AODISSEIA
Filmes

Crítica: Sr. Turner


12 de fevereiro de 2015 - 14:33 - Flávio Pizzol

mr-turner-final-posterO Oscar está chegando e eu estou bem perto de terminar de assistir os filmes indicados ao maior prêmio do cinema. E pra variar um pouquinho, este aqui é mais uma cinebiografia. Dessa vez, quem ganha às telas é o pintor britânico William Turner em um filme cansativo e vago, porém bonito.

O filme segue William Turner desde sua chegada após uma viagem para a Holanda (acredito eu…) até sua morte muitos anos depois. É um filme que se desenvolve de maneira lenta, mas isso é bem comum em cinebiografias desse jeito. O grande problema é que o filme não me pareceu fazer um retrato completo de Mr. Turner.

Eu conhecia muito pouco da história e da obra do artista e comecei o filme com a esperança de conhecer, mas o longa é muito pouco esclarecedor. O roteiro de Mike Leigh não se aprofunda em nenhuma relação, faz poucas conexões com o passado do personagem e trata tudo de maneira bem rasa. E isso não é por falta de material, porque temos certos vislumbres de algumas coisas interessantes. Eu gostaria de saber mais sobre a mãe dele, sobre seus estudos sobre luz e cor, sobre o motivo dele renegar os filhos e até se esconder, sob seu outro sobrenome, de algumas pessoas com as quais convive.

E ainda tem a pouco explorada personalidade contraditória de Turner, que é talentoso, inteligente e educado ao mesmo tempo em que parece ser arrogante, pouco ortodoxo e muito misterioso. É um personagem bem instigante e eu fiquei interessado em conhecê-lo após alguns minutos de filme, no entanto o roteiro não aproveita tudo isso da maneira correta. É um texto cercado de muita filosofia e mitologia, mas vazio na representação de alguém importante. Não acho que seja algo positivo, você terminar um filme desses e ter que procurar sobre o biografado para entender o que foi adaptado.

Isso faz com que o filme, que já é bem longo, fique cansativo e interminável. E tudo só piora quando vamos chegando no final e os problemas de desenvolvimento vão ficando mais evidentes. Pra começar, segundo a nossa grande mãe internet, Turner morre sozinho e só encontrado dias depois, enquanto aqui ele morre ao lado da mulher e com o roteiro dando um grande foco para a empregada, que tem uma relação estranha e mal explicada com o pintor. Ou seja, nem as relações que são realmente importantes, com exceção do pai dele, tem um desenvolvimento aceitável.

Mr Turner scene from film

E se Mike Leigh erra bastante no roteiro, ele tenta balancear tudo com uma ótima direção. Usando planos-sequências bem elaborados e muito improviso por parte do elenco, ele consegue dar uma impressão estética interessante para o filme. Ainda contando com uma parte técnica esplêndida (que teve quatro indicações ao Oscar) onde a fotografia de Dick Pope é o grande destaque, Leigh retrata de maneira perfeita a época em que Turner viveu com todos seus costumes e ideais.

Seu trabalho com atores, com já disse, usa muito o improviso e isso dá uma liberdade e teatralidade inesperadas para o longa. Entretanto, eu me peguei pensando que essa tranquilidade toda com a atuação pode ter gerado várias interpretações por parte dos atores e gerado uma lambança na construção da história. Ainda assim, os planos-sequências unidos ao improviso consegue comprovar a qualidade do elenco.

Timothy Spall (mais conhecido por ser o ratinho de Harry Potter) faz um William Turner muito estranho e intenso. Toda sua personalidade é representada através de trejeitos corporais e um cansaço acima do normal. Isso porque eu não contei com aqueles grunhidos irracionais que ele fala durante todo o filme. Não sei se Turner era realmente assim, mas gostei do trabalho de Spall e só não o indicaria ao Oscar porque ele exagera em alguns momentos.

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Os coadjuvantes também mandam bem, mas a grande maioria não tem as relações bem escritas e acabam se perdendo. Dois bons exemplos são Dorothy Atkinson e Marion Bailey. que fazem mulheres que acompanham o protagonista por todo o tempo de filme, mas tem um texto bem vago em mãos.

A única relação que me convenceu foi a de William com seu pai, interpretado por Paul Jesson. Eles tem uma relação amorosa e bem desenvolvida através de poucos diálogos, enquanto Paul faz uma criação física do personagem tão boa quanto a de Timothy. Infelizmente não a relação mais duradoura.

O filme retrata uma época interessante, tem uma história teoricamente boa e um personagem principal rico, mas não sabe controlar isso tudo e os erros do roteiro atrapalham – e muito – o filme. Tem seus bons aspectos, mas acabando sendo lento e bem chato. É como se tivéssemos um quadro muito bonito, onde o retrato de sua figura principal está borrado pelos erros.


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