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Séries

The Handmaid’s Tale: pairando entre a inércia e a resistência

Texto escrito pela nossa leitora Larissa Galdino.


19 de agosto de 2019 - 01:32 - Tiago Soares

Mesmo com visual impecável, a insanidade de June e as polêmicas raciais fazem da 3ª temporada de The Handmaid’s Tale um conto difícil de engolir.

Com a temporada mais fraca da trama, “The Handmaid’s Tale” se despediu nesta quarta-feira (14), divergindo grande parte da audiência, que segue questionando a qualidade da série, pois já não é a mesma de outrora. Tendo como foco principal o início da resistência, a história baseada na obra de Margaret Atwood, começou nos entregando logo no início, três episódios que intercalavam entre os destinos de Emily (Alexis Bledel) e Nichole que escaparam de Gilead, e June (Elisabeth Moss), que auxiliou na fuga. Assim como em seus episódios introdutórios, o ritmo vagaroso da narrativa se manteve ao longo da temporada, sempre deixando uma pontinha de suspense e nos dando a falsa impressão de que o levante das Aias aconteceria a qualquer momento.

 

“A terceira temporada é sobre resistência. June resistindo e lutando.” – Bruce Miller (criador e showrunner)

 

Depois do horror vivido na casa dos Waterford’s, June agora é transferida para a casa do comandante Lawrence (Bradley Whitford), onde ganha uma certa autonomia para seguir com os planos de resgatar a filha Hannah (Jordana Blake), após perceber que Joseph e sua esposa Eleanor (Julie Dretzin), não são tão devotos aos costumes de Gilead. A Aia logo dá um jeito de ganhar a confiança das Marthas que residem no local, colocando em prática todo o seu poder de persuasão, principalmente quando se trata da instabilidade emocional de Eleanor, que sempre acaba servindo de argumento para dissuadir o líder da casa. Aos poucos, vemos June assumindo o controle da situação e consequentemente colocando outras mulheres na linha de frente da resistência.

Apesar da narrativa da protagonista continuar ofuscando outras tramas presentes na série, a temporada conseguiu evidenciar a união de algumas castas para executar um plano ainda maior, de natureza genuína – que iam muito além de interesses pessoais e nos mostravam o pouco da sororidade ali presente, por vezes esquecida. A força composta por mulheres com pouca ou nenhuma voz, se arriscando para dar uma chance as crianças de Gilead, sem dúvida foi um dos ápices da série.

 

Os dois lados de June

A dualidade no comportamento de June, apresentado nesta terceira fase, tem sido algo confuso e longe de ser positivo. A tentativa de construção de uma certa imprevisibilidade, tem mexido de maneira negativa na composição da personagem, que passa de empática a individualista, racional e insana sem muita cerimônia. Tal mudança faz com que a trama central seja a mais cansativa de ser assistida, enfraquecendo grande parte da história e fazendo com que qualquer desvio narrativo seja um alivio.

the handmaids tale

Além disso, a falta de grandes consequências para parte das atitudes impensáveis de June nessa temporada, foi notável. A protagonista tomava suas decisões quase sem cautela, talvez numa tentativa de evidenciar seu desespero para conseguir algum tipo de contato com a filha, mas não deixa de ser estranho que nenhuma medida punitiva tenha sido tomada.

 

Gilead sem cor?

Um dos maiores trunfos de The Handmaid’s Tale é a capacidade de reflexão que a série tem sobre seu público. Nesta temporada, tais questionamentos se voltaram contra a produção. O andamento mais arrastado do roteiro, abriu espaço para algumas dúvidas e uma delas foi a questão racial. Aias brancas e negras vivendo da mesma forma. Como Gilead, uma sociedade tão retrógrada, carregada de machismo, homofobia e intolerância, não seria racista?

No decorrer dos episódios desse novo ano, uma rápida pincelada foi dada para justificar o fato, sem nenhum aprofundamento – causando uma sensação de improviso mal executado, e a impressão de que a obra está perdendo a oportunidade de levantar mais um ponto de extrema importância. Talvez, se fosse tratada com um destaque maior, assim como foi no livro de Atwood, a série não contaria com tantos furos ao longo da temporada.

The Handmaid’s Tale vem oscilando entre o roteiro lento e a fotografia impecável. Apesar dos pesares, os três últimos episódios conseguiram entregar parte do que foi proposto, com alguns momentos de esplendor. A tão esperada prisão de Fred (Joseph Fiennes), as duras palavras de Moira (Samira Wiley) para Serena (Yvonne Strahovski) e o inesperado plano de fuga para retirar mais de 50 crianças de Gilead, tudo isso em meio a uma caçada de Anjos farejando as Aias e Marthas, além da incerteza de que tudo daria certo. Feitos que trouxeram ao público, um pouco da nostalgia da bem narrada primeira temporada.

Uma série que tem se tornado símbolo da luta feminista em meio ao caos político atual em tantas regiões, é de suma importância. Nossa expectativa para a próxima temporada não é apenas para com o destino de June e a chegada da revolução, mas também para um roteiro mais elaborado e não focado apenas em conter a audiência.


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Obs 1: A questão racial da 3ª temporada é abordada num baita texto do escritor e ativista negro Max S. Gordon. O texto está em inglês, mas vale a pena. Você pode ler clicando aqui.

Obs 2: A youtuber Carissa Vieira tocou bastante nesse assunto em vídeos recentes, confira um deles: