AODISSEIA
Filmes

Crítica: Vice quer ser muita coisa, mas alcança pouco

Uma boa ideia que acaba destruída por uma execução apenas razoável...


3 de fevereiro de 2019 - 12:26 - Flávio Pizzol

Adam McKay ficou conhecido em Hollywood por seu trabalho como diretor (especificamente comédias protagonizadas por Will Ferrell) depois de comandar os ótimos O ÂncoraRicky Bobby e Tudo por um Furo. Em 2015, ele decidiu sair dessa zona de conforto para investir no também ótimo A Grande Aposta, usando os aprendizados de sua carreira como combustível para misturar drama e comédia do jeito mais satírico e debochado possível. O resultado foi um – inesperado, porém justo – Oscar de Melhor Roteiro Adaptado no ano seguinte. Dessa forma, não é nada surpreendente que ele tente reproduzir sua fórmula de sucesso em Vice.

Uma decisão que, à primeira vista, possui muito potencial. Falar sobre política de maneira didática e extremamente ácida poderia ser sim uma boa maneira de adaptar a história de Dick Cheney para o cinema. Afinal estamos falando de um assunto complexo (ainda mais por se tratar da versão americana da coisa), de uma personalidade dúbia que se encaixa muito bem nesse tipo de narrativa e de uma ascensão cheia de aspectos questionáveis que levou um mero estagiário da Casa Branca ao cargo de vice-presidente numa das fases mais importantes dos EUA.

Logo, dentro das escolhas narrativas estabelecidas como padrão, o espectador pode esperar por constantes mudanças temporais, várias quebras da quarta parede, uma ou outra referência aos quadrinhos, metáforas visuais que comparam política a pedaços de carne ou a uma pescaria, interrupções shakesperianas, créditos deslocados e muito mais. E, ainda que a quantidade de artifícios soe exagerada tanto no papel quanto na prática, o problema de Vice não está no uso desses recursos estilísticos, e sim na execução das peças. Pra falar a verdade, muitas dessas sacadas acertam no humor e rendem ótimos momentos individualmente, no entanto o filme em si não passa de uma porção de boas ideias sem a harmonia necessária para evidenciar qualquer unidade.

E, nesse caso, o narrador-personagem acaba sendo um dos recursos utilizados da maneira mais errônea aqui. Ele até funciona como reviravolta no terceiro ato, porém parece deslocado em todas as aparições, sofre com alguns diálogos sofríveis e tem sua função reduzida basicamente ao ato de descrever o que está na tela, criando momentos expositivos que ultrapassam o limite do exagero. É verdade que, quando se trata de falar de certos termos políticos, esse didatismo é válido (e foi um dos destaques do A Grande Aposta, por exemplo), mas descrever tudo que já está sendo mostrar é preguiçoso demais. Fora que esse texto problemático ainda desperdiça a atuação do sempre ótimo Jesse Plemons (A Noite do Jogo), considerando, entre outras coisas, que ele nunca consegue alcançar a sagacidade, a acidez e a sutileza de Ryan Gosling no já citado filme anterior do diretor.

No entanto, todos esses escorregões citados parecem ser sintomas de um diretor que não confia no seu próprio material (ou no público que vai apreciá-lo também) e acaba usando as explicações exageradas para encobrir essas dúvidas. Um exemplo claro disso está no momento em que Vice quebra a sequência linear de eventos só pra mostrar uma cena bem curta de Cheney sendo vilanesco no seu “futuro” sem motivo nenhum. E eu sei que um outro grande problema do filme está na falta de equilíbrio entre as facetas dessa figura que deveria ser tipo um anti-herói, mas a ansiedade de deixar claro como ele é escroto durante um momento em que sua vida era ser um pobre estagiário revela, na minha opinião, que o próprio Adam McKay não acredita que seu texto vai dar conta de ser, no final das contas, um estudo de personagem tão claro assim.

Esse tipo de decisão queima boa parte do potencial da produção e acaba ampliando certos erros de roteiro no decorrer da narrativa. Entretanto, por mais que essa crítica tenha sugerido o contrário até aqui, Vice passa longe de ser um filme pavoroso. O texto escolhe os momentos certos da vida de Cheney para caracterizá-lo nas curtas duas horas de produção (fugindo assim do maior problema do gênero biográfico), faz críticas políticas contundentes, entrega boas doses desse humor que se divide entre risadas e reflexões e possui um timing de montagem acima da média. No entanto, vale notar que todos os acertos recaem mais no colo do trabalho de Adam McKay como diretor do que como roteirista.

Algo que também pode ser percebido na sua relação com o elenco, revelando sem nenhuma dúvida que McKay é sim um ótimo diretor de atores. Christian Bale (Mogli: Entre Dois Mundos) é o grande e óbvio destaque do grupo, já que o ator mudou fisicamente e se submeteu a horas de maquiagem para incorporar o vice-presidente com o máximo de detalhes possível. A questão é que, mesmo com várias próteses no rosto, Bale não cai na armadilha de exagerar nas feições. Pelo contrário, ele interpreta Cheney como uma cobra sorrateira e usa tanto a voz sussurrante quando o jeito de andar arrastado como características essenciais da persona. É um trabalho de trejeitos que, além de tudo, consegue diferenciar as facetas do protagonista mesmo quando o roteiro falha e isso por si só já seria um motivo para que ele faturasse o Oscar desse ano. E eu concordo plenamente que essa não é a melhor atuação do próprio Bale, mas, se for pra uma imitação ganhar, penso que ele esteja um degrau acima de Rami Malek.

Entre os coadjuvantes, Amy Adams (Objetos Cortantes) brilha nos grandes momentos de Lynne Cheney, mas essas cenas marcam presença em pequena quantidade no meio de um texto pobre que, graças ao foco nele, a reduz ao papel de mera motivação do marido. Sam Rockwell (Três Anúncios para um Crime) não tem material pra fazer valer mais uma indicação ao Oscar, mas carrega o nome do George W. Bush e faz um trabalho bem eficiente quando está em cena. Já Steve Carell (Querido Menino) chama atenção por interpretar um personagem carismático que contrapõe a personalidade fechada de Cheney, mas também acaba sem muita coisa pra fazer dentro de um filme que tem seu protagonista definido e, mais do que isso, interpretado por alguém que rouba os holofotes sem dó nem piedade.

Esse conjunto de erros e acertos resulta em um filme que exala ótimas ideias ao mesmo tempo em que não consegue reunir tudo dentro da mesma toada, do mesmo tom. É um filme problemático que pode crescer, caso o público se apegue ao protagonista ou seja formado por seres humanos que realmente gostem de política americana. Se você estiver fora desses grupos, existe grande chance de encontrar um filme que, apesar de almejar muito, não consegue ser mais do que razoável. Em outras palavras: Vice não é brilhante, porém continua sendo assistível dentro dos seus objetivos de ser um A Grande Aposta 2.0.


OBS 1: Vice tem cena pós-créditos e ela é uma piada brilhante. Fique!