AODISSEIA
Séries

Crítica: The Flash (4ª Temporada)

Tentando, sem muito sucesso, correr atrás do prejuízo

30 de Maio de 2018 - 00:30 - Flávio Pizzol
[Aviso: Os spoilers passaram correndo por aqui, mas podem ter deixado algum vestígio. Cuidado!]

The Flash nunca foi a produção mais regular do universo televisivo da DC Comics, mas também nunca tinha chegado ao fundo do poço até sua terceira – e péssima – temporada. Diante desse contexto, a quarta temporada tinha a dura missão de se reinventar, trazer de volta o clima mais leve que tinha garantido o sucesso inicial do projeto e, principalmente, manter essa qualidade durante os longos 23 episódios que compõe uma série da CW. Um verdadeiro tour de force de alta velocidade que, mesmo não sendo cumprido à risca, tentou lançar alguma luz no fim do túnel que ainda prende o velocista escarlate.

E a história que prometia acompanhar o retorno do herói de sua “prisão” na Força da Aceleração em contraste com a inserção do Pensador, um vilão cujo o modus operandi é planejar os mínimos detalhes antecipadamente começou muito bem. O humor simples e bem posicionado estava de volta, as referências à cultura pop funcionavam, os dramas foram resolvidos com agilidade e a introdução inédita deste inimigo que não possui supervelocidade parecia uma sacada promissora. É uma pena que os acertos não tenham durado tanto tempo ou, ao menos, começaram a ficar perdidos no meio de uma piscina funda de problemas que podem ser considerados inclusive consequências da temporada anterior.

Em outras palavras, The Flash prova que, mesmo ganhando impulso em bons acertos, não tem velocidade suficiente para escapar de uma série de roteiros fracos, preguiçosos e perdidos em suas próprias ambições. Entre as maiores provas disso, na minha opinião, estão a forma como as tramas são esticadas (sem piada com o novo herói do grupo) até começarem a encher o saco do espectador, enquanto uma série de repetições tiram o impacto de qualquer reviravolta ou grande cena planejada pela série. Você ver, por exemplo, os heróis prometendo que vão acabar com o vilão em todo final de episódio só para falhar três minutos depois tira todo o efeito da promessa e instaura uma sensação de tédio em um público que já assiste a conclusão de forma desinteressada.

O mesmo precisa ser dito – e repetido insistentemente – sobre a decisão dos roteiristas de criar um Team Flash que não aprende com seus próprios erros. Isso significa que a série tem um grupo de protagonistas que ignoraram seu alto QI e/ou não evolui entre episódios ou temporadas. E o fato dessas decisões serem claramente idiotas abre espaço para muitas conveniências de roteiro (armas que brotam do nada, superpoderes que evoluem de acordo com a necessidade do episódio, cientistas que revelam habilidades ninjas, etc…) e prejudica ainda mais a moral dessas pessoas perante o público. Um exemplo perfeito disso está em Harrison Wells decidir usar o capacete do jeito errado, apesar de saber todos os riscos. É um cientista genial que o texto transforma, por pura necessidade de criar mais uma subtrama, em um ser completamente estúpido.

Essa repetição estúpida não fica restrita ao grupo e, por motivos lógicos, também nos obriga a falar de alguns personagens individualmente. E não existe nada melhor do que detonar um protagonista que, além de querer carregar o mundo nas costas, insiste nos mesmos erros (mesmo problema do todo) e se contradiz a cada discurso motivacional. Eu sei que algumas dessas características estão impressas no cerne dos heróis tradicionais, mas Barry Allen extrapola as regras e, caso a vida de sua amada esteja em risco no lugar de qualquer outra pessoa, simplesmente ignora preceitos básicos como não matar. Ele é tão hipócrita e complexo pelos motivos errados que prejudica até mesmo a boa atuação de Grant Gustin (Glee).

Outros personagens que devem estar cansaços de serem colocados em segundo plano pela produção são Cisco e Caitlin. Ele deu sinais de que ia sair da estagnação atrás de uma subtrama romântica, mas seu par apareceu de vez ou nunca e a decisão final foi simplesmente jogar tudo no lixo sem aviso prévio. Essa foi a prova definitiva de que o roteiro não sabe o que fazer com Carlos Valdes além de usá-lo para abrir portais e criar alívios cômicos, mas ainda não conseguiu superar o drama que ótima Danielle Panabaker (Sky High – Super Escola de Heróis) enfrenta por ser uma personagem feminina em The Flash. Nesse caso, depois de três temporadas dividida entre ciência, romance e uma participação ínfima como Nevasca, a atriz viu o momento de maior potencial da de Caitlin Snow ser apagado em prol de uma reviravolta que, pra piorar, caminha na contramão da mitologia que o próprio universo havia estabelecido…

E, pra comprovar que essa constatação não saiu do nada, observe como Cecile Horton (Danielle Nicolet) saiu de promotora importante para mãe/deus ex machina assim que iniciou o para romântico com o cada vez mais coadjuvante Joe West (Jesse L. Martin). Até mesmo Iris (Candice Patton), que encontrou um status mais estável e menos dramático após o casamento com Barry, continua sendo chamada de líder para, no segundo seguinte, virar um mero trampolim para o avanço de histórias aleatórias. A única mulher que conseguiu, depois de muito ser escondida, superar as deficiências narrativas para brilhar foi Kim Engelbrecht (Decisão de Risco), já que a “mecânica” acabou se transformando no elo mais forte e multidimensional da dupla de vilões completada por Neil Sandilands (The Americans).

Para a sorte da própria série, a adição de Ralph Dibny (aka Homem-Alongado na tradução direta) foi um acerto razoável graças ao seu humor ágil e a curva de evolução do seu arco. Mesmo assim, esse grupo de roteiristas de The Flash – que parece ser fã da “autossabotagem” – ficou procurando maneiras de destruir o personagem ao explorar o mínimo do seu background dramático e criar milhares de versões bagunçadas e incoerentes do mesmo. Seu interprete, Hartley Sawyer (Miss 2059), ganha pontos pela versatilidade da atuação, mas o personagem, que tinha tudo pra ser uma das almas da temporada, encerra seu ciclo bastante enfraquecido por ser quase esquizofrênico.

Ele é só mais um exemplo dessa espécie de preguiça que The Flash de ir além da ideia para criar, acima de tudo, uma história organizada. São sintomas que se espalham por todas as subtramas e consomem a série sem pestanejar, enquanto todo o resto tenta melhorar constantemente. Entretanto, não adianta o visual melhorar e os diretores aprenderem a usar os efeitos visuais com parcimônia, se os roteiros não colaborarem por nenhum segundo. Não adianta o vilão não ter supervelocidade ou uma máscara que esconda sua identidade, se o texto encontra uma forma de trocar seu rosto a cada dois episódios. Não adianta colecionar mais pontos positivos que a temporada anterior quando o final simplório reduz um vilão superinteligente em um banana completo que foi derrotado pela ausência de sentimentos. É uma pobreza narrativa que, mesmo entre bons acertos, faz The Flash continuar correndo em uma esteira que nunca sai do lugar. Infelizmente…


OBS 1: A pouca credibilidade da série vai pro saco de vez quando Marlize fala com certa uma tensão que precisa reverter o último comando para salvar o mundo e… simplesmente aperta um botão. Vocês conseguem entender o nível da preguiça desse roteiro ou eu sou o problema?

OBS 2: Eu tenho pra mim que uma soluções que pode salvar The Flash é dividir a temporada em arcos, assim como Agents of S.H.I.E.L.D. tem feito nos últimos anos. Isso aumentaria o foco em histórias menores e, ao menos, evitaria a repetição de subtramas desnecessárias.

OBS 3: Eu sei que mexer com viagem no tempo vai dar bosta mais uma vez, porém gosto do gancho deixado no final da temporada…