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Um filme que merecia um lugar ao sol


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Todo ano é a mesma coisa: milhares de filmes interessantes são produzidos, entram na corrida das premiações e são completamente ignorados com o tempo, enquanto outros grandes filmes encontram seus momentos de glória. Claro que esses vencedores não podem ser desmerecidos, mas Um Homem entre Gigantes é um desses filmes esquecidos que provavelmente merecia um lugarzinho ao sol.

O longa, escrito e dirigido por Peter Landesman, conta a história de um médico nigeriano que acaba descobrindo um dano cerebral completamente desconhecido ao examinar o corpo de um ex-jogador de futebol de Pittsburgh encontrado morto. Movido pela força da ciência e pelo seu próprio entusiasmo pela profissão, ele inicia uma guerra contra a NFL para mostrar o perigo que o esporte trás para seus jogadores.

É uma história realmente poderosa que merecia ser apresentada para o grande público da mesma forma que a tão citada disputa sobre os malefícios do cigarro na década de 80 e o roteiro faz isso muito bem. Landesman acerta em cheio na construção do seu protagonista, suas relações com alguns coadjuvantes e no desenrolar dos principais acontecimentos, prendendo o público através dos bons diálogos que cercam todas as disputas que ceram o Dr. Bennet Omalu, incluindo o próprio preconceito que marca sua presença.

No geral, é um texto fluído e orgânico que só incomoda um pouquinho quando insiste em repetir mensagens ufanistas, usar a religião como muleta para algumas coincidências e na passagem temporal que marca os últimos minutos do longa. Eu entendo que ela precisa existir para contar a história de verdade e para mostrar o tempo que ele precisou esperar para ser reconhecido, no entanto ela tira um pouco da força do filme que poderia ter se beneficiado da boa e velha licença poética tão comum na linguagem cinematográfica para disfarçar essa quebra no roteiro.

A direção também funciona muito bem na maior parte do tempo, fazendo boas escolhas de ângulo nos momentos mais intensos e acompanhando a boa edição durante sua pesquisa. Mesmo assim, Peter (que só tinha dirigido um longa até aqui) se perde um pouquinho no uso exagerado de alguns planos-detalhe e dos reflexos em momentos que não apresentam muito significado. São apenas recursos estilísticos que ora funcionam, ora poderiam ser simplesmente substituído por uma visão mais clara e simples da cena.

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Por outro lado, ele faz um bom trabalho na hora de dirigir o elenco, formado aqui por atores de muito renome e calibre. O principal deles é obviamente Will Smith, que faz uma construção de personagem poderosa, abraça as características do mesmo e mostra seu talento nos momentos mais explosivos, nos mais contidos e nas relações realmente fortes com Alec Baldwin, Albert Brooks e Gugu Mbatha-Raw.

No entanto, eu estaria sendo extremamente injusto se não falasse do trabalho espetacular de David Morse nos primeiros trinta minutos de filme. Ele interpreta o ex-jogador de futebol que desencadeia toda a história após sua morte, mas recebe um merecido espaço para apresentar de maneira dolorosa e forte alguns sintomas da doença que é, posteriormente, chamada de encefalopatia crônica traumática (ECT).

Não seria correto falar que Um Homem entre Gigantes é um filme perfeito, mas digo com total certeza que ele merecia ser reconhecido por contar sua história de maneira interessante e extrair boas atuações de quase todo o seu elenco. Não sei quem eu tiraria da disputa pela estatueta dourada nesse ano, mas posso dizer que gostaria de ter visto o filme brigar contra os gigantes de Hollywood e ser um pouquinho mais lembrado do que foi.


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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