AODISSEIA
Filmes

Crítica: Tully

Acha que ser mãe é fácil? Tá achando errado, otário...

6 de junho de 2018 - 22:51 - Flávio Pizzol

Por motivos bastante óbvios, eu nunca vou saber qual é a exata sensação de ser mãe. Eu nunca vou carregar um bebê dentro de mim por nove meses, passar elas dores descomunais de um parto, ter os bicos dos meus seios destruídos durante o período de amamentação ou ter um ataque histérico por não conseguir dormir. Mesmo assim, a convivência com as nossas próprias mães, a empatia e Tully estão aí para nos fazer entender pelo menos um pouquinho do que as mulheres mais importantes das nossas vidas podem enfrentar. E, no caso desse filme, faz isso da maneira mais divertida, emocional e inesperada possível.

O filme acompanha Marlo, uma mãe de dois filhos (incluindo um que possivelmente é autista) que está prestes a dar a luz a um terceiro bebê. Entre as dificuldades de lidar com os problemas escolares do mais novo, a descompromisso do marido com a paternidade e suas obrigações autoimpostas, ela acabando cedendo aos pedidos do irmãos e contrata uma babá noturna para ficar com a criança enquanto ela dorme como conseguiu fazer poucas vezes desde a primeira gravidez.

O roteiro de Diablo Cody (Garota Infernal) pega tudo que a fez surpreender o mundo com sua visão da gravidez na adolescência com Juno e aprimora, acrescentando uma maturidade que poderia até transformar Tully em uma espécie de continuação moral do longa de 2007. Talvez o fato do diretor ser repetido nem seja uma coincidência, visto que esse longa realmente funciona como a representação de temáticas similares em gerações distintas. No entanto, isso não passa de uma mera suposição acerca de um roteiro que, na real, chama atenção por ser perfeitamente amarradinho do começo ao fim.

Os dramas que consomem a vida de Marlo são expostos com agilidade, credibilidade e precisão; os personagens são desenvolvidos e aprofundados (uns mais que outros, é claro) através de momentos-chave; o humor negro, ríspido e autodestrutivo se encaixa muito bem na trama e arranca algumas boas risadas durante uma projeção que tinha tudo para cair num melodrama barato e desnecessário; e a reviravolta cai como uma luva na jornada da protagonista. É difícil falar sem revelar aspectos substanciais da virada em questão, porém posso adiantar duas coisas: as pistas estão todas no decorrer do longa e a forma como tudo acontece pode surpreender até quem, como eu, já sabia algumas da conclusão.

Entretanto, por mais que o texto de Tully possa ser classificado como o melhor trabalho de Cody, o filme funciona como um grande relógio suíço onde as engrenagens encaixam sem nenhuma falha que tire o espectador do seu transe. Logo, dentro disso, a direção de Jason Reitman (Obrigado por Fumar e Amor sem Escalas) também merece ser citada, afinal ele é um dos grandes responsáveis por escolher os envolvidos, transformar as palavras em imagens, ditar o ritmo da trama, sair de cena quando a visão feminina da roteirista precisa brilhar e colocar alguma coerência nessa mistura de drama, romance e comédia de humor negro. Contando com o suporte da magnífica montagem de Stefan Grube (Rua Cloverfield, 10) – que, por sinal, não acerta só naquelas ótimas passagens de temo musicalizadas -, Reitman cumpre seu trabalho com precisão.

E, como se fosse o recheio perfeito de um bolo que merece ser experimentado, Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria) e Mackenzie Davis (Blade Runner 2049) tomam o filme para si com uma força inacreditável. O instinto materno da primeira passa por cima de qualquer cansaço sem que a doçura seja completamente perdida, enquanto a jovialidade da outra adiciona agilidade e uma amor incondicionável ao longa. Ron Livingston (Invocação do Mal) e Mark Duplass (A Hora Mais Escura) também cumprem seus papéis de homens acomodados, mas o filme é totalmente delas. Aqui são as mulheres que arrancam risadas, desenvolvem dramas críveis dentro da trama e, acima de tudo, apresentam seu ponto de vista real sobre a maternidade. E convenhamos que não poderia ser diferente, né?

O resultado é, como já foi dito lá na introdução, um longa emocionante, divertido, bonitinho e bastante inesperado dentro dos parâmetros estabelecidos pelo próprio gênero. A forma da combinação entre todos esses elementos esmiuçados acima cria uma produção independente e original que merece ser vista sem nenhuma lente que o impeça de ver a realidade do que é ser mãe. Continuo sem ter a miníma possibilidade de sentir tudo aquilo na ele, mas compreendo e já sei algumas coisas que preciso fazer para melhorar quando a hora de ser pai chegar. E, se isso não for o suficiente para fazer você correr até o cinema mais próximo, já coloco Tully como uma das minhas apostas pro Oscar.


OBS 1: O longa tem dois planos-sequências que, mesmo sendo curtos para o padrão, chamam muita atenção. Fique ligado na cena da explosão da protagonista na escola e da retirada de leite no bar e comenta aqui… Incríveis, não?