AODISSEIA
Séries

Crítica: This Is Us (2ª Temporada)

Ou um manifesto pela melhor série dos últimos anos...

17 de Março de 2018 - 15:19 - Flávio Pizzol
Alerta: Quero me desculpar, mas é impossível escrever esse texto sem dar nenhum spoiler. Termine a temporada antes de lê-lo!

A vida, como diria o grande Joseph Climber, é uma caixinha de surpresas. Uma caixinha que, além dos milhares de dias comuns, pode estar repleta de felicidade, tristeza, romances, desilusões, decisões idiotas, brigas familiares, dependências químicas, doenças, mortes e voltas por cima. Uma caixinha que dita a música que vai nos acompanhar os grandes momentos, enquanto tentamos encontrar os caminhos para viver da melhor forma possível. Essa é a vida em qualquer lugar do mundo e não existe nenhuma série que tenha conseguido adaptar esse espírito melhor do que This Is Us.

Para quem não tem ideia do que eu estou falando e já deveria ter aberto outra aba para começar sua maratona, o programa da NBC é um típico melodrama – novelão mesmo – que basicamente acompanha a família Pearson através do tempo. Falar mais do que isso seria um desperdício de palavras, mas posso garantir o roteirista, e criador da série, Dan Fogelman (CarrosAmor a Toda Prova) surpreendeu o mundo ao transformar um dos gêneros mais batidos da televisão mundial em sucesso instantâneo desde seus primeiros minutos.

A primeira temporada estreou, depois de uma ótima campanha de divulgação, com um dos melhores episódios-piloto da história da televisão americana. Uma trama simples que apresenta um rol de personagens carismáticos, conquistava o público com uma mistura perfeita de drama e comédia, arrancava lágrimas sem que o espectador precisasse forçar e ainda coroava tudo com uma reviravolta genial. Foi essa combinação que me fez devorar a série em uma maratona tardia e, logo depois, colocá-la no topo das minhas preferências, mas hoje eu tenho certeza que This is Us é muito mais do que plots twists e lágrimas.

Como eu disse na introdução, o maior acerto da série está justamente na maneira verdadeira e palpável com que seus roteiros levam a vida para a televisão. Os personagens, por mais ricos que sejam, são seres humanos normais e, como tais, convivem com problemas que qualquer um de nós, meros mortais, poderia enfrentar ou acompanhar um familiar enfrentando. A lista é grande, mas podemos destacar a perda de um bebê, a procura pelos pais biológicos, o racismo, a ausência de representatividade, o alcoolismo, a tentativa de emagrecer, a destruição de um sonho, o luto e muito mais. Discussões reais e necessárias que, querendo ou não, vão acabar sendo relevantes para a parcela do público que já conviveu com alguns desses tópicos.

No entanto, Fogelman e sua equipe sabem que essa tal de vida também possui boas doses de sorrisos, amores e momentos felizes que não merecem ser ignorados. É assim que, com uma sensibilidade absurda, This is Us faz os espectadores darem risadas genuínas no meio de um tsunami de lágrimas, simpatizarem dilemas de pessoas distintas de si e se manterem fiéis em todos os momentos, inclusive quando a série entra em terrenos que passam longe de terem qualquer relação com sua vida. Eu, por exemplo, não sou negro ou obeso, mas a empatia que surge dessa mistura entre drama e comédia possibilita que Randall e Toby sejam meus personagens favoritos.

E, se isso não for o suficiente, as reviravoltas e lágrimas voltam a palco para garantir que This is Us sabe como contar uma história da melhor maneira possível. As temáticas dos episódios são muito bem construídas através dos paralelos temporais, os flashbacks sempre entram na hora certa, as frases de impacto – clichês típicos do gênero – são incrivelmente bem escritas e os atos são desenvolvidos de maneira progressiva, visando, sem nenhum segredo, derrubar o espectador no terceiro ato. Além disso, eu admito que fico admirado/assustado com a capacidade que os roteiristas tem de criar reviravoltas em praticamente todos os episódios. Enquanto algumas dessas viradas movimentam o arco principal, outras apenas brincam com a percepção do espectador que acompanhou um gato ou uma desconhecida assistente social durante todo o episódio para descobrir, nos últimos segundos, que eles estavam em mais uma das dezenas de linhas temporais do show.

A segunda temporada (pode não parecer, mas ela ainda é o foco desse texto) replicou todas essas qualidades com perfeição, chegando ao ponto de passar a impressão de estar perdendo o fôlego dentro de sua própria fórmula. Os primeiros episódios desses segundo ano ficaram um pouco cansativos e não conseguiram, naturalmente, repetir o impacto que a estréia do programa. O público já sabia como as histórias eram construídas e colocou grandes expectativas em surpresas que já não tinham tanta graça, mas This is Us precisou de pouco tempo para mostrar que esse era apenas uma necessária preparação para as quebras de padrões que estavam por vir.

O ponto de virada veio com a sequência de episódios que focou, separadamente, nos dramas de cada um dos três protagonistas, flertando sempre com aquele que seria o grande plot – e esperado – da temporada: a morte de Jack. Construindo tudo com cuidado e culminando em um episódio especial de Super Bowl, a série entregou todo o seu potencial ao surpreender o público com um falecimento nada heroico para seu melhor e mais carismático personagem. Assim como pode acontecer na vida, o homem que tinha uma resposta inspiradora para tudo, não conseguia passar um dia sem preparar grandes gestos românticos e enfrentava no fogo para salvar um cachorrinho morreu da maneira mais comum, em segundo plano, em uma cama de hospital. Mesmo sendo um personagem marcante, Jack fez sua última piada, deu um beijo na esposa e partiu como um ser humano normal que fez 100% dos espectadores chorarem como criancinhas abandonadas no shopping.

E o mesmo efeito continuou no episódio do velório que, fugindo dos padrões, optou por homenagear Jack através de sua relação com o carro da família. Passando por vários anos e ignorando os personagens no presente, This is Us fez com que todas as lições ensinadas pelo personagem substituíssem qualquer discurso que poderia ser dito no enterro. E, quando você menos espera, os roteiristas deixam claro que não vão abrir mão do espírito de um personagem tão importante tão cedo, acompanhando o por outros momentos decisivos do passado e encerrando tudo com um momento ligado ao próprio Jack e que certamente estava na lista dos acontecimentos mais esperados da temporada: a união matrimonial de Kate e Toby.

Temos que admitir que não existe evento melhor do que um casamento para concluir uma temporada de “novela” preenchida por saudade, lembranças dolorosas e muitas brigas familiares, porém não podemos esquecer das características – todas citadas acima – que fizeram This is Us ser um sucesso. Dentro disso, tivemos uma abertura cujo objetivo era deixar o queixo do público no chão, encerramento para todas as tramas, piadas certeiras de Toby, discursos emocionantes de Kevin e Randall, o já clássico diálogo inspirador protagonizado por Jack e alguns flashforwards que, mesmo sem cravar nada, traçam muito bem o que podemos esperar da próxima temporada. Um típico episódio de This is Us que, como sempre, terminou com um pedaço de papel enxugando minhas lágrimas.

Entretanto, seria uma injustiça absurda terminar esse texto sem falar sobre o premiado e enorme elenco da série. Os roteiros de Fogelman são geniais e a direção é certeira, mas nada disso funcionaria se os atores não conseguissem encarnar os personagens com o carisma e a verdade que This is Us precisa para sobreviver. Milo Ventimiglia (Rocky Balboa) interpreta o clichê de pai e marido perfeitos com uma autenticidade que merece aplausos; Mandy Moore (Um Amor para Recordar) foge um pouquinho disso e atravessa mais camadas de emoção, chegando ao ápice da sua carreira na brilhante cena em que recebe a notícia da morte de Jack; Sterling K. Brown (American Crime Story) não deveria ter seu divertido e tocante – ao mesmo tempo – trabalho como Randall resumido em palavras; Chrissy Metz (American Horror Story) também encontra o tom perfeito para desenvolver aquela que talvez seja a personagem que mais escancara suas emoções e instabilidades; Justin Hartley (Perfeita é a Mãe 2) deve ser o ator mais limitado do grupo, mas se força e funciona como uma luva para Kevin; Susan Kelechi Watson (The Blacklist) parece ser o clichê de mulher perfeita, mas sua Beth está na lista de personagens poderosas que enfrentam qualquer obstáculo e mandam no marido sem discussão; e, por fim, Chris Sullivan (Guardiões da Galáxia Vol. 2) tem o personagem mais carismático, romântico e engraçado em mãos, mas não permite que sua atuação se resuma a piadas.

Dito isso, posso encerrar meu manifesto disfarçado de crítica (e/ou vice-versa) de uma temporada que pode ter demorado para engatar e surpreender de verdade, mas conseguiu encerrar seus 18 episódios no mesmo nível daquele ano de estreia mais do que perfeito. Eu não sou o mair fã do gênero, mas já criei uma conexão tão grande com This is Us e seus personagens que me sinto enfrentando o velório ou o casamento de alguém da minha família. E o futuro promete muito depois que a segunda temporada se livrou do seu maior mistério e mostrou que deve expandir seus horizontes com um Randall do futuro, alguma doença ameaçando o Toby (que ódio disso!) e um romance com muito potencial para Kevin. Que venha o próximo ano da vida deles e da nossa!