AODISSEIA
Filmes

Crítica: Um Santo Vizinho

25 de fevereiro de 2015 - 17:34 - Flávio Pizzol

A oportunidade de assistir Bill Murray, um dos atores mais loucos e geniais de todos os tempos, sendo ele mesmo é um dos principais motivos que me levaram a ver esse filme. Um Santo Vizinho tinha tudo para ser mais, mas decide fazer tudo do jeito fácil e é salvo pela sua realização sincera e divertida.

O filme conta a história de Vincent, um velho ranzinza, pouco ortodoxo e que vive de bebidas e apostas. Tudo muda quando Maggie e seu filho se mudam para a casa ao lado e, contando com um pouco de acaso e necessidades monetárias, Vincent aceita ser uma espécie de babá para o garoto. Mesmo sem fazer nada direito ou demostrar muito interesse no garoto, Vincent e Oliver acabam se tornando uma dupla improvável que pode mudar a vida de ambos.

Essa é uma daquelas histórias que se parecem muito com as dramédias que estamos acostumados a assistir na Sessão da Tarde e seria exatamente isso, se não tivesse uma dose de humor negro e situações absurdas que não devem ser aceitos pela mesma Sessão da Tarde. Tirando esses extras que dão um tom diferente ao filme, Um Santo Vizinho não passa de um conto batido e clichê sobre relações, já que todo o desenvolvimento do roteiro se dá de maneira simples e sempre visando aquele final onde tudo dá certo.

É um roteiro divertido, mas que não apresenta nada de novo. Também tem alguns buracos na história que soam forçados e incomodam. E acreditem que isso me incomodou, mas poderia ter sido um problema muito maior. A questão é que o filme, mesmo sendo completamente óbvio, tem alguma coisa que conseguiu me prender e realmente emocionar. É um filme extremamente honesto e sensível.

Uma das decisões que ajudam nessa construção mais emocional é usar assuntos mais dramáticos e pesados do que os filmes do tipo que passam nas tardes da televisão aberta. Eu realmente achei interessante que, no meio de todo o desenvolvimento batido, o roteirista e diretor Theodore Melfi conseguisse tratar de temas desconfortáveis, como a guerra, a doença repentina, a solidão e a religião, de maneira tão simples e até didática. É uma pena que muitos desses assuntos não funcionam e só entram em campo para cumprir tabela, como a cobrança das dívidas de apostas ou a separação de Maggie (esse sim é um tema mais do que batido nesse tipo de produção).

Entretanto, o grande trunfo do filme está na relação entre Vincent e Oliver. De certa maneira, eles são opostos que necessitam um do outro para entender a vida e eu sei que isso é mais um grande clichê incluído dentro da sopa. Mas Melfi consegue fazer com que isso seja construído de maneira sólida e com toda aquela honestidade que citei anteriormente. É claro que eu preferia ver tudo sendo resolvido de uma maneira mais original, mas depois de acompanhar tudo o que os dois passaram e se conectar com ambos, fica difícil não aceitar o que está acontecendo e até se emocionar um pouquinho. Pode-se dizer que isso é o resultado de um filme simples feito com sinceridade.

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A direção de Melfi e a parte técnica também ajudam a alcançar esse resultado com êxito, mesmo que não seja nada de outro mundo. Assim como no seu trabalho como roteirista, Theodore faz um trabalho agradável como diretor. Muito do que é feito segue o provável, mas eu gostei do uso de ângulos inusitados e da maneira como, ao lado do diretor de fotografia John Lindley, ele consegue criar cenários confortáveis e claros em todos os momentos. Isso acaba ajudando na sensibilidade que eu também já tinha citado.

Mas o principal acerto de Melfi está na escolha do seu elenco, que é inusitadamente estrelado para um filme independente. Temos uma Melissa McCarthy mais contida e interessante, uma Naomi Watts russa e caricata, um Chris O’Dowd irônico e livre de seus trejeitos, um desperdiçado Terrence Howard, um Jaeden Lieberher inexperiente e surpreendente e um Bill Murray pontual e perfeito.

Eu deixei Bill e Jaeden para o final de propósito, porque eles são a real força de Um Santo Vizinho. De um lado, Bill Murray interpretando praticamente si mesmo de maneira brilhante tanto nos momentos com mais humor negro, quanto nos momentos mais dramáticos, como na descoberta da morte de sua esposa ou no tratamento do derrame. É um personagem muito interessante e cheio de tiradas cômicas que funciona como um prato cheio para Murray.

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Do outro lado está Jaeben Lieberher, que, mesmo realizando seu primeiro trabalho cinematográfico, mostra uma maturidade interessante e uma enorme química com todos do elenco. Claro que sua química ganha contornos especiais quando está acompanhado de um Bill Murray inspirado. Eu gostei muito da atuação do garoto e – acredito eu – os produtores de Hollywood também, já que ele já tem outros três filmes em pós-produção para esse ano.

É um filme verdadeiramente simples e batido que podia ser bem melhor ou mais original, mas sua realização honesta ajuda a superar isso, emocionar e conquistar o público. Apostar em um jogo seguro faz com que esse não seja um daqueles filmes imperdíveis, mas torna Um Santo Vizinho uma obra justa e divertida. E acredite que, se todo o resto falhar com você, ver Bill Murray despejando todo seu humor negro em grande estilo ainda fará o longa valer alguma coisa.