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Várias coisas podem levar o público a assistir essa ficção científica australiana: o fato de ser o segundo filme de David Michôd, diretor que surpreendeu em Reino Animal, seu primeiro filme; as proximidades aparentes com o cultuado Mad Max; as comparações e reflexões sobre o nosso mundo que esse tipo de ficção científica pode oferecer; e, nesse caso específico, o fato de ter Robert Pattinson em um papel particularmente difícil. Tudo isso dá um gostinho diferenciado ao filme, que é uma das melhores obras que eu vi esse ano.

O filme se inicia 10 anos após um colapso financeiro, que nunca é aprofundado ou explicado. Em um cenário desértico, Eric tem seu carro roubado e parte em uma perseguição – inexplicável, à primeira vista – para recuperar seu único bem. No meio do caminho, acaba encontrando com o irmão de um dos bandidos e forma uma dupla tensa e improvável com ele.

Sim, essa é a basicamente a história do filme. Usando como base uma história criada por Michôd e o ator Joel Edgerton (provavelmente durante a produção de Reino Animal), a história é simples e minimalista em seu conceito, mas é bem complexa no seu desenvolvimento e nas suas ligações. A construção lenta e homeopática vai mostrando as poucos quem são aquelas pessoas desumanizadas e suas motivações, ao mesmo tempo em que deixa a tensão no ar e faz criticas ao capitalismo. De certa maneira, o mundo acaba, mas o capitalismo não.

Aquele público robotizado e acostumado a histórias mastigadas. com certeza, vai se incomodar com a falta de movimento ou de informações. Alguns personagens vão morrer e você vai continuar sem saber quais eram suas reais intenções de maneira completa, mas tudo o que é apresentado é um prato cheio para realizarmos uma reflexão sobre nossas ações e reações. O que interessa ao diretor é o poder que seus personagens tem. O que ele quer é fazer uma analise de como o ser humano convive em mundo escasso e sem muitas regras.

E assim o diretor vai guiando o público com movimentos de câmera contemplativos e crus. Sem abusar, o diretor usa vários planos-sequência tanto para retratar e nos situar naquele universo pobre, quanto para explorar a crueldade dos acontecimentos. Em quase todos os momentos mais pesados e sangrentos, Michôd opta por deixar a câmera fixa em um personagem em apuros ou em um corpo sem vida. Ele não tenta, em nenhum momento, poupar o público, já que sentir o peso do que aconteceu, faz parte da experiência nada divertida proporcionada por esse mundo pós apocalíptico.

O restante da produção também acertou em cheio. A direção de arte aproxima o cenário árido daquele visto no clássico de George Miller, mas a fotografia mais seca e empoeirada faz questão de afastar esse mundo daquele. Ao contrário de Mad Max, The Rover não é uma aventura e deixa isso claro desde o início. O filme é lento, mas tem cenas de ação pontuais que, junto com a tensão constante entre os personagens, deixa o público preso ao filme.

Ao lado da condução precisa e hipnotizante de David, a edição e a trilha sonora fazem trabalhos magistrais ao não deixar o filme se perder. Isso não vai impedir que aquele público viciado em filmes mastigados e em blockbusters crie uma aversão quase imediata ao filme, mas é importante para quem gosta desse tipo de filme.

As atuações também contribuem para deixar o espectador alerta. A construção vazia e crescente de Eric e Rey cria uma certa empatia com o público sem deixar que o temor fique de fora e isso é influenciado pelo ótimo trabalho de Guy Pearce e Robert Pattinson, respectivamente. É por causa da presença do astro de Crepúsculo no filme que eu insisti em ressaltar que o filme tem um público definido, por que um filme intenso desse não merece ser rebaixado por uma faixa de público que vai ir aos cinemas para ver Pattinson.

Mas não se preocupem, ele mostra que tem capacidade de ser um bom ator e crescer na carreira. Se adaptando muito bem ao sotaque australiano e às próteses dentarias estranhíssimas, Robert consegue dar grande importância a um personagem mentalmente lento, submisso e ingênuo. É inevitável que o público se conecte com Rey e até torça por ele – de maneira contida, claro – durante o clímax do filme.

Enquanto Robert consegue ser uma boa surpresa, Guy Pearce toma conta do filme sem fazer nenhum esforço. De maneira comedida, Pearce constrói um herói sem passado (e, de certa maneira, nem futuro…) que, mesmo tendo outro carro, sai em uma busca sangrenta pelo seu bem roubado. Um personagem, que ao contrário do de Pattinson, é mais complexo psiquicamente do que fisicamente, por apresentar, em uma mesma cena, momentos complemente opostos. Se um uma cena, ele está tranquilo e até emocionado, em outra ele acaba sendo extremamente frio e violento.

Um filme que mistura ficção científica, com um pouquinho de faroeste e road movie, mas não é pensado para agradar todo mundo. Um filme tenso e pesado, mas que tem um final (SEM SPOILERS) totalmente simpático e humano. Um longa poderoso que é perfeito para nos fazer pensar sobre a humanidade e nossas relações cotidianas.

OBS 1: Esse filme me fez ter certeza que o maior problema da Saga Crepúsculo é a falta de direção do elenco. Na boa, cada vez estou queimando minha língua e aceitando que Pattinson e Kristen Stewart são bons atores que não se desenvolveram por estarem nas mãos de péssimos diretores.

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1 Comment

  1. […] para gerar alguma ilusão de ótica, utiliza a fotografia cheia de luzes neon de Natasha Braier (The Rover – A Caçada) para mexer com a mente do espectador e dita o andamento das cenas com as composições […]

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