AODISSEIA
Séries

Crítica: The Last Man on Earth (4ª Temporada)

Mais perdida que sobrevivente no apocalipse...

15 de Maio de 2018 - 18:01 - Flávio Pizzol

The Last Man on Earth nunca foi uma série indiscutivelmente boa, mas, desde o princípio, me conquistou ela sua proposta fora do comum e sua execução ainda mais louca. Aquele primeiro episódio dirigido por Phil Lord e Chris Miller (sim, os mesmos que foram demitidos de Han Solo) continua sendo a síntese perfeita do que a série foi concebida para ser e deveria continuar sendo até o fim dos seus dias. O problema é que mais sobreviventes começaram a aparecer, a quantidade de subtramas cresceu exponencialmente e transformou as temporadas da pequena loucura criada por Will Forte (Fútil e Inútil) em uma complexo gráfico de altos e baixos. Gráfico este em que a quarta tempteorada não está tão bem posicionada quanto merecia.

Seguindo o final da temporada anterior, o quarto ano se inicia com o grupo fugindo para a o México graças a explosão iminente das bombas atômicas que preenchiam o território americano. Após completar essa primeira missão em no máximo uns três episódios, eles decidem morar em uma mansão na cidade de Zihuatanejo (cenário clássico do longa Um Sonho de Liberdade) até que as tramas comecem a desenvolver-se a partir da chegada de novas peças ao tabuleiro, escancarando sem demora o maior problema da série atualmente: o grupo principal parece estar desgastado o bastante para depender de muletas narrativas que façam a história andar.

Primeiro somos apresentados ao plot da fuga na lancha, depois acompanhamos a revelação em flashbacks do passado violento da casa onde eles estão morando, depois vem a tentativa de Todd de assumir a paternidade de Jasper, a fuga do garoto, o encontro inesperado com um canibal, o retorno de Mike Miller e, finalmente, o grupo precisa mudar de cidade mais uma vez nos últimos minutos da história. Se você ficou confuso, não se preocupe: o resultado disso é realmente uma mistura inconveniente de subtramas vazias, muletas narrativas desnecessárias e um ciclo vicioso que mantém The Last Man on Earth na estagnação total. Seria injusto ignorar que algumas dessas ideias até geram momentos incríveis, mas não posso negar que nenhuma delas consegue mais adicionar algo aos personagens que sustente a trama ou, pelo menos, os faça evoluir.

E o mesmo processo se repete em quase todas as áreas onde a série costumava acertar em cheio… O lado da comédia, por exemplo, continua acertando em cheio ao misturar o absurdo das situações propostas pelo cenário com o humor físico de Will Forte (as sobrancelhas raspadas estão de volta) e uma dose extra de piadas extremamente inteligentes, enquanto o elenco cheio de química, carisma e muito talento para o improviso se torna o responsável por arrancar risadas genuínas do espectador e manter o show em um nível, no mínimo, mediano. No entanto, repito mais uma vez que nem eles conseguem fazer milagre diante do desgaste de uma fórmula narrativa que já deveria ter sido renovada há muito tempo atrás. E a maior prova disso vem de carona com o retorno do já citado Mike Miller.

O personagem interpretado por Jason Sudeikis (Colossal) teve um arco sensacional na terceira temporada, acompanhando da sua solidão no espaço até uma despedida emocionante entre irmãos que se tornou meu episódio favorito da série, e não precisava voltar. A explicação da sua sobrevivência até funciona e a participação dele sempre adiciona um balanço muito bem-vindo de comédia e drama, no entanto é justamente por isso que ele não merecia tornar-se mais uma das muletas que os roteiristas acionam quando uma trama fica vazia. Por mais que a sua nova despedida tenha um momento bonitinho com o rabo de cavalo, é um desperdício ver The Last Man on Earth jogar no lixo um arco tão redondinho para manter o personagem em participações mais bobas.

Por sorte, o final da temporada é uma declaração de que a série tem conhecimento dos seus problemas atuais e está disposta a mudar. O próprio protagonista faz um discurso que, nas entrelinhas, representa exatamente o fim desse ciclo de repetições constantes de tramas, enquanto os últimos segundos cumprem seu papel de apontar para um futuro diferente e recheado por sobreviventes misteriosos. A entrada da quantidade de gente apontada no gancho pode ser o caminho para refrescar a fórmula da série, abrindo caminho para tempos melhores e mais criativos para The Last Man on Earth. Eu estou na torcida…


OBS 1: As participações especiais continuam sendo uma das melhores características da série. Os destaques desse ano ficam para a ótima participação de Kristen Wiig (Missão Madrinhas de Casamento), o arco de Fred Armisen (A Guerra dos Sexos) como o canibal e uma ponta mínima de Jack Black (Jumanji: Bem-Vindo à Selva).

OBS 2: “Nunca foi tão difícil se despedir de uma casa desde que o Hugh Laurie morreu”… Pegou a piada?

OBS 3: Esse texto foi escrito antes do infeliz cancelamento da série ser anunciado pela Fox. Agora tudo que podemos fazer é torcer para o canal fazer pelo menos uma temporada curta que amarre todas as pontas.