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Séries

The Boys – No mundo atual, não existem mais heróis…

Nova série da Amazon Prime Video subverte os super heróis de maneira convinvente.


31 de julho de 2019 - 17:24 - Tiago Soares

Super-heróis estão em alta e isso não é uma novidade. Fãs ávidos, a cada dia compram mais revistas, bonecos, e discutem em fóruns da internet sobre qual herói é melhor, sobre qual empresa (Marvel ou DC) tem os melhores lançamentos e por aí vai. É algo que já virou parte de nós, e atravessou as barreiras da cultura pop. Lá nos anos 90, quando nem se imaginava tamanha magnitude, Garth Ennis e Darick Robertson criaram “The Boys”, HQ que imagina como seria o mundo, se os heróis fossem tratados como celebridades, políticos e praticamente deuses acima do bem e do mal. É claro que há raras exceções, mas com tanto poder nas mãos, é fácil se corromper e a obra de Erik Kripke (“Supernatural”) em parceria com Seth Rogen e Evan Goldberg (“Preacher”) faz algumas mudanças em relação a história original, mas nada que afete a trama num todo, conseguindo passar sua mensagem de forma atualizada.

Nela, Billy Butcher (Karl Urban, com sotaque e inspiradíssimo), convoca Hughie Campbell (Jack Quaid), depois dele ter visto sua namorada ser morta por um super, que passava em alta velocidade e a desintegrou totalmente (a cena inclusive é forte). Revoltado com o sistema que trata a morte de civis como meros efeitos colaterais, Hughie não quer deixar barato e se junta a Billy, que também tem uma passado com esses seres. Ambos escalam Frenchie (Tomer Capon) um especialista em praticamente tudo, e que fazia parte da equipe anterior, além de Mother’s Milk (Laz Alonso), antigo parceiro de Billy que serve como uma espécie de bússola moral do grupo. Posteriormente eles encontram Kimiko (Karen Fukuhara), uma jovem misteriosa que tem um grande apreço por sangue derramado, formado assim o intitulado, The Boys.

Sua missão é parar com os privilégios e expor o maior grupo de heróis desse mundo, o “The Seven”, formado por membros claramente inspirados na Liga da Justiça. Homelander (Antony Starr), seria o Superman, altruísta e protetor dos mais fracos, que usa a bandeira da nação como uniforme, Queen Maeve (Dominique McElligott), seria a Mulher Maravilha, mulher guerreira e cheia de atitude, The Deep (Chace Crawford), seria Aquaman, herói aquático, muito vezes motivo de piada do grupo, A-Train (Jessie T. Usher) o Flash, devido a super velocidade e o bom humor, Black Noir (Nathan Mitchell) apesar de pouco explorado na temporada, tem o mistério do Batman, enquanto Translúcido (Alex Hassell) seria uma mistura entre Ciborgue e Caçador de Marte. Entretanto, todos sendo uma visão distorcida desses heróis, que se mostram para o mundo de uma forma, mas tem atitudes completamente diferentes fora dos holofotes.

Em paralelo, acontece o arco de Annie (Erin Moriarty), a Star-Light, menina sonhadora do interior que entra para “os Sete”, com o intuito de ajudar as pessoas e ser reconhecida por isso. É claro que ela vai encontrar um ambiente lotado de machismo, sexismo, diferenças salariais e de comportamento entre homens e mulheres, além da sexualização de seu corpo, com uma mudança “obrigada” de uniforme. As histórias caminham num ritmo lento mas bastante intenso, que dosa perfeitamente a ação desenfreada e os efeitos competentes para uma série de TV +18. Com o texto cercado de ironia e piadas pontuais, que sobram até para o Lanterna Verde (já que sua contraparte se aposenta para a entrada de Annie), tudo é comandado pela empresa chamada Voight, tendo a destemida Madelyn (Elisabeth Shue) por trás.

the boys

The Boys é pessimista e não se preocupa em glamourizar a figura do herói e nem de seus fãs. A piada são eles e muitas vezes nós, os nerds loucos por mais um lançamento vindo da Casa das Ideias ou de seus concorrentes. Existe uma crítica ao pensamento consumista que afeta inúmeros ambientes, desde o político ao religioso, e também social. A série analisa o pensamento conservador e hipócrita, fazendo um retrato dos dias atuais. onde a intolerância, a construção da imagem por aparências e a boa reputação, valem mas do que ajudar a quem precisa.


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O real objetivo do grupo de “heróis”, já fica evidente no ótimo piloto dirigido por Dan Trachtenberg (“Rua Cloverfiled 10”), que é fazer com que os heróis da Voight entrem no exército, ganhando popularidade e facilitando a aniquilação de pessoas de outros países. Sendo assim, tais assassinatos seriam apenas tratados apenas como crimes de guerra, dando margem para criação de uma raça superior e um discurso de soberania nacionalista privilegiada, esse discurso lembra alguém?

Já renovada para o seu segundo ano (o que seria inadmissível que não acontecesse depois daquele final), a série da Amazon Prime Video possui identidade e vai na contramão, ao subverter a narrativa heroica onde não existem mocinhos e vilões, desconstruindo conceitos antes admirados por nossa geração, mas que aos poucos vão se tornando cada vez mais retrógrados. O mundo é cinza meus amigos, acostumem-se.