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Séries

Crítica: The Umbrella Academy – Uma Família do Barulho

Novo acerto da Netflix mistura fantasia, drama familiar e ação com muito estilo

19 de fevereiro de 2019 - 12:47 - Flávio Pizzol

Já comecei uma quantidade incontável de textos desse site falando sobre a quantidade de investimentos que a Netflix tem direcionado para a produção de conteúdo original. E, por mais que os executivos insistam em negar o peso da concorrência, essa é uma decisão que ganhou mais cara de necessidade com o lançamento de outros serviços de streaming que tendem a rivalizar ou até roubar conteúdo da nossa companheira vermelha. É nessa onda que a mistura entre pessimismo, estilização e super-heróis que compõe The Umbrella Academy se encaixa como uma aposta certeira, trazendo mais público e flertando com uma possível franquia que substitua a parceria com a Marvel.

Adaptação da graphic novel de Gerard Way e Gabriel Bá, a série acompanha uma família de super-heróis criada por um bilionário excêntrico que decide adotar sete crianças superpoderosas que nasceram no mesmo dia em circunstancias tão bizarras quanto o restante da premissa. A ideia dá certo e, depois de um treinamento rigoroso, a “Umbrella Academy” se torna um fenômeno popular com direito a quadrinhos e actions figures. No entanto, uma separação inevitável acontece e cada um passa a comandar sua própria vida até que uma morte inesperada os obriga a se reunirem e lutarem juntos para evitar o apocalipse.

É um pouco confuso, mas faz sentido dentro desse universo que mistura o cartunesco e o caricato dos quadrinhos com uma pegada mais realista, incluindo doses bem honestas de discussões filosóficas, drama e comédia. A direção da série entende isso muito bem e transmite a sensação para o público tanto no visual dos cenários, quanto na construção da história em si. Em outras palavras: você vai assistir uma série de super-heróis que, como tal, usa a fantasia como combustível, mas concentra a base de tudo mais nas relações familiares do que no combate ao crime em si.

É mais ou menos o mesmo caminho que A Maldição da Residência Hill usou pra construir um terror que também flertasse com um drama familiar. Uma escolha que funciona justamente porque facilita a conexão do público com os personagens, já que, tirando o macaco falante, as viagens no tempo e mais alguns elementos que fogem do real, a maior parte do programa gira em torno de questionamentos e confusões que poderiam surgir em qualquer família. Talvez os Hargreeves sejam um pouco mais disfuncionais que os nossos parentes, mas muita coisa não só se mantém próxima do ordinário, como acaba sendo transformada em piadas de cotidiano por um texto que sabe equilibrar pessimismo e urgência com bom-humor e ação.

Entretanto, fora de toda essa fundamentação, não podemos esquecer da já citada parte “super-heroica” dessa festa chamada The Umbrella Academy. Da mesma forma que a direção – que passa por diversos nomes acostumados com a pancadaria das outras séries da Marvel – também não esquece, entregando cenas de ação que usam os poderes de cada um com muito talento para flertar tanto com a violência urbana e sangrenta, quanto com a sutileza de um boato sendo espalhado. Funciona muito bem e chama ainda mais atenção graças ao combo de agilidade e criatividade que a maioria dessas sequências ganha por conta da montagem e da trilha sonora.

A edição, mesmo dividida entre seis pessoas, encontra seu padrão nos cortes rápidos e nas transições estilizadas, ajudando no equilíbrio do tempo de tela de cada personagem e na revelação de certas respostas. Já a música composta/escolhida a dedo por Jeff Russo (Legion) acerta tanto nas peças originais quanto nas canções reconhecidas que embalam de danças aleatórias a tiroteios sem perder a intensidade, refletindo muito bem a personalidade da série e dos seus personagens. Além disso, ambos tem papel fundamental na hora de levar o espectador pra dentro da história e mantê-lo imerso até quando os roteiros de Jeremy Slater (Quarteto Fantástico) e Steve Blackman (Fargo) demoram pra engatar.

E isso é uma verdade que nem mesmo elenco tentou negar nas entrevistas de divulgação. O começo da temporada inaugural de The Umbrella Academy é meio lento e arrastado, mas quando a trama engata vai sem grandes pausas até um final marcado por boas reviravoltas. É nesse ponto que o texto mostra que até seus momentos mais parados também eram importantes, servindo como peças necessárias sobre o presente, o passado e o futuro de várias subtramas. Inclusive, essa parada de brincar com o tempo frequentemente merece algumas palavras, já que Slater e Blackman mandam bem dentro de uma temática que costuma gerar confusão e muita ponta solta.

Não que isso seja algo inexistente aqui. Algumas coisas são pouco aprofundadas, mas a dedicação e o comprometimento que o roteiro demonstra em episódios focados quase que exclusivamente na dinâmica da viagem no tempo chega perto de compensar os escorregões. Também podemos dizer que o mesmo acontece com a série no geral, considerando que os arcos desnecessários, as coincidências e as doses de enrolação podem ser facilmente digeridas junto com uma mistura que funciona em sua maioria. E boa parte disso “desce redondo” por conta de uma gama de personagens (entre heróis e vilões caricatos) sólidos. Personagens que, mesmo cartunescos e exagerados ao extremo, possuem camadas, dilemas e motivações que ajudam justamente na construção de uma base resistente para a série.

Sem contar que isso é um prato cheio para o ótimo elenco de The Umbrella Academy brilhar tanto nos momentos mais contidos, quanto nas cenas de ação cheias de coreografias e malabarismos. E, por mais que a lista fique enorme graças ao fato de todos terem ao menos dois grandes momentos nos dez episódios, o destaque vai para a introspecção de Ellen Page (Juno), a doçura internalizada de Tom Hopper (Game of Thrones), a fisicalidade de David Castañeda (Sicário: Dia do Soldado), a imponência de Emmy Raver-Lampman (A Million Little Things), a aceleração de Robert Sheehan (Máquinas Mortais), a surpreendente frieza de Aidan Gallagher (Nicky, Ricky, Dicky & Dawn), a química vilanesca de Mary J. Blige (Mudbound) e Cameron Britton (Mindhunter), a captura de movimentos precisa de Adam Godley (O Bom Gigante Amigo), a rigidez de Colm Feore (House of Cards) e o porte ameaçador de Kate Walsh (13 Reasons Why).

Eles são o corpo e a alma de uma série que passa longe de ser perfeita. Não dá pra negar que é necessário um pouquinho de paciência pra aproveitar a experiência oferecida aqui, mas The Umbrella Academy tem muito estilo, criatividade e ótimos personagens. Elementos que contam muito para o sucesso da primeira temporada e sua possível transformação em franquia. O material original existe, o universo já está muito bem estabelecido e uma necessidade menor de apresentar os personagens com tantos detalhes poderia tornar a viagem mais tranquila. Talvez valha a aposta…


OBS 1: Só eu ficava caçando onde ia surgir o guarda-chuva com o título em cada episódio?