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Séries

Crítica: Sob Pressão é dramaturgia de primeiro mundo

Mas faz questão de manter sua identidade nacional... e isso é maravilhoso!


19 de dezembro de 2018 - 19:45 - Flávio Pizzol

Se o cinema nacional tem muitas dificuldades para fazer carreira fora do país (com exceção dos festivais), ninguém pode negar que o Brasil possui renome internacional quando se trata de teledramaturgia. No entanto, é curioso notar que tal sucesso – principalmente na Globo – acaba ficando restrito a novelas e séries de comédia, como A Grande Família. Dá pra contar nos dedos quantas séries de drama lançadas na TV aberta brasileira conquistaram público e crítica com força suficiente para se estender por muitas temporadas. E eu estou muito feliz por saber que Sob Pressão (já renovada para mais dois anos) entrou pra essa lista com muito suor, tensão e qualidade narrativa.

A série, baseada no filme homônimo de 2016, acompanha o dia-a-dia de uma equipe de médicos que trabalha no limite num hospital público do Rio de Janeiro. Ou seja, a realidade deles é enfrentar a falta de material e outras más condições da saúde pública na esperança de salvar vidas. Pra completar, a segunda temporada ainda transformou a boa e velha corrupção como ingrediente central dessa mistura, criando situações de risco que extrapolam o cenário inicial e gerando consequências mais graves nos corredores do glorioso Macedão.

Inclusive, a maneira como essa corrupção acaba sendo inserida na trama reflete uma das grandes qualidades de Sob Pressão: a construção de um cenário rico como background do programa. A equipe de roteiristas liderada por Jorge Furtado (Meu Tio Matou um Cara), Luiz Noronha (Vai Que Cola) e Renato Fagundes (Magnífica 70) sabe como explorar as dinâmicas de um hospital, cruzando os elementos médicos com o aspecto social imposto não só elo sistema de saúde, como pela própria sociedade. Não é uma solução inovadora, considerando que séries como Grey’s Anatomy e House também fazem o mesmo há uma eternidade, mas funciona por usar de maneira certeira esse toque brasileiro.

E a nossa realidade cheia de problemas é um prato cheio para que o texto se renove a cada episódio e, acima de tudo, entregue histórias que aproximem o espectador da ficção através de casos que podem ter facilmente acontecido com você ou com algum conhecido. É assim que os roteiristas de Sob Pressão brincam com as possibilidades e usam um combo de diálogos afiados e construções narrativas que demonstram o valor de um bom clímax para reunir a tensão que uma emergência médica já carrega consigo com outros questionamentos gerados pelo tráfico, pela pobreza ou pela religião. E, se esse clima de nervosismo já tem algum peso graças ao cenário físico de um hospital caindo aos pedaços, a série como um todo ganha mais força quando o roteiro faz questão de colocar os dois lados da narrativa em choque através de uma família que proíbe sua filha receber sangue por questões religiosas ou de um traficante que está com uma arma na sua cabeça.

É um contexto explosivo que recebe ainda mais camadas através da riqueza dos personagens que habitam esse cenário cheio de potencial e pressão. Evandro, Carolina e boa parte da equipe são escritos como pessoas reais e extremamente complexas. Logo todos eles possuem dilemas pessoais (do luto ao vício em drogas, passando por homossexualidade e outros temas tão atuais quanto os do hospital) que levam a trama para fora das paredes do hospital, conectam o espectador com os personagens de maneira individual e trazem tudo de volta como elementos que, assim como na vida real, influenciam nos seus trabalhos. E o truque, na minha opinião, está em fazer isso com cuidado para que o público se interesse por essas subtramas, compreenda como elas fazem parte do todo e entenda como cada peça pode influencia numa escolha futura.

A união de todas as partes resulta num formato que se encaixa como uma luva com a proposta de Sob Pressão: os episódios funcionam isoladamente através de casos criativos banhados na pura identidade nacional, enquanto um grande quebra-cabeça vai sendo formado pelas subtramas dos personagens. Foi o que aconteceu com a construção de uma trama onde a corrupção (tema mais atual impossível) consumia o hospital e o sistema como um todo aos pouquinhos, surgindo disfarçadamente na pele de obstáculos ou missões a serem cumpridas pelos protagonistas para só depois se revelar como combustível para grandes ápices emocionais. Eu não vou comentar nada específico pra não dar spoiler, mas devo admitir que a segunda temporada da série veio carregada com algumas escolhas inesperadas e pesadas.

Quem junta tudo isso com muita eficiência através de uma linguagem cinematográfica apurada é a direção comandada por Andrucha Waddington (Casa de Areia, Os Penetras). É claro que ele não dirige todos os episódios, mas foi o responsável por criar, desde o longa original, a base marcada por uma câmera de mão quase documental que se aproxima dos personagens e funciona tanto em momentos de tensão quanto de emoção. É muito interessante ver planos-sequências serem intercalados com cortes extremamente rápidos com o objetivo de traduzir o peso da sala de cirurgia, o desespero dos pacientes/familiares e a intimidade dos médicos com a mesma força, ganhando fôlego quando tudo se cruza e resulta, por exemplo, no ótimo episódio do capotamento do ônibus.

Além disso, são episódios como esse citado que ressaltam como o elenco brilhante é parte decisiva de Sob Pressão. Júlio Andrade (Justiça) acessa seu lado mais pilhado pra transmitir tanto o sofrimento quanto o altruísmo incorrigível de Evandro, criando uma persona complexa por quem o espectador torce apesar dos erros e vícios. Marjorie Estiano (As Boas Maneiras) segue o mesmo caminho e sai completamente da sua zona de conforto para incorporar uma personagem forte, porém cheia de fraquezas que demoram para serem externalizadas. E o mesmo padrão de trabalha se espalha na construção da liderança de Stepan Nercessian (Chacrinha: O Velho Guerreiro), do alívio cômico de Orã Figueiredo (Isolados), do arco de construção da experiência de Pablo Sanábio (Motorrad), a doçura inigualável de Bruno Garcia (O Caseiro), o deslocamento estúpido de Humberto Carrão (O Animal Cordial) e a vilania oportunista de Fernanda Torres (Saneamento Básico, O Filme).

O resultado da união de um cenário rico em situações tensas, um roteiro afiado, uma direção digna de cinema e um elenco desse não poderia ser outra coisa além de uma série de televisão praticamente perfeita. O ritmo cai em alguns momentos, mas Sob Pressão passa a sensação que a nomeia para o espectador e jamais perde a chance de incomodar o espectador com imagens fortes e histórias reais. É verdade que ela talvez não seja uma série para todos (é pesada e pode acabar sendo difícil de assistir dependendo da temática), entretanto possui um público fiel, se encaixa na proposta do canal e mostra que é possível fazer grandes série de drama em terras tupiniquins. E vou deixar anotado que, se o restante do programa seguir a evolução da segunda temporada, ninguém segura os médicos do Macedão…