança dessas não fosse grande o bastante, tudo sai do rumo de vez quando seus caminhos cruzam com maior furacão registrado na região e o barco, naufragado, fica à deriva.

O resultado disso é obviamente um filme de sobrevivência que ganha muito com a escolha de um diretor acostumado com essa temática marcada por isolamento e duelos solitários contra a natureza. Baltasar Kormákur (Contrabando) é reconhecido por outros longas – como o islandês Sobrevivente e o hollywoodiano Evereste – que possuem a mesma pegada de Vidas à Deriva e, quando o roteiro aposta em escolhas simplórias, é essa experiência que o faz ser um dos destaques da produção. Contando com a ótima fotografia de Robert Richardson (Os Oito Odiados), ele controla muito bem o ritmo da trama e acerta em cheio na inventividade e efetividade de quase todos os planos escolhidos.

As tomadas abertas refletem com perfeição o isolamento dos protagonistas e sua pequenez diante do grandioso oceano. Os close ups temperam a produção com alguns bem emocionantes, como na história sobre o pai onde Kormákur decide aproximar a câmera do rosto de Shailene Woodley (Big Little Lies) sem cortar. Alguns dos momentos mais movimentados também injetam energia na hora em que a produção está ficando mais lenta, apelando inclusive para um incrível e relativamente longo plano-sequência que abre o longa. Ou, em certos casos, ele escolhe pegar uma cena que passaria despercebida e encantar o público com a câmera acompanhando o salto de uma pedra de maneira incomum ao gênero.

A montagem de John Gilbert (Até o Último Homem) também acaba ganhando muito destaque graças a forma como o roteiro escrito por Aaron e Jordan Kandell (Moana: Um Mar de Aventuras) em parceria com David Branson Smith (Ingrid Vai para o Oeste) decide contar a história, subvertendo o desenvolvimento linear mais comum em biografias como essa. Nesse caso, Vidas à Deriva começa logo após o naufrágio e alterna – com conexões muito boas entre as linhas temporais – o começo da história construída pelo casal principal com a sobrevivência a partir do momento em que eles ficam isolados no mar.

Essa decisão torna o comecinho do filme um pouco mais arrastado do que deveria, mas ele acaba conseguindo pegar no tranco, deixa a curiosidade carregar o espectador e mostra a importância dessa construção minuciosa no final. Digo isso porque o clímax consegue concentrar todos os ápices emocionais disponíveis na história, incluindo o naufrágio em si (cumprindo sua função de “cena de ação”), um momento de catarse emocional que acompanha o resgate e uma reviravolta surpreendente que só funciona por conta da construção cuidadosa do primeiro ato.

É verdade que o fato do longa não explorar a relação do casal protagonista logo de cara, ali no primeiro ato, dificulta um pouquinho a conexão do público com os personagens, porém, assim como na história real, os problemas são superados com foco, determinação, um jogo de câmera inteligente e um elenco – representados quase exclusivamente por Woodley e Sam Claflin (Como Eu Era Antes de Você) – que brilha na última metade de Vidas à Deriva. Ele cumpre muito bem sua função de passar credibilidade emocional tanto no romance quanto na dor, no entanto, ninguém pode negar que o filme é de sua companheira de cena. Tami é uma personagem empoderada e forte cujo ponto de vista funciona como linha narrativa da história, carregando a produção nas costas e entregando bons momentos seja nas partes mais movimentadas ou naquelas mais doces e intimistas.

Além disso, o sim dela é responsável por levar o espectador nessa jornada e não existiria nada mais justo do que permitir que ela fosse a face que conduzisse toda a tensão e emoção de maneira invejável. Eu admito que senti falta de algo que me fizesse, por exemplo, chorar com mais intensidade nas últimas cenas de Vidas à Deriva, mas fiquei curioso, torci pelo final feliz, sentei na pontinha da poltrona e senti meu queixo caindo em diversos momentos de uma projeção extremamente bonita e poderosa sobre o amor e a vontade de sobreviver. E isso já é mais do que o suficiente pra mim…