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Critica: Tudo por um Furo

30 de abril de 2014 - 23:15 - Flávio Pizzol

TUDO-POR-UM-FURO

Com o nome trocado para atingir um público internacional que o original não havia atingido, Tudo por um Furo é a continuação de O Âncora – A Lenda de Ron Burgundy, uma das melhores comédias dos últimos 20 anos. A continuação é tão genial e sarcástica quanto seu anterior, mas peca em alguns pontos, sendo um pouco inferior que o mesmo.

A história da continuação segue o lendário Ron Burgundy, o pior âncora de todos os tempos, e sua trupe tendo que lidar com novos desafios no mundo pessoal e profissional. Agora eles trabalham em um canal que propõe veicular noticiários durante 24 horas e Ron acaba tendo que se virar com o pior horário possível. Logicamente, tudo isso é acompanhado de milhares de piadas e criticas relacionadas ao jornalismo, mas não só a ele.

A quantidade de piadas existentes no filme é tão grande que seria um pecado dizer que elas só se relacionam com o jornalismo. O número de piadas é tão grande que uma versão com piadas completamente diferente está sendo preparada pelo diretor. Inclusive, uma piada vista no trailer brasileiro (que parecia ser uma das melhores do filme) não está presente na versão americana que eu assisti.

Pelo parágrafo acima, pode-se imaginar que o filme seja hilário. E ele é tão engraçado, que até a falta de coesão entre as múltiplas histórias e piadas (esse deve ser o único problema que realmente chega a incomodar na continuação) pode ser perdoada. Muitas vezes algumas situações ou gags físicas vão parecer perdidas, mas elas são tão engraçadas que você vai deixar as falhas passarem direto.

Outra coisa interessante que deve ser observada no roteiro é como as sátiras acompanharam o tempo entre os filmes. O primeiro falava, principalmente, sobre o machismo e a entrada da mulher em mercados dominados pelos homens, enquanto esse fala sobre a decadência do jornalismo, que hoje é muitas vezes voltados a notícias curtas e sensacionalistas ao extremo. Nas palavras do próprio Burgundy: ” Porque temos que dizer ao povo o que eles precisam ouvir? Porque não podemos apenas dizer o que eles querem ouvir?”.

A sátira e a comédia rasa (no clássico estilo besteirol) dividem bem o tempo de tela, por que essas duas características sempre fizeram parte da carreira de Will Ferrell, protagonista e criador dos personagens do filme. Algumas cenas são tão impagáveis que é difícil separar algumas delas pra falar. As cenas do farol são impagáveis (o que é o Ron cantando para o tubarão?), as piadas relacionadas a trupe de Burgundy estão mais afiadas do que nunca e o climax do filme é espetacular e recheado de participações famosas (é tão divertido tentar reconhecer e localizar essas participações, que seria contra as regras eu dizer quem está nela).

A direção de Adam McKay, eterno parceiro de Ferrell, não tem muito destaque, principalmente por que o elenco e os diálogos chamam muito mais atenção. O trabalho de câmera simplista funciona, mas fica em segundo plano.  Entretanto, não podemos dizer que McKay prejudica o filme em algum momento.

Na verdade, ele lida muito bem com a originalidade e espontaneidade de seu vasto elenco. Em muitos momentos é possível perceber que os diálogos são completamente improvisados, principalmente quando Will Ferrell está em cena. Assim, o diretor acerta em confiar no seu elenco e deixar a câmera ligada. O resultado é a, já citada, grande quantidade de piadas que foi cortada e será lançada em BluRay.

Como já devo ter deixado claro aqui em cima, o elenco exala qualidade em uma enorme diversidade de situações. Claro que no decorrer do longa, a maioria das participações perde a força e Will fica com o filme só para ele brilhar. E ele consegue, como as cenas no farol deixam claro.

Mas isso não é motivo para ignorar o restante do elenco que tem um Steve Carrell insano (em uma de suas melhores performances em comédias), um David Koechner racista ao extremo e um Paul Rudd hilário, mas pouco utilizado. Isso sem esquecer de Christina Applegate, Dylan Baker, Kirsten Wiig e James Marsden que não conseguem se igualar aos demais, mas funcionam bem dentro do longa.

Um filme que se divide bem entre a critica ácida aos meios jornalísticos e o humor pastelão, mas talvez falhe um pouco com o público brasileiro por ter muitas piadas relacionadas à sociedade e ao modo de vida americana. Talvez esse seja o motivo para que algumas piadas tenham sido trocadas, mas ainda não posso afirmar se as outras também funcionam.

Não é um filme perfeito (a falta de liga pode ser ignorada, mas incomoda), mas é extremamente divertido. Tudo por um Furo pode, com tranquilidade, agradar qualquer fã de comédia, mas vai ser mais válido para aquelas pessoas que se tornaram cada vez mais fãs de Ron durante os dez anos que separam os filmes.

OBS: Não tocar Carry on my Wayward Son, do Kansas, nos créditos é um ponto negativo deste filme em relação ao original.