AODISSEIA
Séries

Sob Pressão – A dura e brutal realidade do Brasil

Apreciem a melhor produção que a televisão brasileira entregou nos últimos anos!


1 de agosto de 2019 - 00:19 - Flávio Pizzol

Cercada por episódios em planos-sequências e temáticas cada vez mais atuais, Sob Pressão entrega uma temporada brutalmente perfeita.


Por mais que o “presidente” do país insista em falar certas asneiras confirmadas unicamente pelas vozes que ecoam dentro do espaço vazio que ele chama de cabeça, nós sabemos que a situação do Brasil está muito longe de algo que possa ser classificado como bom. Vivemos tempos de crise econômica, desesperança política (com total razão), fome, miséria e descaso com elementos primordiais da sociedade como a educação e a saúde. A maior parte da população brasileira vive em meio a trancos e barrancos gerados pelo abandono do governo e, para nossa sorte, é exatamente nesse ambiente sem assistência que Sob Pressão continua fazendo sua morada.

E eu chamo isso de sorte porque, se alguém precisa mostrar a indiferença e a crueldade cada vez mais presentes na vida do brasileiro, nada melhor do que entregar essa missão nas mãos de uma equipe médica que vive ali no olho do furacão, enfrentando tudo e todos para salvar as vidas dentro do seu juramento. Do momento em que fez a transição do cinema para a televisão até seu ápice nessa temporada (passando um segundo ano brilhante), Sob Pressão vem entendendo e abraçando esse propósito com uma força que certamente a coloca no topo da teledramaturgia.

Mas, antes de qualquer coisa, vamos falar rapidamente sobre a trama dessa temporada de Sob Pressão: depois do fechamento do Macedão, a equipe médica mais dedicada e alucinada do país está espalhada pela cidade, terminando residências ou comandando uma ambulância do Samu em plena greve dos caminhoneiros. As coisas mudam quando as decisões improvisadas de Evandro, o comprometimento de Carolina e a necessidade em sua forma mais pura se cruzam nos corredores do Hospital São Tomé Apóstolo para mais uma leva de episódios marcada por aberturas de centros cirúrgicos, novas funções e muita tensão.

Entretanto, é bom lembrar que a série não fica presa exclusivamente ao hospital. Assim como aconteceu nas temporadas anteriores, o cenário acaba sendo muito bem repartido entre os corredores do hospital e os problemas sociais que naturalmente cercam qualquer ambiente público. Nesse caso, de um lado, temos a dificuldade de dirigir espaços públicos num Rio de Janeiro caindo aos pedaços, os clássicos improvisos que acompanham a falta de material e o nervosismo inerente à profissão. Já do outro, pode-se incluir temas atuais como a citada greve dos caminhoneiros, o desabamento de casas em regiões pobres (assustadoramente próximo de um caso real) e a dificuldade diária de lidar com as inúmeras milícias que comandam o estado. Uma temática tão presente na vida do carioca que, além de influenciar diversas subtramas, acaba ocupando o espaço deixado pela corrupção após a segunda temporada e dividindo a função narrativa de “fio condutor” dos episódios com a vida de casados de Evandro e Carolina.

A organização dessas peças compõe um formato muito próximo daquele proposto pela série desde o início, entregando episódios soltos que se conectavam aos pouquinhos até um grande ápice emocional. Pode não ser um caminho inovador dentro do próprio produto, mas é uma boa maneira de manter o nível de qualidade absurdo da série. E como um fã que terminou a crítica anterior dizendo que Sob Pressão ia alçar voos maiores se continuasse no caminho sólido apresentado em 2018, fico muito feliz de dizer que a série conseguiu amadurecer ainda mais até chegar ao seu auge indiscutível num décimo episódio que reuniu as milícias (comprovando a importância da subtrama), o relacionamento dos protagonistas e um apuro técnico fora do comum para as séries exibidas em canais abertos.

E pode acreditar numa coisa: não foi à toa que esse episódio entrou nos trendings topics do Twitter e ganhou um status de evento que pode ser considerado incomum para a televisão nacional nos dias de hoje. Mais do que isso, é completamente justo que um episódio filmado todo em plano-sequência ganhe esse peso. Não só pelo fato dos diretores (um deles sendo o próprio protagonista da série) terem escolhido uma técnica tão complexa, mas, principalmente, pelo fato da opção cair como uma luva no episódio. A ausência de cortes é essencial no encadeamento ritmado de todos os acontecimentos, na criação de um suspense crescente e na entrega de uma conclusão que chega ao ápice da emoção. Acompanhar – em tempo real – a saga de Carolina para salvar o paciente e chegar até o ultrassom está, sem nenhuma dúvida, entre as coisas mais agoniantes já feitas no audiovisual.

Um momento de puro brilhantismo que, além de coroar um episódio impecável, também mostra como a direção de Sob Pressão sabe usar a linguagem cinematográfica com a mesma precisão que seus protagonistas usam o bisturi. Em outras palavras: entrega um combo de fotografia, trilha sonora e edição que se aproxima na realidade através da câmera de mão, transita entre diversas emoções com closes poderosos e transmite o senso de urgência que cerca bairros de periferia, corredores esterilizados e o serviço médico com uma constante assustadora. Tudo amparado por um roteiro que aproveita a dinâmica dos médicos, entende a importância de conduzir o público até um clímax e seleciona casos (de agressão em sala de aula até hemofilia) com o propósito nada disfarçado de gerar tensão a partir da sua própria natureza.

No entanto, ninguém pode negar que o maior trunfo da série continua sendo seus personagens e, logicamente, os atores que os interpretam. Um show de arcos, subtramas e camadas que vão se revelando junto com o desenvolvimento individual dos personagens, o crescimento deles como grupo e as atuações de tirar o fôlego. Júlio Andrade (Reza a Lenda) continua seu trabalho incrível na construção da linha tênue que colocam Evandro entre o heroísmo e a idiotice, consagrando-se como um dos melhores talentos dessa geração. Marjorie Estiano (As Boas Maneiras) rouba ainda mais holofotes com dilemas emocionais, questionamentos religiosos e doses de sofrimento que só poderiam ser suportadas por uma mulher extremamente forte. Bruno Garcia (O Caseiro) aproveita o embalo e cresce junto com o arco de Décio. Pablo Sanábio (Motorrad) também ganha espaço, destaque e força após a despedida do Dr. Charles da residência. E, por fim, Drica Moraes (Justiça) rouba o coração dos público como uma médica novata cuja a evolução da trama pode arrancar boas lágrimas do espectador.

A união de todos esses elementos que passaram pela minha – mais do que justa – “rasgação de seda” só poderia resultar em uma terceira temporada perfeita de Sob Pressão, superando até mesmo o incrível trabalho realizado no ano anterior. Uma série poderosa que acessa as emoções do público através da sua humanidade, prende atenção com sua tensão ininterrupta e assusta nas escolhas que se aproximam cada vez mais da vivência dos brasileiros. Pode ser difícil ver as consequências nem sempre felizes de uma ida ao hospital público marcarem a tela com brutalidade, porém nunca foi tão importante notar como o descaso e a ignorância daqueles que aproveitam o poder mantém a base da pirâmide num ciclo de pressão e sofrimento.


OBS 1: Essa seria a última temporada da série, mas o sucesso inesperado (porém muito merecido) garantiu um quarto ano para 2021.