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Séries

The Handmaid’s Tale (3ª Temporada) – Primeiras Impressões

A fagulha de esperança em Gilead!


6 de junho de 2019 - 14:40 - Tiago Soares

Este texto contém spoilers das temporadas 1 e 2

O final da segunda temporada de “The Handmaid’s Tale”, deixou um gosto amargo na boca do espectador ao ser frustrado pela decisão de June (Elisabeth Moss) de não sair de Gilead. Muito se discutiu o sofrimento “sem sentido” daquelas mulheres, feito apenas para chocar e não sendo importante para a trama, como você pode conferir na nossa crítica do 2º ano. Tal escolha deixou uma das melhores séries dramáticas da atualidade de fora das principais disputas por prêmios, ela mesmo, que tinha sido unanimidade no primeiro ano. A esperança é que a nova temporada retorne ao caminho de outrora, ao mesmo tempo em que apresente uma luz no fim do túnel para aquelas mulheres e se depender dos três primeiros episódios liberados pelo Hulu, podemos acreditar que essa mudança pode acontecer.

A terceira temporada decide começar exatamente aonde a anterior parou com June retornando a casa dos Waterford, enquanto Emily (Alexis Bledel) tenta escapar com a filha de June, Nicole. Apesar de ser cercado de planos contemplativos, seguidos de uma trilha com um piano suave enquanto um personagem vai de um ponto A para o ponto B (a cena em que Serena tira a roupa parece durar uma eternidade), este primeiro capítulo intitulado “Night”, usa de momentos emocionantes e significativos. Há ocasiões de extremo afeto entre June e Serena (Yvonne Strahovski) e o envolvimento de outros esposas, também vítimas daquele sistema totalitário machista.

A simbólica e bonita cena final ao som de “I Don’t Like Mondays” do The Boomtown Rats não precisa de diálogos para traduzir o que as duas estão sentindo ao perder sua filha – sim – coloco June e Serena como mães de Nicole, já que apenas uma boa mãe deseja o melhor para seu filho e assim ela o fez. O roteiro de Bruce Miller (criador da série), nos tira do âmbito de espectador e nos coloco o episódio inteiro na perspectiva de June, alternando entre Serena e Emily com um foco maior na protagonista. A direção de Mike Barker mantém a essência ao aproximar a câmera de June nos já conhecidos planos detalhe e encerrar com “Good Day” do Nappy Roots nos créditos – contrasta perfeitamente com o episódio – uma linguagem da qual The Handmaid’s Tale já ficou conhecida.

Seu trabalho de direção decide ousar mais no segundo episódio “Mary and Martha”, onde June e Emily são o foco. Na Bíblia, Marta e Maria são irmãs, enquanto Maria era a benfeitora e ouvia atentamente Jesus, Marta era mais rebelde. Maria servia os convidados com prazer e não se importava tanto com os afazeres, porque Deus iria prover tudo – já Marta se preocupava com alimento necessário e se tudo estava as ordens. Razão x emoção, é assim que o roteiro de Kira Snyder age neste segundo episódio.

Enquanto June ajuda na revolução das Martas, Emily tenta recomeçar no Canadá, o que não está sendo nada fácil, afinal, são traumas que vão permanecer com ela por um bom tempo. Ser bem cuidada e questionada com frequência sobre seu estado não era algo muito visto em Gilead. Conhecemos a personagem e vimos todas as atrocidades cometidas contra ela –  retornar a normalidade é um choque e vai levar um tempo até que a benevolência canadense seja totalmente aceita.

A série também expande seu universo, ao mencionar que Chicago foi tomada por Gilead, o que resulta em mais gente, mais mulheres sendo subjugadas e porventura mais sofrimento. Entramos em lugares ainda desconhecidos para as Aias (mas não para as Marthas) com ambientes recheados de suspense, que trazem qualidade estética a série, com planos sequência, sobreposições e transições que possuem um valor absurdo.

O terceiro episódio destaca a relação de June com o Comandante Lawrence (Bradley Whitford) e sua esposa Eleanor (Julie Dretzin) e é interessante perceber que ainda não se sabe o propósito real dos dois. Escondidos em meio a esta sociedade distópica patriarcal, ambos não deixam claro suas motivações o que é ótimo para a série, pois dá margem para muitos questionamentos e possíveis traições.  Neste episódio dirigido por Amma Asante e escrito por Yahlin Chang somos apresentados aos ideais do “outro lado”, o lado dos Comandantes. Na figura de Lawrence conhecemos como as pessoas são selecionadas, o porquê dele ter salvado Emily e se o cenário atual seria diferente, mesmo com outro regime no poder. Afinal, o que você faria se tivesse o poder de reeducar e reorganizar uma nação?