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Séries

Crítica: The Deuce, o pornô em forma de arte

Segundo ano da série mais injustiçada da HBO caminha entre a genialidade e a paciência.

14 de dezembro de 2018 - 11:28 - Tiago Soares

A principal diferença entre as duas temporadas de The Deuce é a passagem de tempo de 5 anos, nos levando até 1977. Se no ano passado, David Simon e George Pelecanos davam sinais de genialidade, aqui eles consolidam o lado mais sujo da cidade de Nova York, cidade essa que antes era motivo de escárnio, agora se torna motivo de orgulho. Em 1977 as ruas pulsavam com seus bares, boates, prostíbulos e uma grande ascensão do cinema pornô.

É isto o que nos espera nessa temporada. Vincent Martino (James Franco) e seu toque de midas, se torna dona de uma dessas boates, enquanto deixa o bar com Abby (Margarita Levieva) e as “casas de massagem” com seu cunhado Bobby (Chris Bauer), todos comandados pela máfia liderada por Rudy Pipilo (Michael Rispoli). O inconsequente Frankie (James Franco) continua dando seus pulos, agora se aventurando no cinema pornô ao lado de Eileen, antes Candy (Maggie Gyllenhaal). Sair da condição de prostituta e atriz para diretora não é uma tarefa simples, principalmente no mundo machista do cinema pornô. Felizmente, Candy usa do seu papo e carisma, ao mesmo tempo em que não nega o passado, e podemos dizer que Maggie foi a verdadeira dona desta temporada.

Aliás, assuntos bem sérios permeiam a narrativa de The Deuce. O machismo, os relacionamentos abusivos, o racismo, a corrupção, tudo isso ganha destaque e um núcleo para chamar de seu. Os cafetões, liderados pela figura de C.C. (Gary Carr) se mostram cada dia mais ultrapassados, e vêem na arte da pornografia uma forma de escape, como é o caso de Larry Brown (Gbenga Akinnagbe) e das meninas Lori Madison (Emily Meade) e Bernice (Andrea-Rachel Parker). O lado da lei segue incorruptível na figura de Chris (Lawrence Gilliard Jr.) e apesar de seus desdobramentos não serem tão interessantes como antes, sua índole permanece intacta, além de se adaptar a todo o sistema nada confiável que o envolve.

Sintetizando a crua Nova York, Simon e Pelecanos mantém a tensão e a crueldade em suas cenas mais violentas e a direção de arte (figurinos, maquiagem e afins), fazem um trabalho primoroso de transposição. Estamos na Nova York dos anos 70 e isso é lindo. A série passeia por vários assuntos, mas o filme pornô de arte dirigido por Candy é o que liga todos os personagens. Red Hot é um paródia pornô de Chapeuzinho Vermelho e promete mudar completamente a vida de todos os envolvidos.

O mercado cresce, a vida das atrizes que antes eram prostitutas muda, o consumo daqueles que iam em prostíbulos também muda com a chegada do home video, o público LGBT começa a ganhar notoriedade na figura de Paul (Chris Coy), e assim The Deuce segue para sua temporada final, disposta a ser maior e mais valorizada do que é tanto pelo público como pelas premiações. Uma qualidade técnica impecável e personagens verossímeis tornam este show um dos melhores dos últimos tempos.


Obs: Candys da vida real, que fazem cinema pornô de arte e feminista existem, e a pioneira e mais famosa delas é Erika Lust. Pesquisem e vejam seus filmes, garanto que não irão se arrepender.