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Os 150 de Jadotville!


Desde sempre, uma das grandes sacadas da Netflix foi focar nos nichos, ou seja, naqueles grupos de pessoas com gostos específicos que raramente são o público-alvo da televisão aberta. Elas assinam o serviço de streaming (ou canal a cabo) para ter acesso a produções originais e diferenciadas, isso viabiliza programas mais ousados para esses públicos e o ciclo de boas produções se fecha em torno disso. Seguindo essa mesma linha nos filmes, The Siege of Jadotville chega para mexer com aqueles que – assim como eu – amam filmes sobre momentos históricos esquecidos no tempo.

Aproveitando um evento que só foi reconhecido oficialmente depois de anos, a nova produção da Netflix nos apresenta a história real de 150 soldados irlandeses – sem nenhuma experiência de batalha – que viajam para o Congo, em plena Guerra Fria, como parte da Força de Paz da ONU. Lá eles perdem o apoio e ficam presos entre as jogadas políticas de um diplomata e os ataques de um exército formado por mercenários franceses. Assim começa o cerco de Jadotville que dá nome ao filme.


+++ Meu nome é Dolemite. Pretos no topo
+++ Corra acabou de entrar na Netflix 😀

As histórias de The Siege of Jadotville

Como todo bom filme de guerra, o roteiro de Kevin Brodbin (Constantine) em The Siege of Jadotville se divide entre os aspectos político e a guerra em si, sendo que o desenrolar de um depende do outro e vice-versa. Nesse caso, a guerra é o lado que ocupa mais espaço e, apesar do pouco desenvolvimento de personagens, os soldados dão conta do recado por assumirem os estereótipos clássicos da guerra, como o brincalhão, o comandante, o responsável pelo rádio, o sniper e tantos outros facilmente reconhecidos.Não é o melhor jeito de tratar seus protagonistas, mas funciona por colocar o espectador em um ambiente conhecido.

Mesmo assim, alguns dos membros do pelotão se destacam no decorrer de The Siege of Jadotville, sendo que o principal deles, obviamente, é o comandante Quinlan (Jamie Dornan).Ele pode ser considerado um apaixonado por estratégias históricas que precisa se provar como um verdadeiro líder, inspirando seus soldados quando Julius Cesar e Rommel não importam mais. É através dele que entendemos alguns dos soldados com mais profundidade, destacando a sutileza por trás do olhar ressentido que o sniper (Sam Keeley) apresenta sempre que mata alguém.

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Do outro lado, a disputa política fica por conta da disputa entre o representante da ONU (Mark Strong) e o General Tshombe (Danny Sapani), presidente autodeclarado da província de Katanga. A relação entre os dois se desenvolve em um ritmo aceitável, mas isso não impede que o general seja apresentado com uma visão bastante maniqueísta onde ele é simplesmente um cara ganancioso que nunca deixa transparecer suas motivações para ser presidente.

Eu gosto quando esse tipo de “vilão” acha que realmente está ajudando as pessoas, assim como acontece com o Dr. O’Brien. Ele também acaba funcionando como um vilão em certos momentos e pode até gerar algum ódio entre os espectadores, mas sempre verbaliza que está fazendo o que precisa para evitar a Terceira Guerra Mundial.

A direção do novato Richie Smyth extrai boas atuações do seu elenco principal, mantém o ritmo de ambos os contexto e não deixa que o filme se torne cansativo fora das cenas de ação. Apesar disso, os melhores momentos de The Siege of Jadotville ficam concentrados nas saídas encontradas pelo comandante para manter seus homens vivos, nas estratégias pouco ortodoxas dos mercenários e nos movimentos de câmera que emulam grandes diretores como Steven Spielberg e Ridley Scott. O seu grande problema fica restrito a artificialidade de algumas tomadas pela falta de sujeira e sangue no campo de batalha.

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Além disso, o final também me incomoda um pouco por simplesmente abandonar o lado político a partir da rendição dos protagonistas. As longas cenas de batalha poderiam ter sido encurtadas para que o longa explorasse esse tempo na prisão sem precisar usar nenhuma desculpa barata. Eu não aceito que os jogos políticos que ocuparam tanto tempo de tela sejam simplesmente reduzidos a uma narração in off, justificando que os soldados estavam tão felizes que simplesmente ligaram o foda-se para o acordo que salvou a vida deles. Desculpa, mas isso não cola!

Mesmo assim, The Siege of Jadotville recupera sua honra nos últimos minutos, contando com uma cena marcada pelo espírito de Sociedade dos Poetas Mortos e as clássicas homenagens que preenchem o fundo preto antes do créditos. É um filme interessante e emocionante que merece ser visto pela curta aula de história políticas e por oferecer a honra que todos aqueles soldados mereciam ter recebido na volta pra casa. Certamente não tem um terço da força de Beasts of No Nation, mas pode ser visto tranquilamente por aqueles que gostam de descobrir novas histórias e assistir bons filmes de guerra.


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Jadotville e seus momentos históricos esquecidos no tempo - A Odisseia

The Siege of Jadotville é mais uma produção da Netflix que chega para mexer com aqueles que amam filmes sobre momentos históricos esquecidos no tempo.

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The Siege of Jadotville

7

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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