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Crítica: Venom é exatamente o que a gente esperava…

Ou seja, uma bomba cheia de merda prestes a explodir!

5 de outubro de 2018 - 04:18 - Flávio Pizzol

Desde o seu anúncio, Venom nunca conseguiu me convencer: parecia uma ideia desenvolvida às pressas para suprir a ida – temporária – do Homem-Aranha para a Marvel através da transformação de um vilão em anti-herói. Aí vieram os trailers, pôsteres, camisas e outros materiais de divulgação, e, ainda que o visual do personagem chamasse atenção, nada conseguia me deixar com vontade de assistir esse filme. Eu sei que muita gente pensa o contrário, mas preciso ser o portador de más notícias ao dizer que eu, a redação do site, a imprensa internacional e mais uma galera pessimista estávamos certos quando chamávamos essa produção de erro.

A história até que se presta ao cuidado de seguir um arco dos quadrinhos para apresentar o encontro entre Eddie Brock, um repórter que perdeu tudo, e um simbionte alienígena com sede de sangue no caminho para a criação de alguém que, entre cabeças arrancadas, salvasse pessoas. Até aí tudo bem, afinal, mesmo sendo uma ideia questionável, o longa é baseado em uma trama canônica que funciona nas páginas dos quadrinhos. O problema é que nada daquilo que é proposto pelo longa funciona e e a única coisa que nos resta fazer ao final da projeção é ficar se perguntando o que deu errado ou quais são os motivos por trás de tantas falhas em conjunto. E vou te dizer que fazia algum tempo que não assistia um filme que acumulasse tantos erros como acontece aqui.


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Diante disso, eu decidi separar a crítica de Venom em tópicos, mudar a minha ordem comum de análise e analisar os possíveis culpados desse pesadelo em forma de filme, começando com a eliminação de alguns suspeitos que podem receber acusações injustas no meio de toda essa confusão.

Suspeitos nº 01: Tom Hardy, Michelle Williams e o restante do elenco.

Preciso começar dizendo que Tom Hardy (O Regresso) é sim um bom ator. Não é nenhum gênio, mas é um sujeito esforçado que tenta compensar suas limitações com bom vontade e determinação. E esse conjunto faz com que ele passe longe de ser um dos problemas de Venom. Pelo contrário, ele realmente tenta compreender o personagem e a agonia de ser controlado por outro ser que fica dando pitaco dentro da sua cabeça. A questão é que todo esse processo vai parar no lixo quando o outro suspeito que será citado adiante (spoiler: é o roteiro) decide que toda essa batalha interna entre criaturas vai durar pouco mais de vinte minutos, resumindo todo o resto ao ator mexendo a cabeça, resmungando e fazendo umas caretas que poderiam facilmente representar algum problema de prisão de ventre.

Michelle Williams (Manchester À Beira-Mar), ao contrário do seu parceiro de elenco, não precisa ter sequer seus talentos como atriz questionados, porém merece um parágrafo aqui porque interpreta uma personagem com quase nenhuma função narrativa. Alguns podem argumentar que ela faz a ex-mulher dele e ajuda ele em certo momento da trama, mas qualquer outra pessoa sem o calibre de Williams poderia assumir seu posto para proferir algumas palavras sem pé nem cabeça, correr um pouquinho, dar um beijo fantasiada de computação gráfica e apertar um botão. É difícil entender porque o filme gastou grana com uma atriz como ela, no entanto é ainda mais difícil compreender porque ela aceitou participar de um bomba dessa. E pode descontar o fator diversão que muita gente usa desculpa, porque ela sequer tem faz piadas ruins ou tem participação ativa em cenas de ação.

Já o restante do elenco, incluindo o ótimo Riz Ahmed (The Night Of), aproveita seus personagens rasos como uma colher de chá pra atuar sem esforço e ganhar um contra-cheque gordo no final da semana. E não, não existe mais nada pra falar fora isso…

Suspeito nº 02: Ruben Fleischer, o diretor.

O jovem Ruben Fleischer (do incrível Zumbilândia) é um sujeito limitado que demonstrou em outros filmes precisar de roteiros brilhantes para entregar resultados acima da média, mas ele também não pode ser considerado o maior culpado por esse desastre chamado Venom. Com exceção da bagunça de computação gráfica que deixa o terceiro ato quase inassistível na projeção escura do 3D, ele até consegue fazer um trabalho minimamente decente, arrancar momentos de horror em alguns frames e aproveitar o ótimo visual do protagonista, mas não chega nem perto de salvar a produção porque nada disso se sustenta além de poucos segundos de tela.

O terror, por exemplo, realmente desponta diversas vezes na bizarra mistura de gêneros que marca Venom, porém nunca consegue chegar ao seu máximo porque a ausência de sangue é necessária para manter a classificação etária de “filme de herói”. O humor também surge de maneira tão aleatória e deslocada na maior parte do longa que nem o comediante mais experiente conseguiria exibir algum timing cômico. Em outras palavras, ainda que seja justo que Fleischer assuma a culpa de uma porcentagem dessa coisa que foi parar nos cinemas, seu trabalho foi completamente mutilado por um texto indeciso e recheado de todos os problemas inimagináveis.

E, como já era esperado, isso nos leva ao próximo suspeito

Suspeitos nº 03: Os quatro roteiristas do apocalipse.

Escrito pelas mãos trêmulas de Scott Rosenberg (Jumanji: Bem-Vindo à Selva), Jeff Pinkner (O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro), Kelly Marcel (Cinquenta Tons de Cinza) e Will Beall (Caça aos Gângsteres), o roteiro é definitivamente um dos grandes culpados pelo fracasso técnico de Venom. Afinal de contas, um grande diretor – que, como já dissemos, não é o caso de Ruben Fleischer – precisa se esforçar bastante pra salvar um roteiro que não é minimante razoável, assim como a presença de atores como Hardy e Wiliams não vai ser sinônimo de bom trabalho quando noventa porcento dos diálogos não tem pé nem cabeça. E é exatamente isso que acontece aqui.

O texto sofre para definir um tom, espalha diálogos sofríveis e frases de efeito ainda piores durante as duas horas de projeção e se “autoboicota” constantemente em termo de amarração da trama. Quando não é simplesmente jogado no ar, tudo é conectado por coincidências, péssimas decisões, motivações bobas e mais uma porção de decisões que seriam condenadas por qualquer professor de roteiro básico. Só pra exemplificar: os poderes estabelecidos para o Venom incluem logo de cara uma espécie de antecipação do futuro, mas ela desaparece logo depois porque não possui mais utilidade para o roteiro.

Isso talvez passe despercebido para o espectador comum que só se importa com a ação, mas eu tenho certeza que até mesmo esse grupo vai ficar se perguntando porque o simbionte – apresentado como um ser inteligente – manda seu hospedeiro acompanhar a ex-mulher até o hospital para segundos depois decidir que não precisava daquilo do jeito mais brusco e bizarro possível. É incoerente com o personagem dos quadrinhos (até mesmo aquela versão marcada pelo “heroísmo”), mas, acima de tudo, é incoerente com o que está sendo apresentado dentro do filme. E, pra piorar, se torna o tipo de coisa que coloca a produção em um avião sem volta rumo ao ridículo.

Mas, calma, que ainda não acabou…

Suspeitos nº 04: Os executivos que não aprendem com seus próprio erros.

Sim, esse grupo de pessoas idiotas que comanda as decisões nos bastidores da Sony também merecem receber uma parte considerável da culpa, visto que eles são os responsáveis por mexer os pauzinhos que controlam cada uma das marionetes citadas acima, principalmente o roteiro. Eu não estou dizendo que o texto desse filme funcionaria sem os executivos por trás, porque, como disse anteriormente, acho a ideia fraca e carente de um planejamento maior.

Porém a equipe de roteiristas poderia fazer algo, no mínimo, superior com um pouquinho de liberdade. São os produtores que decidem fazer um filme sem nenhuma citação ao Homem-Aranha, escolhem uma classificação indicativa que retira qualquer impacto visual da suposta violência espalhada pelas ruas da cidade, definem que os momentos de dor e contradição que tomam a mente de Eddie quando Venom ocupa seu corpo precisam ser diminuídos em prol do surgimento de um “amigão da vizinhança” que resolve qualquer problema e logo se entende com seu hospedeiro e se “inspiram” – mercadologicamente – em Deadpool na hora de inserir um humor negro estranho que nunca se encaixa com o contexto do filme. No entanto, eles não enxergam que seu filme é muito diferente daquele estrelado pelo mercenário tagarela e o destroem por conta disso.

O Veredito

Com os culpados definidos, podemos finalmente concluir que Venom é um filme incoerente, bagunçado e pavoroso que deve irritar fãs do universo do teioso e divertir algumas pessoas pelos motivos errados. Digo isso, porque o visual do protagonista (mesmo perdendo força a cada vez que ataca sem deixar rastros de sangue) e as risadas que surgem a cada diálogo ruim salvam a experiência de ser traumática até lembrarmos que arrancar risadas sem querer num filme cuja a pretensão não é ser abertamente galhofa conta como um problema dos grandes. Depois que esse ficha cai, o que sobra é apenas um conjunto de cenas conectado de forma desastrosa que ganharia muito mais se tivesse continuado na gaveta dos executivos.

Em palavras mais simples: Venom é ruim e tem grandes chances de abocanhar o topo da lista de piores do ano!


Adendo #1: O filme tem duas cenas pós-créditos. A primeira prepara o terreno para uma possível continuação com uma participação especial bacana, enquanto a segunda aumenta o hype para o próximo lançamento do Homem-Aranha com uma cena bem grande e divertida.

Adendo #2: Assistir o filme com um grupo de amigos dispostos a fazer piadas durante a projeção, como eu fiz, pode melhorar o longa. Ou, pelo menos, torná-lo menos doloroso

Adendo #3: Alguém me explica como uma empresa foda como a Fundação Vida não tem a porra de uma câmera pra identificar que entrou no lugar?

Adendo #4: Pra não dizerem que eu odeio tudo, gosto do efeito do rosto do Venom saindo quando o som fica alto demais.