AODISSEIA
Filmes

Crítica: Vida

25 de abril de 2017 - 17:13 - Flávio Pizzol

Quem disse que reciclar histórias é sempre ruim…


Tela preta, estrelas brilhando, uma nave se movimentando e astronautas precisando sobreviver na imensidão do espaço. Essa combinação já foi utilizada como abertura de muitos longas e pode resumir uma parcela considerável da ficção científica, passando tanto por clássicos como 2001: Uma Odisseia no Espaço quanto pelo romance água com açúcar de Passageiros. A repetição dessa temática é tão comum que fica difícil culpar qualquer produção de plágio ou impedir aquele deja vú. É provável que grande parte do público se pegue lembrando de Gravidade ou Alien – O Oitavo Passageiro (principalmente o segundo) durante a sessão de Vida, porém eu acredito que essa reciclagem de narrativas não anula problemas nem tira qualquer mérito do filme.

O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick (responsáveis por Deadpool e Zumbilândia) acompanha a história dos seis tripulantes responsáveis por recolher a primeira amostra conclusiva sobre a presença de vida em Marte. Tudo começa a dar errado quando esse ser composto apenas por células básicas– músculos, cérebro e olho – demonstra uma inteligência acima do normal e decide “andar com suas próprias pernas”. Assim como acontece em Alien, o efeito colateral disso é a morte de alguns tripulantes e uma luta mortal para sobreviver ou, no mínimo, impedir que o monstrinho chegue à Terra com vida.

Mesmo com essa referência muito óbvia no desenvolvimento da trama, o texto possui uma certa atualização na forma como aborda a cobertura midiática da descoberta, os conceitos científicos e os debates éticos que surgem durante os conflitos e a apresentação sem nenhuma enrolação dos tripulantes (alguns deles são propositalmente subdesenvolvidos, mas já vamos voltar nisso). Até a comédia – característica recorrente na filmografia dos roteiristas – que permeia o primeiro ato funciona muito bem como reflexo da relação entre os personagens. Mas, no fim, é tudo uma questão de comprar ou não a história: eu mergulhei, dei algumas risadas, tomei um ou dois sustos e fiquei tenso sempre que o filme apostou nesse lado.

Uma parte desse mérito vai merecidamente para a direção do sueco Daniel Espinosa (Protegendo o Inimigo). Mergulhado nos ótimos efeitos especiais e no design de produção impecável, ele prende a atenção do espectador, mantém a câmera sempre flutuando para “reproduzir” os efeitos da gravidade zero na nave e desenvolve cenas de ação decentes. O destaque, na minha opinião, vai para o longo plano-sequência que acontece logo nos primeiros minutos e já apresenta quase todos os cômodos da estação espacial no melhor estilo Martin Scorcese em Os Bons Companheiros.

O único problema do filme está em uma certa previsibilidade que surge mais pela estruturação do roteiro que pela reciclagem de elementos em si. A trilha sonora antecipa todos os possíveis jumpscares com a diminuição repentina do volume, cada linha de diálogo é posicionada cuidadosamente para justificar a ação futura de algum personagens e por aí vai. É tudo tão amarradinho que qualquer cinéfilo acostumado com filmes de terror consegue adivinhar a ordem das mortes de acordo com a quantidade de revelações sobre o passado de certo personagem. O visual do alienígena talvez seja a única coisa realmente imprevisível, mas não é suficiente para anular a obviedade do texto.

Mesmo sendo facilmente reconhecido, carismático e surpreendentemente multiétnico, o elenco também não consegue fazer nada demais no meio de diálogos genéricos e certos personagens que foram criados para morrer. Sem dar grandes spoilers posso dizer que Jake Gyllenhaal (O Abutre), Rebecca Ferguson (A Garota no Trem), Hiroyuki Sanada (Wolverine: Imortal) conquistam o espectador com mais facilidade, enquanto Ryan Reynolds (R.I.P.D. – Agentes do Além) sente falta da comédia mais escrachada, Ariyon Bakare (Rogue One: Uma História Star Wars) perde camadas quando toma decisões sem deixar suas motivações claras e Olga Dihovichnaya fica restrita basicamente a responder perguntas de crianças.

Mesmo assim, eu acredito que uma parte muito pequena desses problemas é culpa dessa suposta reciclagem da estrutura narrativa ou dos clichês do gênero. O número de produções em cada nicho aumentou tanto que está cada vez mais encontrar histórias completamente originais, então vale enxergar um pouco mais de valor na forma como as misturas entre essas referências podem gerar produtos diferentes dentro do mercado. Nem sempre dá certo, mas Quentin Tarantino e La La Land são bons exemplos de histórias bem contadas que surgem das referências de um criador. Vida é exatamente isso e, entre erros e acertos, cumpre sua promessa de entregar um bom filme de suspense espacial.


OBS 1: O final do longa se torna imprevisível graças ao brilhante trabalho da montagem, mas eu preciso de mais tempo para saber se o resultado é positivo ou negativo.