2

Apesar de longo, Toni Erdmann prende e tem um ritmo aceitável para produções desse tipo, pecando apenas nos 5 minutos finais…

Favorito ao Oscar 2017, Toni Erdmann estreia no Brasil após achar um pouco de dificuldade em ser distribuído por aqui, já que nem todos desejam ver o filme alemão de quase 3 horas (2 horas e 42 minutos), mas sem dúvida, o vencedor do prêmio do júri em Cannes chamou atenção de muitos, inclusive Hollywood que já anunciou o seu remake, com as presenças confirmadas de Jack Nicholson e Kristen Wiig, além da produção de Adam Mckay (A Grande Aposta).

Acompanhamos a história de Winfried (o ator austríaco Peter Simonischek), um músico aposentado e sem grandes anseios que acaba de perder seu cachorro, com isso ele tenta se aproximar da filha Ines (Sandra Hüller), sem sucesso, porque ela o odeia por seu descaso total em outras fases de sua vida e seu jeito egocêntrico. Não conseguindo se aproximar da filha de maneira convencional, Winfried resolve criar um alter-ego, o Toni Erdmann do título, um embaixador alemão egocêntrico e com o visual bizarro, uma espécie de sátira de empresários do meio em que a filha vive, com isso, tenta se aproximar dela.

Winfried é o claro”tiozinho good vibes” algo refletido em seu figurino, sempre com roupas largas, confortáveis e despojadas, o total oposto de Ines, sempre de terninho justo, como se estivesse sempre pronta pra ir ao escritório. O filme tem a sua força quando ambos interagem, seguidos de diálogos desconfortáveis e grandes silêncios, mérito da diretora e roteirista alemã Maren Ade que opta por enquadra-los em planos separados muitas vezes, mesmo eles estando juntos, ou quando estão juntos, olham para direções diferentes, seguido por planos abertos dos protagonistas sozinhos em meio a solidão, algo refletido no apartamento de Ines, sempre apelando pro branco opaco ou preto, contrastando com o colorido de seu pai quando vai passar um tempo com a moça.

Mas nem só de contemplação Toni Erdmann é feito, afinal estamos diante de um filme de comédia, mesmo que tenha uns toques de drama, e quando Winfried dá espaço para o sem noção Toni Erdmann é onde acontecem as cenas mais engraçadas da produção. Com uma peruca ridícula e um dentadura que salta aos olhos, Toni quer chamar a atenção de todas as formas, causando uma certa inveja em Ines, por ele ser bastante carismático.

Ao mesmo tempos Ines sente vergonha de ver o pai naquele estado, achando que ele está louco. A grande questão aqui, e discutida durante toda a produção é se há ou não espaço para o humor no meio corporativo, Tonni é uma figura ímpar nas festas empresarias, e destoa totalmente do público, causando ojeriza em todos, mas simpatia em alguns, como na engraçada sequência de demissão.

O filme deixa claro que Winfried e Toni são duas pessoas distintas, algo refletido na interação com Ines. Winfried está sempre no limite do desconforto com a filha, ora eles estão conversando numa boa, como numa cena em que ambos estão no Spa, para em seguida Ines receber uma ligação de “trabalho“, gerando uma discussão entre os dois, a ponto de Winfried perguntar se filha é humana. A naturalidade em que Maren Ade transita entre essas cenas de alegria e tristeza é um ponto positivo, e beira o nonsense, afinal, há uma certa dose de humor europeu.

Em seu segundo ato o filme ganha um foco maior no trabalho de Ines, tirando Winfried e por conseguinte, Toni de cena, algo que incomoda o ritmo do longa, já que como disse, ambos são melhores juntos. Felizmente o filme volta muito mais engraçado na última parte, gerando a maravilhosa cena cheia de significado em que Ines canta The Greatest Love of All, popularizada por Whitney Houston e também a melhor cena da produção, a do aniversário de Ines, uma festa do cabide com direito a muitas loucuras e diálogos perfeitos para o momento.

Apesar de longo, o filme prende e tem um ritmo aceitável para produções desse tipo, pecando apenas nos 5 minutos finais, uma espécie de epílogo, que tira um pouco do significado da linda cena anterior (uma das melhores que vi recentemente). Toni Erdman brinca com relacionamentos e com as dificuldades de comunicação entre gerações, é um filme para ser visto e revisto, pois há muito mais do que Winfried, há Toni e seus dentes incríveis.

product-image

Toni Erdmann

8.5

Tiago Cinéfilo
Estudante de Comunicação e editor deste site. Criador, podcaster e editor do "Eu Não Acredito em Nada", o podcast de terror da Odisseia.

Um Limite entre Nós

Previous article

Cinquenta Tons Mais Escuros | Ousadia vazia

Next article

You may also like

2 Comments

  1. […] Ove (Filip Berg  na juventude, e Rolf Lassgård na velhice) perdeu a mulher há 6 meses e ficou ainda mais rabugento. Quando perde o emprego, ele não vê mais motivo para viver e decide se encontrar com a esposa antes da hora, rendendo sucessivas e variadas tentativas de suicídio, sempre impedidas por algo ou alguém. Apesar da seriedade da situação, as cenas acabam ganhando um tom cômico e fazendo com que Um Homem Chamado Ove seja uma espécie de dramédia, a exemplo do também indicado Toni Erdmann. […]

  2. […] seus alvos favoritos tem sido as comédias europeias premiadas (versões de Intocáveis e Toni Erdmann já estão em produção) e todas aquelas pirações orientais que vão desde o terror sobrenatural […]

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes