AODISSEIA
Filmes

Crítica: Um Lugar Silencioso

Uma experiência tensa, emocionante e simplesmente única!

6 de Abril de 2018 - 04:33 - Flávio Pizzol

Desde seu surgimento, o cinema sempre pegou emprestado diversas características da literatura, da pintura, do rádio e do teatro. Esse movimento natural sedimentou o caminho para que a sétima arte alcançasse um nível de encantamento inigualável ao juntar textos, diálogos, atuações, imagens e sons em um mesmo pacote, mexendo com os sentidos e sentimentos mais diversos do espectador em cada sessão. O terror, por exemplo, é um gênero que oferece experiências únicas quando faz bom uso dessas peças que compõem todo o grande universo do audiovisual e Um Lugar Silencioso é a prova perfeita disso.

A história do longa, concebida originalmente por Bryan WoodsScott Beck (ambos de Nightlight), nos apresenta um planeta Terra completamente devastado onde os poucos sobreviventes precisaram aprender a conviver com monstros que atacam através das ondas sonoras. É nesse ambiente que acompanhamos a jornada de uma família – os Abbott – que precisa lidar com uma culpa avassaladora, enquanto encontra maneiras de sobreviver nesse futuro onde fazer qualquer barulho pode representar a morte.

O diretor John Krasinski (que, além de ser conhecido por The Office, também é o roteirista e protagonista desse filme) recebeu o primeiro rascunho do roteiro logo após ter a sua segunda filha, deu mais corpo ao conceito de família que cercava a trama e, com apenas dois filmes sem grande repercussão no currículo, encontrou a melhor forma de transformá-lo naquilo que o cinema pode fazer de melhor. Ele administra o ritmo do longa com muita precisão, prepara o terreno num primeiro ato mais lento, joga – e mantém – as emoções no talo durante o clímax relativamente longo e, acima de tudo, mostra que sabe manipular as sensações do espectador como poucos desde o ótimo prólogo que abre o longa.

O design de som tem um papel fundamental nesse último aspecto, já que estamos falando sobre uma trama onde o silêncio divide o protagonismo com família. A ausência quase total de diálogos e trilha sonora se mistura com os longos planos conduzidos lentamente por Krasinski e imergem o público em um ambiente extremamente opressivo, mas são as pequenas sutilezas presentes nas ondas sonoras, como a respiração mais pesada do alvo ou o silvo que anuncia a chegada do monstro, que acabam se destacando. Além disso, qualquer barulho mais alto que atravessa as caixas de som do cinema, mesmo aqueles que não oferecem perigo real, são como gatilhos que tiram o espectador do transe e o lançam para o susto imediato. E como não existe nenhum aumento de volume que antecipe as mudanças ou aparições monstruosas, até os jumpscares mais batidos acabam funcionando e adicionando pontos ao filme.

No entanto, filmes são obras audiovisuais e Krasinski absorve essa noção antes de permitir que todo seu trabalho gire em torno apenas do som. Trabalhando em conjunto com a ótima fotografia da dinamarquesa Charlotte Bruus Christensen (Um Limite entre Nós), a direção explora o máximo dos cenários cheios de pistas e sacadas criativas, abusa dos planos abertos durante a apresentação do mundo e das “regras” de sobrevivência, acerta em cheio no visual dos monstros e, quando o sadismo toma conta do longa de uma vez por todas, captura o medo estampado nas feições dos atores com aqueles close-ups que exalam claustrofobia. Até admito que ele não faz nada verdadeiramente inovador, mas, em tempos de produções de horror tão corridas e genéricas, usar as ferramentas com propriedade e identidade já é um ponto positivo indiscutível.

E a melhor parte de Um Lugar Silencioso é que a direção está sempre acompanhada por um roteiro igualmente assertivo e poderoso. O trabalho do trio Woods, Beck e Krasinski é muito importante pro ritmo da narrativa, porém seus maiores acertos estão na transição entre gêneros e no desenvolvimento dos personagens. O texto pode ser caracterizado como um suspense com doses generosas de terror, mas seus momentos de maior destaque estão nos momentos dramáticos que acompanham os arcos genuínos de cada um dos personagens. É fácil compreender os dilemas de todos os membros da família, se apegar a eles e, eventualmente, torcer por suas respectivas sobrevivências a partir da segunda metade da película.

Além disso, a ideia de colocar uma família no centro dessa loucura envolvendo monstros, sustos e luta pela própria vida também acaba sendo um dos grandes trunfos de Um Lugar Silencioso. É essa decisão que, acima de tudo, permite que o filme flerte com outros gêneros com tanta naturalidade, se arrisque em alguns alívios cômicos extremamente pontuais antes de engatar a trama de maneira quase torturante, construa uma das cenas mais sinceras entre pai e filho na sequência da cachoeira e conclua a narrativa de forma surpreendentemente tocante e emotiva. Eu não lembro de ter chorado em algum filme desse tipo e, mesmo assim, não consegui conter os soluços durante uma cena específica do final.

Pra completar,o desenvolvimento e o ápice só alcançam a força necessária porque o elenco enxuto e perfeito se encaixa perfeitamente com o restante da proposta estabelecida pela produção. Emily Blunt (Sicario: Terra de Ninguém) e o próprio John Krasinski – que são casados na vida real – estão absolutamente perfeitos como as respectivas encarnações do espirito maternal em seu estado mais instintivo e daquele típico senso de liderança e sobrevivência que costuma ser atribuído aos pais de família. Ao mesmo tempo, as crianças interpretadas por Millicent Simmonds (Sem Fôlego) e Noah Jupe (Extraordinário) roubam os holofotes com demonstrações pontuais de inteligência (mais por parte dela), medo, culpa e coragem.

Entretanto, mesmo que funcionem sozinhos, eles são ainda melhores quando estão reunidos, dividindo o peso de viver naquele lugar, se completando na luta pela sobrevivência e trabalhando, no subtexto, a noção de que a família unida é a chave pra sobrevivência. Batendo na mesma tecla do texto inteiro, eu insisto em dizer que esse tipo de embasamento emocional é o que permite que o filme seja mais do que um simples terror e leve o espectador do susto para as lágrimas em questão de segundos. É esse tipo de embasamento que permite que o espectador crie conexões verdadeiras com os personagens e realmente acabe imerso nas ótimas sacadas sonoras e visuais propostas por John Krasinski.

Mais que tudo, é esse conjunto de fatores que esconde até mesmo algumas escolhas narrativas que poderiam ser questionáveis e coloca, sem dúvida nenhuma, Um Lugar Silencioso na lista antecipada dos melhores filmes do ano. E pode anotar uma coisa: os próximos longas de terror de 2018 vão ter que malhar (ou comer muito arroz com feijão em bom português) para igualar o que esse longa faz em termos de experiência áudio e visual. É cinema em sua melhor forma e com tudo que pode oferecer!


OBS 1: Esqueci de colocar isso na crítica e não consegui encaixar depois de finalizá-la, mas não posso deixar passar o fato de que o roteiro desse filme é perfeitamente amarrado. Todas as peças ou informações que vão ter alguma importância na conclusão são apresentadas com antecedência e muito bem organizadas. Em outras palavras, se a câmera passou mais de dois segundos focada em um objeto qualquer, você pode ter certeza que ele influenciará a história de alguma forma.

OBS 2: Os efeitos especiais são ótimos, mas o filme sabe qual é a hora certa de mostrar o monstro ou de escondê-lo para que a imaginação do espectador faça o trabalho sujo.

OBS 3: Millicent Simmonds, assim com sua personagem, também é surda-muda. Uma curiosidade que só amplia a qualidade do trabalho da garota.