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Tigertail se mostra uma bela amostra da vida cobrando suas escolhas do passado


Em 2005 vimos o sucesso da novela América. Em horário nobre da tv, a jovem Sol, vivida por Deborah Seco, tentava ir de forma ilegal para os EUA para ajudar financeiramente sua família no interior paulista.

A história de brasileiros cruzando a fronteira do México com os EUA se repete arduamente nos dias de hoje, sempre com o mesmo objetivo de conseguir uma vida melhor. O imaginário do “Sonho Americano” é muito forte para quem não tem muita coisa e vê no deslumbre do capitalismo uma oportunidade de aceder socialmente.

Em Tigertail não é diferente. O longa disponível na Netflix, apesar de não se apoiar na ilegalidade da imigração, o sonho é o mesmo e as dificuldades, idem. É uma história real e muito presente atualmente, e aí vai de cada um lidar com as dores que o passado vai cobrar.

tigertail e o sonho americano

Tigertail é real

A expressão “Tigertail” pode ser traduzida como pegar um tigre pelo rabo. Ou seja, a única maneira de sair de uma situação complicada é ir até suas últimas consequências para terminar o que começou.

Alan Yang, cocriador de Master of None e produtor de The Good Place, dirige e roteiriza o longa, o primeiro de sua carreira. Aqui, ele conta exatamente isso, baseado nos contos de seu próprio pai. 

Quando Grover (Tzi Ma – A Chegada), ainda criança, houve de sua vó que homens não devem chorar pois é sinal de fraqueza, o menino leva essa fala consigo pelo resto da vida e cria todas suas relações numa aparente força que na prática nunca existiu.


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Grover só demonstra um pouco mais de carinho e sensibilidade quando conhece uma jovem na qual se apaixona perdidamente. Ali percebemos como ele é de verdade e quão doce pode ser. Mas sua pobreza e a oportunidade de ir para os EUA ganhar dinheiro e ajudar sua mãe acabam deixando o amor em segundo plano para dar lugar a um casamento arranjado e sem nenhuma conexão.

Toda essa dor do jovem é traduzida em sua rotina fria e gelada. Sem vontade de conversar e apenas vivendo, Grover vai criando uma casca difícil de quebrar.

Quantos paralelos é possível fazer com nossas relações frias de trabalho e meras formalidades? O quanto de Grover há em nós quando nos é dada uma situação que não podemos sair?

Um casamento arranjado e um amor deixado para trás são sintomas de uma vida difícil em que uma oportunidade de arco-íris facilmente se transforma em mera tempestade.

E tudo isso Alan Yang passa no seu texto. Ou até a falta dele. Um olhar pro lado, perdido no meio de tantos pensamentos. Uma lágrima que escorre por suprimir a vontade de gritar. Uma cenoura cortada que mostra toda solidão de alguém que sempre buscou o silêncio.

Sua câmera passeia por locais frios, gélidos e pouco convidativos. Como quem diz que não quer sua presença ali. O espectador é quase um intruso na história sem cor de Grove. O vazio que preenche o quadro vai mostrando que tudo que o personagem conquistou não cabe dentro de si e você mesmo se questiona se foi a decisão correta largar tudo pra viver um sonho financeiro.

E o sonho americano?

Não podemos julgar quem escolhe mudar de vida. A situação faz o homem e ele próprio se molda às circunstâncias.

Tigertail é um drama sincero e bem pessoal. A simplicidade narrativa não dá brechas para outras interpretações da história. Toda essa proximidade com os fatos contados, fazem do filme uma experiência bem genuína, de quem parece ter vivido tudo aquilo de perto.

A luz do fim do túnel pode requerer sacrifícios. São escolhas que fazemos mirando nosso futuro e sabemos das consequências. Grover fez a dele e a Sol, da novela América, também. Duas formas distintas de ir para o exterior mas tendo a mesma ideia em mente.

Personagens assim são retrato da realidade e vão se repetir diariamente. De vez em quando nos esbarramos com essas histórias e vemos boas novelas e bons filmes, como esse daqui.

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Tigertail

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