AODISSEIA
Séries

Crítica: Supernatural (13ª Temporada)

Anjos, demônios e caçadores aprontando muitas confusões em realidades paralelas

31 de Maio de 2018 - 17:30 - Flávio Pizzol
[Aviso: Os spoilers de Supernatural estão atravessando portais… Cuidado!]

Eu provavelmente já disse isso eu alguma crítica, mas vou repetir mesmo assim: Supernatural jamais será a melhor série da minha watchlist, porém é a que está guardada no coração há mais tempo. Ela foi a minha primeira maratona – um pouquinho depois do sucesso no SBT – e, independente da qualidade, eu sei que só vou abandonar o programa quando o series finale for anunciado, exibido e me deixar chorando, em posição fetal, no sofá de casa. E exatamente por ser fã que eu tenho a obrigação de dizer que essa temporada terminou um tiquinho abaixo do que, pelo menos, os dois últimos anos.

Começando do exato ponto onde a temporada anterior havia acabado, o 13º ano da saga de Sam e Dean Winchester começa focado em dois problemas inéditos: o nascimento de um nefilim (o fruto do relacionamento de um arcanjo com um ser humano) e o surgimento de um portal para uma realidade paralela ligado ao poder dessa criatura desconhecida. A partir daí, os irmãos precisam lidar com a “educação” de Jack, o surgimento de um novo Príncipe do Inferno, o retorno de personagens dados como mortos e mais uma porrada de coisas. Tudo isso sem contar com as aventuras de Mary Winchester e Lúcifer em uma Terra pós-apocalíptica dominada por Miguel.

Achou muita coisa pra uma temporada só? Se a resposta for sim, você não achou errado. O grande problema desse último ano de Supernatural tentar mergulhar em regiões verdadeiras desconhecidas sem preparação, foco e, principalmente, objetividade. Entre Jack, Lucifer, Castiel, Mary, Rowena, Michael, céu, príncipes do inferno e ceifadores, foram muitas subtramas que, assim como a curta relação de Castiel com o Vazio, terminaram sem nenhuma importância no contexto geral. Mesmo ganhando pontos ela tentativa de encontrar algo inexplorado depois de tantos anos de produção, o resultado foi um desenrolar narrativo confuso e embolado que só piorava quando decidia gastar muito tempo de tela com realidades alternativas – uma escolha que, junto com a viagem no tempo, sempre complica a vida dos roteiristas.

A consequência direta dessa bagunça foi a ausência de desenvolvimento dos personagens novos, transformando os dois “grandes” vilões da temporada (Asmodeus e Michael) em peças unidimensionais e Jack, o nefilim, em um mero coadjuvante de luxo que merecia mais destaque para contrastar a pureza e a ingenuidade inerentes ao um ser recém-nascido com seus grandes poderes. Seus desaparecimentos repentinos – e retornos ainda menos planejados – prejudicaram esse crescimento pessoal de Jack, a credibilidade da sua ligação com Sam e a construção de uma conexão melhor entre público e personagem. O final deixou isso claro, enquanto comprova que os roteiristas também esqueceram de dar algum material de trabalho para participações mais recorrentes, como Mary e até mesmo Castiel. Juro que não entendo porque eles foram completamente descartados da batalha final com Lúcifer depois de sofrer tanto nas mãos deste…

A direção também ajudou nesse possível “confusão” quando decidiu pesar a mão nos efeitos digitais de alguns monstros (isso não costuma dar certo em séries com orçamentos medianos), escorregou no estabelecimento de certa coerência entre os episódios e, acima de tudo, se complicou na hora de escolher as paletas de cores que iriam representar os tais mundos alternativos. O problema pode ser eu, mas a super estilização não me conquistou e, pra piorar, só mostrou ter alguma função visual na sequência visceral que resultou na morte – temporária – de Sam. Um momento que ficou gore sem precisar apelar graças a saturação do ambiente.

Apesar desses alguns trancos e barrancos que acompanham um cansaço comum em produções tão longas, Supernatural ainda possui três grandes qualidades que salvam a décima-terceira temporada do desastre. A primeira delas é, na minha humilde opinião, a criatividade que leva a séries para caminhos inesperados tanto na trama principal quanto nos episódios soltos. E dentro disso vale destacar que, mesmo em uma temporada mais sombria e carregada, a série sabe a hora de não se levar a sério e pirar nas possibilidades abertas por um universo onde o sobrenatural existe. Destaque para o mercado negro dos monstros, a trama do homem mais abençoado e o já clássico ScoobyNatural.

O segundo trunfo está na maneira como a temática familiar está sempre no centro de qualquer trama da série, seja através de Mary, de Castiel (que já se tornou um membro fixo da família), da construção de Jack como uma espécie de irmão mais novo/filho, ou até mesmo nos coadjuvantes. Observe como a relação de irmãos entre Lúcifer, Michael e Gabriel é decisiva no último episódio ao lado da “disputa” pela paternidade de Jack e da clássica relação entre o irmãos Winchester que move a série desde sempre.

Inclusive, eles continuam sendo a alma da série em qualquer tempo ou realidade paralela. Jared Padalecki (Gilmore Girls: Um Ano para Recordar) mantém em dia seu papel de irmão certinho que casa muito bem com o lado paterno em relação ao nefilim, porém os holofotes sempre caem em um Jensen Ackles (Batman Contra o Capuz Vermelho) que transita entre a comédia e drama com uma habilidade que adiciona muitas camadas a Dean. Ao lado da dupla, Alexander Calvert (Arrow) se revelou uma adição muito bem-vinda à família e acabou formando uma trinca de coadjuvantes poderosa com os “quase angelicais” Mark Pellegrino (13 Reasons Why) e Richard Speight Jr. (Justified). E, além deles, é impossível falar de Supernatural sem lembrar das participações insossas, porém clássicas de Misha Collins (Timeless), Samantha Smith (Rizzoli & Isles) e Jim Beaver (Breaking Bad) como Castiel, Mary e Bobby.

E, por fim, também tenho que admitir que Supernatural sabe como fazer finais de temporada. A maior parte dos episódios desse foi maçante e desorganizada, mas os roteiristas ainda conseguiram escolher aquelas tramas que mereciam mais atenção (antes tarde do que nunca) e amarrá-las em três episódios finais muito bons. Três horas temperadas com tudo que a série tem de melhor: morte de personagens importantes, sacrifícios em prol de quem se ama, possessão e boas surpresas. O último foi um pouco mais  forçado e previsível, mas trouxe uma reviravolta que pode até melhorar a temporada caso a série tenha coragem de manter o Dean como Miguel por mais de três episódios do próximo ano. Mas como isso ainda vai demorar um bocado pra ser revelado, vamos dizer que, por agora, a 13ª temporada de Supernatural foi confusa, desorganizada e inferior ao que vinha sendo feito até reencontrar suas características primordiais e garantir um gancho que vai mexer com os fãs pelos próximos meses…


OBS 1: Lúcifer comparando sua árvore genealógica com os Tudors, os Trump e os Jackson Five foi, sem dúvida, um ponto alto da temporada…

OBS 2: Considerando que Sam e o Cass  são sempre os responsáveis por assumirem novas personalidades, esse final deve abrir um mundo novo para o Dean. O próprio ator falou isso e, agora, eu sou obrigado a concordar. Inclusive, acho que esse plot pode encontrar uma boa conexão com o diálogo sobre a aposentadoria que levaria ao fim definitivo do show.

OBS 3: Espero que Lúcifer tenha morrido de vez. Ele já estava fazendo hora extra na série e, depois de Crowley, se livrar de uma participação tão carismática seria uma ótima demonstração de coragem da série.