AODISSEIA
Séries

Crítica: The Alienist (1ª Temporada)

Um suspense cheio de potencial e desorganização

10 de abril de 2018 - 18:59 - Flávio Pizzol

Entre a psicopatia e os sonhos, a mente humana é repleta de mistérios que a cultura pop adora investigar da sua própria maneira. São inúmeros os livros, filmes, desenhos e séries que flertaram com essa temática, incluindo grandes sucessos de público e crítica como Dexter, Hannibal, Ilha do Medo, A Origem, Divertida Mente e Mindhunter. Depois dessa última ganhar nossos corações através da Netflix, chegou a hora da TNT se arriscar nesse “subgênero” com The Alienist.

Baseada no primeiro livro da trilogia escrita por Caleb Carr, a série acompanha Laszlo Kreizler, um “alienista” brilhante e obcecado em uma época em que o tratamento de patologias mentais era uma novidade controversa. Quando um novo tipo de assassino ritualista começa a matar meninos de maneira brutal, o médico reúne uma equipe de especialistas improváveis para liderar as investigações, lidando com os segredos sombrios de Nova York e virando o mundo da elite mais poderosa do mundo de cabeça pra baixo.

A inclusão desse contexto social e político na trama transforma a cidade em um personagem decisivo e se torna um dos aspectos mais positivos de The Alienist. Mesmo gravando todos os episódios em Budapeste, a equipe de produtores e diretores – que inclui nomes reconhecidos como Paco Cabezas (Penny Dreadful), James Hawes (Black Mirror), Jakob Verbruggen (House os Cards), Eric Roth (Forrest Gump: O Contador de Histórias) e Cary Fukunaga (diretor de todos os episódios da primeira temporada de True Detective) – não poupou esforços para reconstruir a Nova York do século XIX com visceralidade e muitos detalhes. Essa recriação visual que inclui a violência exagerada, os planos abertos, os figurinos e os cenários tiram o fôlego do espectador, mas o próprio roteiro possui seus melhores momentos quando usa a sociedade da época (a corrupção na polícia é uma pérola) para fazer críticas atuais.

Outro ponto positivo está, obviamente no surpreendente elenco estrelar que comanda o espetáculo. Daniel Brühl (Capitão América: Guerra Civil) constrói um protagonista cheio de peculiaridades e camadas, Luke Evans (A Bela e a Fera) encarna a dúvida de um homem preso entre a violência, o amor e o álcool e Dakota Fanning (Pastoral Americana) surge mais bela e empoderada do que nunca como a primeira mulher a trabalhar na polícia americana. Mesmo sem ter o melhor do textos em mãos, eles brilham no centro dessa trama que ainda concede os holofotes para Brian Geraghty (O Voo), David Wilmot (Ripper Street) e Ted Levine (The Bridge).

No entanto, assim como acontece na maior parte das obras audiovisuais, nenhuma dessas peças consegue encontrar sua plenitude quando uma das engrenagens – nesse caso, o roteiro – passa a maior parte do tempo fora do lugar. O fato é que The Alienist tem um problema de organização narrativa que desordena e poluí seus 10 episódios. O texto foge do caminho proposto para adicionar personagens novos, brincar com pistas falsas (uma delas te prende por cinco episódios para ser simplesmente descartada sem justificativa) e plots desnecessários que surgem do nada. Essas decisões afasta exageradamente a série da investigação sobre a mente humana e da caçada pelo serial killer: às vezes dá certo como no caso da corrupção na polícia, mas também pode ser um tiro no pé quando se decide incluir, de última hora, um luto na vida do protagonista.

Ainda assim, a pior parte é ver a série perdendo tempo com essas escolhas e se tornando mais exaustiva a cada episódio para entregar um final apenas mediano. Mesmo que os últimos segundos reservem uma reviravolta interessante, o desenvolvimento do verdadeiro assassino é pobre, a amarração as pontas é fraca e as conclusões escolhidas são bastante questionáveis. Um desperdício de tempo, potencial e oportunidade que poderia ser revolvido, entre outras coisas, com a redução do número de episódios. Claro que isso não resolveria todos os problemas de The Alienist, mas já entregaria um produto ser mais enxuto que escolhesse melhor aquilo que deveria ficar em foco, oferecesse material de primeira para seu belíssimo elenco e, acima de tudo, chegasse onde precisava.


OBS 1: Todos os episódios de The Alienist estarão disponíveis na Netflix no dia 19 de abril.