AODISSEIA
Filmes

Critica: Um Milhão de Maneiras de Pegar na Pistola


27 de agosto de 2014 - 15:00 - Flávio Pizzol

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Primeiro, eu descobri que Seth MacFarlane (a mente por trás de Family Guy e Ted) ia fazer uma comédia que se passava no velho oeste e fiquei ansioso. Aí divulgaram esse longo e escroto título em português (o original é “A Million Ways to Die in the West”) e eu coloquei um pé atrás. Depois divulgaram o elenco grandioso e eu botei um pouco de confiança no longa. Aí veio o trailer e a indecisão começou a pairar sobre minha cabeça. O problema é que esse sentimento continuou na minha mente durante todo o filme.

Em 1882, somos apresentados a um pastor covarde chamado Albert Stark. Depois de fugir de um duelo, ele toma um pé na bunda de sua namorada e perde o rumo da vida. Tudo começa a mudar quando um mulher, chamada Anna, chega à cidade. Ela traz um pouco de amor e coragem para a vida de Albert, mas também traz muitos problemas para o moço.

Um Milhão […] – sem chance de eu escrever o nome todo – não é um filme muito ruim, mas tem um grande problema, que é ser, narrativamente falando, confuso e indeciso. Claro que isso não impede o filme de ser engraçado, principalmente quando se fala de um filme de Seth MacFarlane, que é um ótimo comediante e roteirista. Eu gosto muito desse humor sórdido e politicamente incorreto usado por ele (talvez, eu seja a única pessoa que gostou da sua apresentação do Oscar), mas dessa vez faltou alguma para a coisa realmente acertar no alvo.

Em primeiro lugar, falta coesão. Talvez por estar acostumado a escrever materiais mais curtos, MacFarlane deixa que o longa vire um mexido de situações improváveis com poucas ligações entre elas. São tantas subtramas, que em vários momentos as cenas soam completamente aleatórias. Engraçadas, mas totalmente fora de contexto. Na verdade, a trama do casal Edward e Ruth, que foi a que mais me divertiu, é um ótimo exemplo desse problema, já que não tem nenhuma função na trama central. Este é basicamente um esquete sobre um casal que não faz sexo.

Essa falta de liga ainda faz com que o longa tenha inúmeros buracos narrativos desde o começo. Na primeira cena, Albert foge de um duelo com a promessa de pagar uma dívida e o filme só volta nesse aspecto em uma fala no meio de um diálogo perdido no filme. Outro exemplo e o fato do protagonista falar a língua dos índios. Ele explica que ele é nerd, por isso aprendeu várias línguas e é bom em matemática. O problema é que isso nunca é sequer demonstrado no filme, que cria um personagem péssimo em tudo que faz em todas suas cenas e diálogos.

E pra piorar o filme é extremamente longo e repetitivo. Além de insistirem em usar muitas situações e piadas parecidas com o que foi feito em Ted, os roteiristas ainda pecam em repetir essas mesmas piadas muitas vezes dentro de um filme. Albert faz longos monólogos sobre a vida no oeste, que estão ali para justificar o nome original do filme, em pelo menos umas 4 oportunidades. A primeira vez é muito engraçada e precisa, mas ninguém aguenta mais ouvir isso a partir da terceira vez.

Ainda assim, o filme tem muitas situações divertidas, principalmente quando ironiza a vida da época, como na cena do sorriso na foto ou na da nota de um dólar. As dinâmicas entre o elenco ainda consegue dar mais graça às cenas, como no caso do já citado casal formado por um virgem e uma prostituta. É uma pena que muitos desses momentos engraçados sejam cortados por piadas escatológicas envolvendo cocô, xixi e esperma, que pouco se encaixam no filme. Esse é um ótimo exemplo de um tipo de piada que funcionou em Ted e falhou aqui.

Com um roteiro bem meia boca em mãos, Seth faz um bom trabalho na direção. Ainda bem, já que, na sua primeira empreitada como protagonista em carne e osso, ele também dá umas boas escorregadas. Principalmente quando está do lado de grandes atores, como Charlize Theron (linda como sempre), Amanda Seyfried e Liam Neeson. Não posso dizer que sua química com o elenco seja ruim, mas são os coadjuvantes que se destacam.

Os três já citados estão atuando no automático (Liam Neeson sempre está e não liga pra isso), por isso o espaço fica aberto para que Neil Patrick Harris (O Barney de How I Met your Mother), Giovanni Ribisi e Sarah Silverman brilhem. O primeiro consegue fazer até uma cena de diarreia ser engraçada e ainda tem um ótimo número musical, enquanto os outros dois fazem o cativante casal do qual tanto falei.

Nessa mexilança toda, ainda surgem muitas participações especiais. Ryan Reynolds e Ewan McGregor aparecem e saem sem falar nada, mas Jamie Foxx e Christopher Lloyd estão em duas cenas brilhantes e muito divertidas. Ponto para Seth que teve essas ideias.

O filme é bagunçado, inseguro e indeciso, mas é engraçado e pode valer a pena pra quem gosta desse tipo específico de humor. Não vá pensando que vai ver outro Ted, porque esse é muito diferente e inferior. Entretanto o bom elenco e alguns momentos divertido podem salvar o filme do fiasco total.