AODISSEIA
Séries

Striking Vipers, distopia gamer paulistana

Episódio de Black Mirror gravado em São Paulo é o melhor da temporada!


19 de junho de 2019 - 11:15 - Tiago Soares

Muito mais do que sobre tecnologia, “Black Mirror” sempre foi sobre nossa fuga da realidade. Bastante criticada depois que foi adquirida pela Netflix, com episódios bem abaixo da média, a série de Charlie Brooker tentou trazer uma nova perspectiva nesta temporada. Real e menos entregue aos avanços tecnológicos, a distopia ficou mais pé no chão e num futuro mais próximo do nosso. Sendo assim, os finais felizes são perfeitamente possíveis numa realidade menos pessimista, sendo louvável o que o criador tentou fazer, e é uma pena que nem todos tenham ficado tão bons como este “Striking Vipers”.

No episódio que abre a temporada, acompanhamos a história de amizade entre Danny (Anthony Mackie, o Falcão de “Vingadores: Ultimato”) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II, o Arraia Negra de “Aquaman”), dois amigos que moravam juntos e passavam as noites jogando um game de luta chamado Striking Vipers e sempre escolhiam os mesmos personagens, respectivamente Lance (Ludi Lin) e Roxette (Pom Klementieff) enquanto fumavam um. A namorada de Danny, Theo (Nikki Beharie, da série “Sleepy Hollow”) também vivia com eles e todos tinham uma boa relação.

black mirror striking vipers netflix

Anos se passam, Danny e Theo estão casados e vivem numa nova casa com seu filho, Karl aparece no aniversário do velho amigo e lhe dá um presente: uma nova versão de Striking Vipers, jogada através de um VR super moderno (a mesma tecnologia vista em USS Callister). O que seria uma diversão entre amigos, acaba se tornando uma fuga de um casamento monótono e de uma vida de relacionamentos superficiais.


Leia mais

– Black Mirror entrega seu exemplar menos corajoso em Smithereens. Confira a crítica completa aqui.

– Rachel, Jack and Ashley Too é um Hannah Montana para maiores. Confira o texto completo aqui.


A direção de Owen Harris (“The Twilight Zone”), não torna São Paulo nada particular. Para quem não sabe, o episódio se passa inteiramente na capital paulistana, mas é como se passasse em qualquer outra grande metrópole, colocando a cidade num cenário futurístico e que já é distópico para quem mora aqui. A fotografia de Gustav Danielsson traz um visual parecido com outro episódio sobre seu comando “San Junipero”, dando um clima noir a cidade, filmado em sua maior parte à noite. Quando entra no universo do jogo, cria-se um visual iluminado e particular para os amantes lutadores. Eles são outras pessoas em outro lugar e podem fazer o que quiserem, sem necessariamente aquilo interferir em suas vidas reais.

black mirror striking vipers netflix

Mas como estamos falando de Black Mirror, Brooker deseja discutir até onde o ser humano pode ir quando tem o poder da escolha, do anonimato e do desejo. Não há um aprofundamento sobre homossexualidade, mas sim sobre a sexualidade de dois indivíduos em corpos diferentes, virtualmente falando. Eu me torno outra pessoa quando estou em posse de um avatar? Esta pessoa é melhor do que eu sou ou já fui um dia? Segundo Karl, ele nunca tinha passado por tal experiência, quase transcendental e aí está o grande ponto de virada do episódio: vale a pena abrir mão da vida real e sólida aqui fora, para viver uma eterna aventura dentro de um jogo?

O vício em experiências sensoriais pode ser comparada ao vício em pornografia, algo muito discutido hoje em dia, e que ultrapassa os limites da traição e da própria masculinidade dos protagonistas. Em tempos em que se subverte o significado do “B” da sigla LGBT, Black Mirror resolve abandonar tal debate e prefere focar nos relacionamentos atuais, cada dia mais abertos e adeptos ao poliamor.  Brooker não foca apenas na relação entre Danny e Theo, mas também na estranha relação de Danny e Karl, fortalecida pelo jogo. Karl não o vê há um longo tempo e nenhum dos dois tem uma conversa sobre como suas vidas mudaram desde então, sendo relutante até em abraçar o amigo com carinho.

black mirror striking vipers netflix

Algo bastante interessante também é a representatividade do episódio, protagonizado por atores negros, com inúmeros coadjuvantes também negros e de etnias não brancas aparecendo na tela de forma fluída e natural. O fim ao som de “One Minute More” de Earl Grant culmina em mais uma escolha que o trio têm que fazer, algo que vai afetar os três, mas que é importante para manter a individualidade de cada um e suas respectivas buscas pelo prazer. Se é correto ou não, não cabe a nós julgar…