AODISSEIA
Filmes

Crítica: Últimos Dias no Deserto

8 de setembro de 2016 - 11:00 - Tiago Soares

Lento, mas eficiente.


ultimosdiasnodeserto_1“A seguir, foi Jesus levado pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo. E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”.  (Mateus 4:1-2)

A passagem bíblica mostra que Jesus foi levado ao deserto, e em certos momentos foi tentado pelo diabo. A bíblia em si, aborda apenas as três maiores tentações que Jesus sofreu, não dando margem para os 40 dias e 40 noites exatamente. O que dá a liberdade para o diretor e roteirista espanhol Rodrigo Garcia, criar uma história que sim, pode ter acontecido com Jesus, pois alguns dos seus principais valores bíblicos e morais estão presentes.

“Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães” (Mateus 4:3)

A decisão sábia de escalar um ótimo ator como Ewan McGregor para fazer Jesus e o Diabo, mostra a ousadia da produção. O Jesus de Mcgregor é benevolente, tratado como um homem sábio, está sempre disposto a ajudar, mas tem um quê de egoísmo, pois sua missão é o mais importante que tudo. Já o Diabo dele, não vem com chifres ou maquiagem escura, é o próprio McGregor com o mesmo figurino inclusive, a única diferença é o linguajar lascivo e tentador, aparecendo em momentos inoportunos, o roteiro têm ricos diálogos quando os dois conversam, mas apresenta falhas na interação com outros personagens.

“Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mateus 4:4)

A inclusão da família sem nome vivida pelo pai, Ciarán Hinds, contundente nas palavras e decidido como patriarca, a mãe doente e frágil de Ayelet Zurer mas com sabedoria e o filho cheio de sonhos e anseios vivido por um excelente Tye Sheridan. A inclusão da família dá certo dinamismo ao filme, mas a batalha psicológica entre Jesus e o Diabo acaba afetada por eles. Quando Jesus se aproxima de uma família quebrada, tudo muda e a narrativa vai para um conflito de gerações, que anseiam coisas diferentes.

“Então, o diabo o levou à Cidade Santa, colocou-o sobre o pináculo do templo e lhe disse: Se és filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem; e: Eles te sustentarão nas suas mãos, para não tropeçares nalguma pedra” (Mateus 4:5-6)

1473009398753101

Quando o Diabo usa a família para realizar suas tentações, um possível conflito se abre, e o deserto é usado como personagem da história, pois não há para onde ir, não há pretensões maiores. Jesus quer chegar a Jerusalém, e o personagem do garoto quer largar aquele mundo sem oportunidades. A fotografia do oscarizado Emmanuel Lubezki explora ao máximo todas as cores do céu, em contradição a cor opaca do deserto, é um pleonasmo dizer que ele faz um excelente trabalho.

“Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus” (Mateus 4:7)

Infelizmente o filme é muito lento, apesar de um roteiro que apresenta algumas qualidades, a falta de ritmo da produção nos tira algumas vezes da mesma. A geração de um conflito, é logo resolvida, para em seguida voltar para o nada.

“Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou- lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares” (Mateus 4:8-9)

Se tivéssemos 10 minutos a menos, a produção poderia sair com melhor avaliação, pois os últimos minutos destoam totalmente do restante do filme e não precisavam existir, é mais como um fã service bíblico, se é que isso existe. Últimos Dias no Deserto tinha tudo pra ser uma discussão filosófica entre o bem e o mal, com alguns tons de cinza, mas resolve ir por dilemas morais mais polarizados.

“Retira-te Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a ele darás culto” (Mateus 4:10)


odisseia-08