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Séries

Crítica: Supermax – Sem Spoilers


27 de setembro de 2016 - 15:00 - Tiago Soares

Os primeiros passos do terror na TV aberta


244446-jpg-r_640_600-b_1_d6d6d6-f_jpg-q_x-xxyxxCriada por José Alvarenga Jr. (Os Normais), Marçal Aquino (O Cheiro do Ralo) e Fernando Bonassi (Carandiru), Supermax prometia mudar a história da TV aberta, trazendo terror, suspense e muito gore as telas da Globo, uma emissora antes conservadora, tratou de ser a pioneira de tal feito. A novidade já começa em chamar 8 roteiristas para trabalhar nos 12 capítulos da série, 16 mãos ávidas por trazer referências e alguns elementos cinematográficos, sendo que alguns nunca tinham trabalhado na TV ou sequer roteirizado algo.

Marçal AquinoFernando BonassiCarolina Kotscho (A Teia), Braulio Mantovani (Tropa de Elite 2), Dennison Ramalho (O Fim da Picada), Juliana Rojas (Sinfonia da Necrópole), Raphael Draccon (Dragões de Éter) e Raphael Montes (Dias Perfeitos) foram responsáveis por trazer a história de 12 personagens, que precisam ficar confinados em uma prisão de segurança máxima durante três meses em busca do prêmio de 2 milhões de reais.

A Globo apostou em um marketing todo baseado em um novo BBB, o que acabou causando uma certa dúvida entre alguns espectadores que se perguntavam se era uma obra de ficção ou não, inclusive os assinantes do Globo Play, por onde os 11 primeiros episódios já estão disponíveis, facilitando a maratona e lançando a série no formato Netflix, o que se mostra um acerto incrível, já que a Globo ganhou assinantes, algo não muito bom para quem só acompanha na TV Aberta, pois de cara, os primeiros episódios não vão prender você.

Confinados em Supermax estão a enfermeira Bruna (Mariana Ximenes), a psicóloga Sabrina (Cléo Pires), o capitão de polícia Sergio (Erom Cordeiro), o ex-lutador de MMA Luisão (Bruno Belarmino), o padre Nando (Nicolas Trevijano), o economista José (Ademir Emboava), a cabeleireira Janette (Maria Clara Spinelli), o ex-jogador de futebol Artur (Rui Ricardo Diaz), a dona de casa e ex-prostituta Diana (Fabiana Gugli), o médico do exército Timóteo (Mario César Camargo), a socialite Cecília (Vania de Brito), e o mais jovem Dante (Ravel Andrade). Cada um deles está ali por um motivo e porque cometeu algum crime com que se arrependem, ou o que veremos, não é o caso de alguns.

O primeiro episódio já exibido na TV aberta trouxe a curiosidade de alguns e acabou afastando outros, por ter uma certa dose de paródia, pela presença de Pedro Bial, ex-apresentador do BBB fazendo ele mesmo, algo que não acontece nos episódios seguintes, e a série melhora com a “sensação de abandono” por qual o participantes vivem.

Super Max

“Qual o teu crime?”

Com um início parecido com paródia e até um pouco confuso, Supermax apresenta personagens unilaterais demais, cada um dos participantes fica confinado (com o perdão do trocadilho) à sua função, e os esteriótipos vão surgindo, algo que com o tempo passa a melhorar, pois são desenvolvidos de forma melhor. Os relacionamentos também são outro problema, personagens brigam, se ameaçam sem necessidade vez ou outra, e transam sem nenhum contato anterior. Quando algum personagem some no meio da prisão, ninguém pergunta pelo mesmo, só quando lhe é conveniente.

A ambiguidade começa a surgir aos poucos em alguns deles, e as atuações são fracas na maioria das vezes, um trabalho melhor se limita as pratas da casa Mariana Ximenes e Cléo Pires, enquanto alguns surpreendem, como é o caso de Rui Ricardo Diaz. Não culpo os atores (a maioria veio do teatro e sabe atuar), mas o texto, que é fraco de primeiro momento e melhora muito no decorrer da temporada além da troca constante de roteiristas por episódio fazer bem, os diálogos são ruins em sua maioria, cheio de frases feitas, como a que intitula essa sessão.

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O terror pelo terror

Mas não estamos diante de uma série de relacionamentos, apesar de apresentar outras vertentes como romance, thriller policial e suspense, Supermax se vendeu como uma série de terror, e no começo assim como o texto, o terror é falho e acaba se tornando o terror para apenas chocar o espectador. Não há uma explicação por trás e os elementos narrativos/assustadores são jogados na tela. Como dito antes, a série funcionaria melhor no formato de lançamento Netflix, ou se fosse exibido um episódio por dia pelo menos.

Alguns elementos são explicados depois, e é necessário ter paciência, o horror é causado quando sabemos com o que estamos lidando, e tudo começa a se ligar. A grande questão que permeia a série inteira é se tudo ali é sobrenatural de fato, ou se existe um elemento humano, plantar essa dúvida no espectador até os 45 do segundo tempo é um dos grandes acertos de Supermax.

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Referências e novidades

Quadrilha de Sádicos, O Massacre da Serra Elétrica, Bruxa de Blair, Demônio, Quarto do Pânico, Guerra Mundial Z e The Walking Dead, são alguns dos filmes e séries a que Supermax pega uma enxurrada de referências, tanto no sentido cinematográfico, como algumas que são de fato homenagens, a começar pela abertura, claramente baseada em True Detective, ao som de “Darkness“, de Leonard Cohen, confira aqui.

Apesar de todos os seus percalços, Supermax é inovadora, não no âmbito geral das séries, quem acompanha as americanas sabe que tudo isso já foi feito, mas sim em trazer tudo isso a TV aberta de forma normal. Assuntos como magia negra, satanismo, ocultismo e passagens bíblicas profanadas podem causar repulsa dos mais conservadores, além disso assuntos bem sérios como suicídio, aborto, homofobia, corrupção, assassinato são explorados de forma natural.

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O visual também chama a atenção, não falta sangue, alguns sustos, reviravoltas e mortes que podem deixar o público feliz, ou desapontado pelo seu participante preferido. Supermax melhora em seu terceiro episódio, no qual faz perguntas, e começa a respondê-las no quinto (pra mim o tal episódio chiclete, a partir daí não parei mais), sendo os episódios sete e oito (escritos por Raphael Draccon) os mais esclarecedores, culminando no ótimo décimo episódio, o melhor da temporada até aqui (escrito por Braulio MantovaniDennison Ramalho).

A TV aberta brasileira tem um longo caminho, se quiser competir de frente com a TV fechada, e até a de outros países. Nós sabemos fazer dramaturgia como ninguém, mas faltava explorar outros gêneros e Supermax, apesar de não cumprir tudo aquilo que prometeu de início, melhora bastante e trata-se de um bom início para o terror em terras tupiniquins.


Obs: A Globo Play disponibilizou os 11 episódios de Supermax, deixando apenas os último para ser visto na própria emissora no dia 13 de dezembro.


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