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Filmes

Crítica: Tomb Raider – A Origem

Não é ruim, mas também não é ótimo

16 de março de 2018 - 02:17 - Flávio Pizzol

Todo mundo já sabe que adaptações de vídeo game não costumam resultar em grandes filmes e talvez seja possível afirmar que isso ajude a manter as expectativas, inclusive dos fãs mais loucos, um tanto quanto baixas. Eu, que parei de jogar com frequência no começo dos anos 2000, costumo entrar na sala com ainda mais cautela e analisar o filme com certa frieza. É isso que eu vou tentar fazer com esse Tomb Raider que, surpreendentemente, me deixou dividido.

Ignorando os dois filmes estrelados por Angelina Jolie no passado, a história acompanha uma Lara Croft que passa longe da arqueóloga que o público deve conhecer. Aqui ela não passa de um jovem ingênua e inexperiente – uma personagem em formação, como o próprio subtítulo faz questão de deixar claro – que decide seguir os rastros do pai falecido para entender como ele morreu. Isso a leva para uma ilha isolada onde se depara com segredos do passado, uma maléfica organização internacional e vários mistérios ligados a uma perigosa lenda japonesa.

Como os jogadores de longa data perceberam desde o primeiro trailer, o roteiro de Geneva Robertson-Dworet (Capitã Marvel) e Alastair Siddons (Não Ultrapasse) segue a trama do jogo que marcou o reboot da franquia de uma maneira extremamente próxima e sequer faz questão de disfarçar suas escolhas. A personalidade da personagem, as motivações, as reviravoltas e as principais cenas de ação são praticamente copiadas do material original, aproveitando inclusive a típica estruturação de fases e missões que se tornou uma característica dos games. É uma decisão que funciona como uma faca de dois gumes: ela proporciona uma fidelidade que não costuma ser alcançada nesse tipo de adaptação, mas, ao mesmo tempo, a repetição de plots, puzzles e clichês tão básicos resulta numa história simplória e óbvia demais.

Os roteiristas chegam a tentar incluir algumas mudanças que podem surpreender, mas o impacto acaba sendo perdido rapidamente graças a um texto permeado por flashbacks que falham em construir a relação de pai e filha, diálogos expositivos, conveniências narrativas e muitos acontecimentos regidos pelo acaso. Eles colocam até mesmo a inteligência da protagonista (e, principalmente, do público) em cheque quando decidem relembrar cenas que aconteceram cinco minutos antes durante a resolução do último mistério. Aceito que Lara não precisa ser um gênio completo na sua história de origem e até gosto disso, mas não aceito ser tratado como um idiota que precisa daqueles mini-flashbacks totalmente novelescos para entender como ela chegou em qualquer resposta.

O visual, apesar de fugir das inovações e exibir as similaridades com o jogo sem nenhuma vergonha, funciona bem melhor do que o texto. O norueguês Roar Uthaug (do ótimo A Onda) apresenta a personagem principal sem nenhuma enrolação, acompanha as cenas de ação com agilidade e boa noção de espaço, e aproveita o exagero de computação gráfica propositalmente como forma de emular os ambientes e movimentações dos jogos. É claro que esse artifício acaba soando falso na maior parte das cenas, mas o trabalho suficientemente efetivo de Uthaug só consegue ser de fato boicotado pela insistência dos estúdios em lançarem os filmes desse gênero em 3D. Em Tomb Raider, o recurso é desnecessário e ainda escurece muito algumas cenas recheadas de potencial, como a ótima sequência do naufrágio.

A escalação de Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa) como a nova interprete de Lara Croft talvez seja o único momento onde a similaridade entre longa e jogo se transforme em algo completamente positivo. O fato dela ser muito parecida com a protagonista tanto no visual, quanto na personalidade, injeta credibilidade na adaptação e facilita o trabalho de criação de uma personagem que precisa – e consegue – ter carisma para conquistar o público nos primeiros minutos. Além disso, a atriz, que também é fã do jogo original, acerta ao construir sua Lara como uma jovem normal que comete erros por conta da ingenuidade, deixa de notar coisas que estão na sua cara, se machuca bastante e, por mais forte que seja, não consegue ser uma super-heroína durante 100% do tempo.

O restante do elenco fica restrito a papéis absurdamente caricatos (os casos de Dominic West e Walton Goggins) ou não tem muito o que fazer dentro desse roteiro que não cansa de querer ser um jogo. Pode ser um pouco estranho dizer isso, mas é possível que o maior erro do longa seja ser uma adaptação fiel demais em uma mídia onde o público não pode controlar o desenvolvimento. No entanto, a trama repetitiva e o roteiro que ultrapassa o limite da simplicidade não tem força suficiente para destruir um filme de ação comum que consegue entregar cenas empolgantes, criar ligações emocionais razoáveis com o público e divertir. Se não é a adaptação que vai mudar o rumo dessa relação midiática, ao menos Tomb Raider – A Origem apresenta um universo que pode gerar boas continuações e não deixa o mesmo gostinho de tempo/dinheiro perdido que ficou na minha boca depois de Assassin’s Creed.


OBS 1: Assassin’s Creed errou quando tentou reinventar a roda e fugir do jogo, enquanto Tomb Raider pareceu escorregar justamente quando escolheu o caminho oposto. Os estúdios precisam aprender que o segredo para uma boa adaptação não está em nenhuma decisão desse tipo e, sim, no desenvolvimento de um roteiro cinematográfico que seja bom. E ponto final.

OBS 2: Eu acredito que a falta da sensação de poder que um jogador sente no vídeo game escancara erros de roteiro que o próprio jogo deve ter e prende o espectador em uma experiência mais básica do que a oferecida pela outra mídia. Independente da adaptação ser fiel ou não, o estúdio precisa encontrar uma forma de prender a atenção e surpreender esse público antes de qualquer coisa.