AODISSEIA
Filmes

Crítica: Uma Quase Dupla

Surpreendentemente, uma ótima opção dentro de um gênero desgastado.

21 de julho de 2018 - 09:00 - Flávio Pizzol

Apesar de ser um gênero predominante no cinema nacional, a comédia tem passado por um momento onde a maioria significativa das produções pode ser classificada como pouco inovadoras, exageradas e, acima de tudo, sem graça. Por sorte, Uma Quase Dupla (que, não se engane, tinha toda a pinta de que iria seguir o mesmo caminho) chega aos cinemas para se tornar um oásis nesse deserto entediante, mostrando que, mesmo com alguns escorregões, é possível funcionar narrativamente, divertir um público diverso e arrancar boas risadas.

A trama começa quando um assassinato bizarro e inesperado na pequena e simpática Joinlândia reúne dois policiais completamente diferentes: a durona Keyla e o inexperiente Cláudio. Eles definitivamente não são compatíveis, mas acabam encontrando uma maneira de trabalharem juntos com muitos tapas, beijos e um bom humor que se encaixa como essa cidade onde “todo mundo é joia”. E, sim, essa é a justificativa pro nome do lugar…

O roteiro escrito por Ana Reber (Sessão de Terapia) e Leandro Muniz (Filhos da Pátria) com uma colaboração – perceptível – de Fernando Fraiha (Choque de Cultura), Daniel Furlan (Irmão do Jorel) e Tatá Werneck (TOC: Transtornada Obsessiva Compulsiva) é uma obra extremamente amarradinha que não tenta reinventar a roda em nenhum momento, e isso pode ser positivo ou negativo. Nesse caso, ao mesmo tempo em que essa conexão correta entre causas e consequências, pistas e resoluções é uma característica importante para o sucesso narrativo da produção, o texto acaba passando do ponto quando antecipa certas coisas que vão acontecer no futuro.

E isso, na minha opinião, acaba influenciando principalmente na parte “detetivesca” da trama. Os suspeitos ressaltados com excesso para serem esquecidos pouco depois, o suspense que não consegue alcançar seu ápice e um assassino que se entrega logo de cara para quem, assim como eu, costuma ler muitos textos do gênero. A direção carregada de Marcus Baldini (Bruna Surfistinha) se divide entre ser efetiva a atrapalhar um pouquinho na construção desses elementos, ajudando a entregar o vilão pela maneira como fotografa uma fala específica ou sugerindo a existência de uma personalidade corrupta para um dos protagonistas através da escolha dos enquadramentos.

Esse último caso, inclusive, foi o único momento que realmente me tirou do filme, porque aparece do nada e sequer é cogitado por um roteiro sem grandes ambições críticas que acaba, de certa forma, anulando alguns dos erros citados acima quando é enxergado como uma típica paródia de gênero. Os diálogos são muito bons, as referências pop que vão de Maria Gadú a Seven caem como uma luva, a trama se torna mais consistente quando mergulha nesse universo e as piadas ganham vida com agilidade e precisão de uma comédia de primeira qualidade. É aqui que o fato do texto não querer reinventar a roda se torna um grande ponto positivo: a existência de uma narrativa básica e certeira na base de tudo, permite que Uma Quase Dupla fique livre para arriscar em caminhos mais idiotas (e certeiros) no restante do tempo.

E chega a ser curioso que até mesmo o trabalho do próprio Baldini – que eu acabei de criticar – funcione muito melhor dentro dessa proposta. Ele sabe como dirigir os atores nos momentos que exigem uma carga maior daquele humor físico meio abobalhado, tem o timing cômico necessário pra construir certas piadas visuais e revela um olhar cinematográfico bacana que acerta em cheio quando decide enquadrar seu trabalho num estilo mais setentista e clássico que encaixa com a vibe relaxada de uma cidade que é quase um personagem e flerta, propositalmente, com grandes exemplares do gênero. É um clima meio Dois Caras Legais que prende a atenção – e o coração – do espectador , deixando um gostinho de quero mais que tanto pode ser satisfeito com outra visita ao cinema, quanto com a construção de uma franquia.

No entanto, como já é de praxe em longas estrelados por duplas policiais, quase nada disso que eu falei funcionaria sem a química dos dois protagonistas que ancorassem a ideia com o mesmo espírito canastrão. E, na boa, não tinha como o casting acertar mais do que na escalação de Tatá Werneck (Deus Salve o Rei) e Cauã Reymond (Reza a Lenda) para tais cargos. Eles criam uma química que rende momentos incríveis, abraçam a pegada da história, encaram a inversão de papéis proposta pelo texto e conquistam o público desde a primeira cena com direito a uma surpreendente roubada de holofotes de Cauã.

Digo isso porque a Tatá aposta em trejeitos repetidos (praticamente si mesma) que não fogem nem um pouquinho do seu padrão de comediante que sempre dá pitaco nos roteiros e improvisa como poucos, enquanto ele está totalmente fora da zona de conforto que adquiriu como galã. Apesar de eu não poder negar que as melhores piadas faladas saem da boca de Tatá, preciso admitir que ri muito mais com o humor ingênuo e sensível d o outro lado da dupla. Eu acredito que esse tal “jeitinho de Joinlândia” acaba sendo uma escolha tão fora da curva que pega o espectador desprevenido na maior parte das cenas e, caracteristicamente, o humor funciona muito melhor quando encontra maneiras distintas de quebrar as expectativas da audiência.

E a verdade é que essas risadas saíram de mim com uma frequência tão inesperada que fizeram Uma Quase Dupla terminar com um saldo muito positivo. Ele é simplório e tem certos problemas de narrativa que não devem ser ignorados, mas acerta muito mais quando tenta cumprir o objetivo principal de uma comédia: fazer rir. E, obviamente, isso também não deve ser ignorado. E, se essa última comparação servir como parâmetro, eu entrei na sessão sem nenhuma expectativa e sai com a mesma felicidade de quando assisti O Roubo da Taça em 2016. Como esse foi o último filme de comédia nacional que eu realmente gostei, talvez esteja na hora de passar a merecida liderança para Tatá, Cauã e sua trupe.