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The Marvelous Mrs Maisel une bom humor ao discurso feminista de sua talentosa criadora


Ser mulher nunca foi uma tarefa fácil, mas imagine isso nos anos 50? Educada para conseguir um bom casamento, ser uma boa esposa, mãe e dona de casa… assim aconteceu com Miriam Midge Maisel (Rachel Brosnahan), que apesar da boa vida, não escapou do destino misógino da época em “The Marvelous Mrs Maisel”.

Midge, assim chamada pelos mais íntimos, até frequentou a faculdade, mas lá conheceu Joel (Michael Zegen), por quem se apaixonou e se casou. Tiveram dois filhos, Ethan e Esther, e tinham uma vida perfeita em Manhattan. Como uma boa esposa, ela cuidava das crianças, administrava a casa e ainda acompanhava seu marido em suas apresentações de stand up no Gaslight, todas as noites.

No entanto, tudo desmorona quando Joel confessa uma traição e decide troca-la pela secretária, Penny Pann (Holly Curran). Como se não bastasse, Midge é encarregada de contar tudo para seus pais, Abe e Rose, e carregar o fardo da culpa pelos erros do marido. Nesse momento, ela se depara com a sua vida de cabeça pra baixo e decide ressignificar sua existência através da comédia.

The Marvelous Mrs Maisel

Mas ao contrário de Joel, Midge tem uma veia cômica. Ela tem timing, um raciocínio rápido, é desbocada, criativa, inteligente, original e é mulher! Um grande diferencial para a época, e também um argumento para quem a subestima, mas para Susie (Alex Borstein) é sinônimo sucesso.

Susie Mayerson é a gerente do Gaslight, é quem aposta tudo em Midge e se junta a jovem judia a fim de alavancar sua carreira de comediante. Frequentemente confundida com um homem, Susie é na vida real o que Midge costuma apresentar no palco. Ela não segue os padrões de beleza da época, não é casada, fala o que pensa e não leva desaforo pra casa, além de ser solteira. Mas como ela mesmo diz “não liga de morrer sozinha, ela só não quer ser insignificante”.

Susie teve uma vida diferente da de Midge, sem nenhum privilégio e com uma família completamente desestruturada. Ela é diferente de qualquer mulher dentro do círculo social da amiga, o que resulta em momentos cômicos. A parceria de Midge e Susie é como café com leite: duas coisas completamente diferentes, mas que dão muito certo juntas.

Bela, recatada e do lar

Imagine dormir depois do seu marido e acordar antes dele, tudo para não aparecer sem maquiagem? Costumes bizarros, mas rotineiros, e que foram introduzidos na primeira temporada de ‘The Marvelous Mrs Maisel’. Nos primeiros episódios, vemos uma obsessão pela aparência feminina que beira ao absurdo. E apesar de chocar, é difícil segurar a risada vendo Midge medir a testa da pobre Esther.

Rose (Marin Hinkle), é quase um espelho desses costumes. Segue todos à risca. Cuida da casa, demonstra uma certa submissão em relação ao marido e se preocupa com a sua imagem diante da comunidade. Por isso, o divórcio de Midge é um colapso em sua vida.

the marvelous mrs maisel

É fácil duvidar do potencial da personagem diante de concepções tão retrógradas. Mas logo na segunda temporada de ‘The Marvelous Mrs Maisel’ conhecemos uma outra versão de Rose. Sem normas, sem moldes, sem fragilidade. Independente, e que chega a intimidar os outros com sua autoconfiança.

Tais detalhes, quase minuciosos, denotam um importância enorme quando vemos o crescimento das personagens. Midge acordando sem maquiagem e despenteada, e Rose morando numa pensão no subúrbio de Paris, refletindo sobre a vida que leva, percebendo que quer ser mais do que uma dona de casa e coloca seus interesses em primeiro plano.

Abe (Tony Shalhoub) também merece uma atenção especial. Somos apresentados a um homem tradicionalista, ranzinza, professor de matemática e insatisfeito com o rumo que a vida da filha está tomando. É difícil simpatizar logo de cara com o patriarca da família. Abe reproduz falas completamente machistas, principalmente quando Joel decide deixar Midge.

Ele teme pela imagem e pelo futuro da filha e dos netos, mas logo mostra um outro lado. Apesar da postura, Abe demonstra um certo orgulho quando a filha não aceita a traição do marido, se surpreende quando ela decide trabalhar e é um dos primeiros a saber da carreira de comediante de Midge, que a princípio, seria secreta. Abe foi um jovem revolucionário, frequentava protestos e apoiava partidos comunistas, sendo posteriormente lapidado pelos “bons costumes”.

Liberdade

Decerto, a ascensão de Midge causou um efeito dominó na família. Ao tomar as rédeas da própria vida, ela derruba todos os arquétipos, deixando o caminho livre para que outros(as) façam o mesmo. ‘The Marvelous Mrs Maisel’ fala sobre Feminismo sem nem citar a palavra, apenas ilustra através de situações e de várias falas que fazem a gente respirar fundo e refletir por um segundo.

Nas três temporadas de ‘The Marvelous Mrs Maisel’, o amadurecimento de Midge é evidente. A desconstrução da personagem e a percepção de privilégios acontece a cada episódio. Ela se torna flexível e empática diante de causas sociais, e de toda a montanha-russa de sua carreira.

the marvelous mrs maisel

Nostalgia

Se você assistiu “Gilmore Girls”, provavelmente reconhecerá que em certos momentos é difícil não lembrar da Lorelai, que apesar de não ser comediante, também é rápida quando o assunto é humor afiado e forte, no quesito independência feminina.

Amy Sherman-Palladino transfere, de certa forma, uma leve essência da personagem para ‘The Marvelous Mrs Maisel’. Midge tem uma identidade própria, mas as personagens femininas de Amy tem carisma, presença e um traço cômico, que provavelmente é o aspecto mais marcante.

O visual de ‘The Marvelous Mrs Maisel’

Mais colorida impossível, a fotografia de ‘The Marvelous Mrs Maisel’ não passa despercebida. Composta de tons pasteis, o visual da série enche os olhos com os figurinos estilosos e os mil chapéus de Midge, fora todos os outros itens que remetem aos anos 50/60. A composição de cores e elementos vívidos conversam com o enredo leve da série, fazendo com que fiquemos completamente envolvidos com os episódios.

E apesar das características de época, trilha sonora e afins, ocasionalmente somos pegos de surpresa com trilhas atuais compondo algumas cenas, uma mescla que funciona muito bem. Ver um episódio de ‘The Marvelous Mrs Maisel’ ser finalizado ao som de The Strokes é quase uma catarse.

Se você ainda não viu, talvez se culpe por não ter assistido antes. “The Marvelous Mrs Maisel” é cheia de humor ácido e diverte, seja pelos shows ou pela vergonha alheia dos personagens.


As 3 temporadas de ‘The Marvelous Mrs Maisel’ estão disponíveis na Amazon Prime Video.

Onde você pode encontrar Larissa Galdino:

Instagram: @lari__galdino

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The Marvelous Mrs. Maisel

9.5

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