Crítica | Tempo usa ponteiros para refletir sobre calendários

Tempo Shyamalan
Foto: Reprodução

M. Night Shyamalan é um dos artistas mais singulares do cinema atual. Desde seus grandes sucessos entre o final dos anos 90 e começo dos anos 2000 até seus trabalhos menos badalados seguintes, o diretor não só desenvolveu e aprimorou sua visão única como também dividiu o público em polos, há quem o ame com toda força e quem o odeie com ainda mais intensidade. Em Tempo, seu novo lançamento, ele volta a aspectos que marcaram duas de suas obras mais odiadas e caçoa do seu hater padrão ao reafirmar sua genialidade no tratamento entre realidade e ficção.

O filme narra a última viagem de férias de Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps) com seus filhos antes de revelarem seu divórcio. Logo na primeira manhã no luxuoso resort achado pela mulher, o grupo recebe um convite para visitar a praia privada do complexo em um passeio oferecido apenas para um seleto número de hóspedes. Na companhia de outras duas famílias e do enigmático rapper Mid-Sized Sedan (Aaron Pierre), a passagem do tempo acelera, relações são traçadas e a vida de todos é posta em risco.

Tempo Shyamalan
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A partir da premissa de algo desconhecido e natural acontecer, o filme lembra muito um dos trabalhos mais criticados do diretor: Fim dos Tempos (2008), quando um fenômeno estranho assola os Estados Unidos deixando a população insana e suicida. O medo que se apossa do ser a partir do natural rege os dois filmes, eventos a priori sem explicação mas que criam terror e suspense pela antecipação e pelo simples receio de se tornar a ameaça. Em Tempo isso é elevado a uma escala ainda mais fantástica quando o simples decorrer da vida se torna um fantasma e rege o terror do amanhã que, ao ser condensado em algumas horas, pulsa muito mais forte na psique humana.

Se em seu comparativo essa ameaça remete muito à paranoia terrorista norte-americana, aqui o filme se preocupa com algo que, em uma certa escala, é muito mais simples: o medo da morte. A insignificância humana ante a irrefugável passagem do tempo revela uma repulsa muito mais forte do que qualquer monstro ou ser poderia trazer.

Em um outro paralelo à carreira do diretor, é possível notar muitas similaridades ao desfecho da saga iniciada em Corpo Fechado (2000), o último filme da trilogia, Vidro (2019). No eterno embate entre realidade e ficção, racionalidade e sentimento, Shyamalan explica logicamente o místico de seu filme só para, no contragolpe do espectador, triunfar com a força de suas personagens. Seja em 2019 com a inteligência de Elijah ou em 2021 com a jovialidade enervante das crianças envelhecidas pela praia, ele faz questão de pontuar que não há razão que se sobreponha à fé ou à emoção.

É interessante ver como ele consegue voltar nessas noções tão sensíveis, no que tange às interpretações do real dentro da película, sem deixar de lado seu apreço pela temática e universo que cria para cada um de seus filmes. Tal paixão pelo ofício, e sua visão dele, é o que o destaca da máquina cinematográfica que, cada vez mais, perde o senso de personalidade.

Tempo Shyamalan
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Como se não bastasse desenvolver uma narrativa única dentro de uma gama tão ampla de temas, Tempo ainda acha espaço para, talvez até mesmo de forma inocente, nadar na contramão de uma tendência blockbuster atual. No cinema de Christopher Nolan e Dennis Villeneuve por exemplo, não é incomum ter um momento em que as personagens destrincham a trama para trazer o espectador para o centro da narrativa, facilitar a resolução do herói e até mesmo “fazer sentido”, todavia, isso simplesmente não poderia ocorrer de uma forma tão banal em um filme de M. Night.

Ao longo dos 118 minutos de rodagem o filme constantemente insere alguma forma de explicação para o que está acontecendo. Tais explicações ficam mais assertivas conforme o tempo passa, mas não levam a nada e são suplantadas pela velocidade aterradora que as células envelhecem. Enquanto os adultos se debruçam vorazmente e até desvendam o problema, é o elo infantil que, ao ecoar na maturidade, resgata os irmãos em apuros e, em mais uma prova da dualidade razão/emoção, é pelo bilhete escrito de uma criança para outra que vem a salvação.

Marcando mais um significado, é como se o ensinamento infantil só chegasse a sua completude através do envelhecimento.

Tempo Shyamalan
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Depois de trazer alienígenas para explorar o drama mais humano possível, quebrantar a invulnerabilidade com um plano bem executado e muitas outras dicotomias, Shyamalan parte para a escalada e usa o ponteiro do relógio para destrinchar os muitos calendários de uma vida. Ele acha espaço para ser gráfico e amedrontador sem deixar de lado seu idealismo romântico e é frustrante ver uma manada ignorante exigir que sua ficção tape as lacunas que a realidade deixa.

Em suma, Tempo é uma obra tão incrível quanto o resto da filmografia de seu diretor. Um longa temível e simples que com um uso irretocável da linguagem cinematográfica, uma visão inigualável e uma mente lotada de ideias se debruça pelo decorrer da vida e reflete sobre a desvalorização dos anos, momentos e do tempo que não vemos passar.


TEMPO está CARTAZ NOS CINEMAS DE TODO O BRASIL.

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