AODISSEIA
Filmes

Crítica: Todo Dia

Um romance adolescente clichê, porém diferente do normal

16 de julho de 2018 - 11:57 - Flávio Pizzol

Imagine se você acordasse, completamente perdido, em corpo diferente a cada dia e tivesse que viver a vida dessa pessoa sem muita interferência. Imagine também que você está do outro lado do jogo, assumindo o papel de uma garota que viveu o melhor dia de sua vida quando seu namorado foi “possuído” por esse ser. E, pra terminar, imagine o que poderia acontecer se essas duas pessoas se apaixonassem e precisassem aprender a conviver com as consequências da vida desse ser nômade. Agora você pode parar de imaginar e assistir Todo Dia para entender toda essa loucura, já que esse é exatamente o plot do longa.

Sem explicar demais ou mergulhar em questões sobrenaturais, a trama acompanha a vida de Rhiannon, uma garota que vive tentando carregar nas costas um amor supostamente não correspondido com seu namorado babaca. As coisas mudam quando A – o ser que muda de personalidade – acorda no corpo de Justin e faz tudo que a menina queria que o amor da sua vida fizesse. O problema é que seu namorado voltou ao normal no dia seguinte e ele percebeu que estava apaixonada (e sendo correspondida) por esse tal de A.

Adaptado do livro de David Levithan, o roteiro de Jesse Andrews (Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer) entende muito bem as possibilidades oferecidas por essa premissa diferenciada e começa seu percurso com muita segurança. As regras do universo que compõe Todo Dia são apresentadas de maneira ágil, a progressão a história consegue prender a atenção, a diversidade é encaixa como parte decisiva da trama e, acima de tudo, o desenvolvimento dos protagonistas é certeiro. O espectador consegue compreender os sofrimentos e dilemas de cada um em relação à própria vida e ao relacionamento deles, simpatizar com o casal e, apesar dos clichês que tomam conta do terceiro ato, torcer pelo tão esperado final feliz.

A direção simplória e burocrática de Michael Sucsy (Para Sempre) não tenta fazer nada além de repetir movimentos de câmera comuns e apostar nos planos médios pra evitar qualquer erro, mas funciona dentro da proposta também simplória de um filme cuja a pretensão é justamente ser aquele típico romance adolescente que passaria na Sessão da Tarde. Mesmo insistindo em um filtro amarelo desnecessário que surge em algumas cenas do longa, o trabalho por trás das câmeras é suficiente e até mesmo chega perto de se destacar pela forma como encara e aproveita a diversidade de raças, gêneros e estilos propostas pelo texto.

Os grandes problemas do longa, no final das contas, ficam relacionados com a falta de foco que surge quando o roteiro de Todo Dia passa por diversas mini-histórias sem a devida atenção (observe todo o trecho do possível suicídio de uma menina) e, principalmente, a incoerência narrativa que surge quando as regras estabelecidas lá no começo do filme são quebradas para possibilitar a conclusão da história. O primeiro aspecto me incomodou só um pouquinho e possivelmente passaria despercebido como característica da trama, caso a tal mudança nas regras não surgisse justamente em uma dessas tentativas apressadas de criar histórias magníficas para os a maioria corpos possuídos pelo A.

A única coisa que impede que o longa se perca de uma vez aqui é o fato dos protagonistas, como já foi dito, terem sido tão apresentados e desenvolvidos nos dois primeiros atos. Esse background forte ajuda a manter a credibilidade da história em níveis que garantam a empatia do público, enquanto o elenco tenta segurar o restante do peso. Angourie Rice (Dois Caras Legais) não é perfeita, mas consegue fazer um trabalho bacana dentro das limitações textuais, Justice Smith (Jurassic World: Reino Ameaçado) cumpre seu papel de “semi-antagonista” e Owen Teague (It: A Coisa) assume a melhor forma de A em uma série de escalações de elenco instáveis em termo de qualidade.

É essa dupla formada por Angourie e Owen que ocupam mais tempo de tela e direciona a trama para sua conclusão. A reflexão proposta nesse momento é um tanto quanto forçada, porém entende o espírito da história e recebe o bom apoio da dupla de adolescentes nos seus ápices emocionais. E o resultado – bastante clichê e previsível – acaba funcionando. É claro que a execução poderia ser tão boa quanto a ideia inicial, sendo mais preciso para aproveitar algumas subtramas abertas na família da protagonista, mas o combo não chega a ser pavoroso. E, além disso, se Todo Dia acabou me agradou mais do que eu esperava, deve ter força suficiente pra conquistar os corações do seu verdadeiro público-alvo.


OBS 1: Só pra tentar explicar como a falta de foco afeta o filme, podemos pensar nos dilemas de Rhiannon. Os problemas que cercam A são muito claros, mas a maneira com a escola começa a chamar ela de vagabunda após vê-la com uma pessoa diferente a cada dia poderia ser muito melhor aproveitado. E o mesmo pode ser dito da menina suicida e do pai da protagonista…