AODISSEIA
Filmes

Crítica: Velvet Buzzsaw é uma experiência artificial e vazia

Filme tenta misturar comédia e terror em uma produção satírica, mas falha miseravelmente.


5 de fevereiro de 2019 - 21:28 - Flávio Pizzol

Depois de investir pouco mais de 12 bilhões de dólares em conteúdo original durante o ano de 2018, a toda-poderosa Netflix anunciou que pretende aumentar ainda mais esse valor a cada ano, incluindo mais séries, filmes, animações e documentários próprios em seu catálogo cada vez mais independente. Uma decisão inteligente – e, de certa forma, necessária – nesse contexto onde basicamente todos os estúdios planejam lançar seu próprio serviço de streaming em algum momento. Entretanto, quem quer sobreviver sozinho nessa selva empresarial precisa, além da quantidade, de uma combinação entre qualidade e nomes que tenham peso suficiente para convencer novos anunciantes. E, por mais que não consiga se enquadrar no primeiro quesito, Velvet Buzzsaw é exatamente o tipo de produto que deve tomar conta da plataforma.

Afinal de contas, estamos falando de um filme dirigido por um nome em ascensão na indústria e estrelado por um número considerável de rostos conhecidos. Apesar dos escorregões, somos obrigados a admitir que não é sempre que vemos estrelas do porte de Jake Gyllenhaal (Okja), Rene Russo (O Abutre), Toni Collette (Hereditário) e John Malkovich (Bird Box) estrelando, direto na televisão de casa, um terror bizarro sobre pinturas assassinas ganhando vida no meio de negociações sem pudor das galerias de arte.

Uma ideia incomum que, mesmo não sendo necessariamente original (a primeira temporada de Supernatural tem um episódio na mesma linha), possui potencial graças a sua bizarrice. O problema, como sempre, está no fato de que o texto do diretor e roteirista Dan Gilroy (Kong: A Ilha da Caveira) não consegue aproveitar quase nada por pura desorganização e pressa, incluindo aí um primeiro ato que joga muita informação na cara do espectador sem explicar ou se preocupar com a com a construção do clima que deveria ditar o tom do restante da produção. Essa suposta agilidade é compreensível diante do fato de que Velvet Buzzsaw realmente precisa explicar algumas coisas sem enrolação para chegar no verdadeiro ponto de partida, no entanto as consequências desse background corrido prejudicam bastante o restante de uma narrativa que nunca consegue encontrar sua unidade.

No meio disso tudo, Gilroy ainda ocupa seu texto com várias subtramas que se deslocam entre o desnecessário e o totalmente desinteressante, marcando cada uma delas com migalhas que deveriam ser importantes para o todo. O romance entre Morf e Josaephina, por exemplo, possui zero química, mas não pode ser descartado porque serve de gatilho para outros pontos igualmente sem importância da narrativa. E esse é exatamente o caso  da relação dele com o ex-namorado dela. Algo que o filme não considera importante o suficiente pra mostrar, porém perde tempo usando tal questão como tema de discussões que não chegam a lugar nenhum ou combustível para criticar (de maneira rasa, por sinal) a profissão do protagonista.

Só que a verdade é que nenhum desses elementos conseguem prender a atenção do espectador, porque são poucos os elementos que realmente funcionam em Velvet Buzzsaw. Nem mesmo o trabalho de Gilroy por trás das câmeras consegue se salvar da confusão criada pelo roteiro e acaba ficando alguns degraus abaixo da hipnotizante mise-en-scène de O Abutre ou do mediano Roman J. Israel. Não estou dizendo que ele faz um mau trabalho, mas, além de não alcançar nada que surpreenda ou alcance as expectativas de quem conhece sua carreira, não posso negar que existe uma certa dispersão e alguns escorregões ligados a falta de fluidez das sequências. São vários os momentos – incluindo as cenas de exposição que apelam para movimentos de câmera e mudanças de pontos de vista – onde a edição de John Gilroy (Círculo de Fogo) parece estar mais focada em tapar buracos do que em mergulhar o público no meio artístico.

Fora isso, o visual do longa é exageradamente artificial, tanto na fotografia lavada de Robert Elswit (Arranha-Céu: Coragem Sem Limite) quanto na maneira como as subtramas são organizadas com o propósito de assumir e brincar com clichês do cotidiano. Em certos momentos, essa escolha tira sarro justamente da superficialidade que cerca o mercado artístico e faz pleno sentido. Já em outras sequências – que talvez representem a maior parte da produção – parece ser apenas uma decisão deslocada e próxima demais do visual televisivo. E a principal consequência dessa falta de equilíbrio é um longa-metragem que, apesar de querer muito, nunca consegue extrapolar o gênero ao ponto de arrancar alguma risada torta ou convencer como uma sátira.

Já quando entra no campo do terror, Velvet Buzzsaw consegue se apropriar de bons elementos do gênero, adiciona algumas gotas de tensão bem filmada, ganha pontos com a ótima trilha sonora e cresce um pouquinho no todo. Entretanto, nada disso tem força suficiente pra mudar a experiência por completo, já que a direção de Gilroy não consegue aproveitar o clima de slasher movie graças a uma combinação bizarra entre personagens sem empatia e mortes sem criatividade. Com exceção de duas mortes mais inventivas e sangrentas, a maior parte do tempo pode ser resumida como um show de “eu não ligo se fulano ou ciclano vai morrer” ou “só mata ele logo, por favor”.

Tudo culpa de personagens que não só falham na hora de ganhar a torcida do público, como também consegue acumular um ódio que deixa o ar com um clima de indiferença total. E, como se não desse pra piorar, esse ambiente ainda amplia uma realidade indiscutível: os personagens de Velvet Buzzsaw não passam de meros arquétipos sem nenhuma camada que só servem para criticar aspectos específicos (e soltos) do mercado artístico. Nesse caso, a redução das personas tira o peso das atuações e faz com que Rene Russo seja apenas a empresária intocável, Zawe Ashton (Animais Noturnos) tire leite de pedra como funcionária ambiciosa, Collette fique apagada na pele da consultora de arte em transição de carreira e Tom Sturridge (Mary Shelley) sofra com o papel amargo da competição vilanesca. Até mesmo Gyllenhaal – que, de qualquer forma, continua sendo o destaque do longa – acaba sendo apenas um crítico excêntrico e caricato que está ali pra servir como crítica a atuação dos próprios críticos.

Todos eles não tem nada relevante pra falar e isso é proposital, no entanto isso não justifica, entre outras pontas soltas, a insistência em outros personagens que são simplesmente inúteis para a trama principal. O pintor interpretado por John Malkovich, por exemplo, participa de certo ponto do eixo central de Velvet Buzzsaw, mas só serve para a parte satírica e acaba renegado a uma simples cena pós créditos. Já Natalia Dyer (Stranger Things) sofre ainda mais, visto que sua personagem não tem desenvolvimento e só existe pra realizar duas ações: revelar respostas que não tem nenhuma repercussão e encontrar os corpos de seu chefes mortos. Talvez eles sejam parte de alguma piada mórbida, mas, caso isso seja verdade, a funcionalidade é bastante questionável.

O resultado é uma produção que tenta ser provocativa através de exageros e bizarrices. Uma tática que funciona em certos momentos, mas que acaba perdida dentro da ambição de um longa sem unidade. As subtramas propositalmente deslocadas e desconexas ajudam a compor um cenário onde a superficialidade é o prato principal, mas o longa em si não extrai todo o potencial disso quando não encontra o equilíbrio entre tons e gêneros. Logo, Velvet Buzzsaw se torna um amontado de boas ideias que escorrega tanto na tentativa de estabelecer uma metalinguagem com força suficiente para fazer uma grande zoação com o mercado, quando na hora de ter a coragem necessária pra mergulhar no terror.  Ele fica em cima do muro e esse acaba sendo a pincelada que transforma a nova produção original da Netflix numa experiência vazia e tão artificial quanto o mercado que critica.


OBS 1: O episódio de Supernatural é bem melhor…