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Crítica: Sniper Americano

10 de fevereiro de 2015 - 14:13 - Flávio Pizzol

american-sniper-poster-internationalSniper Americano foi a grande surpresa desse ano, quando abocanhou o lugar de outros longas considerados favoritos no Oscar e teve a maior estréia americano no mês de janeiro desde muito tempo. A principal explicação para isso, provavelmente, está no enorme nacionalismo americano e esse era o principal motivo pelo qual eu achei que não ia gostar do filme.

O filme, como o próprio título indica, conta a história de Chris Kyle, o atirador de elite mais letal dos EUA. Chris nasceu em uma família nacionalista e a decisão de entrar para o exército não é nem um pouco estranha, mesmo que ele já tenha 30 anos. Depois de um intenso treinamento para ser um SEAL e do seu casamento com Taya, ele vai para o Iraque e ganha o título de Mito por não errar seus alvos.

É extremamente óbvio que um filme como esse vai estar cercado de nacionalismo, porque não tem como separar isso das guerras que o EUA travou no Oriente Médio. É ainda mais difícil não abusar do nacionalismo quando seu protagonista usa isso como desculpa para tudo. Ele existir é um problema justificado, mas eu não gosto quando esse sentimento nobre tem maior importância que o filme e seus personagens. Dessa vez, eu me surpreendi positivamente.

O roteiro de Jason Hall surpreendentemente consegue balancear muito bem todo esse sentimento que envolve a história com a guerra e os dramas de Kyle e sua família. Claro que existem momentos onde ele pesa a mão, mas isso acaba se justificando pela própria personalidade de Chris e seu amor quase cego pelo país. Não consigo engolir como isso pode ser a explicação para tudo, entretanto entendo que sua existência é necessária para retratar um herói puramente americano.

O restante da história é construída de maneira interessante, dando o espaço adequado tanto para suas missões, quanto para sua convivência com o mundo real. Isso dá uma certa dinamicidade para o longa, que nunca fica lento ou dramático demais. É um filme que tem boas cenas de ação e consegue, com isso, chegar perto de se disfarçar de “filme-pipoca”. Mas ainda bem que Jason não erra a mão e trabalha muito bem também o outro lado da moeda, tendo do seu lado Taya, que é uma ótima personagem para fazer o contraponto com Kyle e sua guerra.

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Em certos momentos, a saga do atirador tem momentos muito parecidos com os retratados em Guerra no Terror, vencedor do Oscar em 2009, mas aqui temos muito mais tempo de tela para a vida fora da guerra e um foco interessante nas dificuldades que os veteranos tem para se readaptar as suas vidas antigas. Inclusive, são esses momentos que fazem de Chris um personagem interessante e ressaltam o bom trabalho de Bradley Cooper.

A única coisa que de fato me incomodou no roteiro foi a dificuldade em desenvolver as ligações de Chris com os outros soldados. E isso aqui não pode ser justificado pela personalidade do personagem, já que mais da metade do filme gira em torno das consequências da morte de Biggles para Kyle. Essa relação e todas as outras são pouco mostradas e só ganham alguma importância quando algum soldado é realmente ferido.

Se o roteiro acerta muito e até surpreende quem não conhece a história real, a direção de Clint Eastwood poderia ser muito melhor. Clint acerta em alguns momentos e consegue criar boas cenas de ação e tensão, mas ele está claramente trabalhando no automático. Isso acaba gerando muitostakes repetitivos e alguns momentos realmente ruins, como o uso de um bebê falso. Não chega a manchar a carreira de Eastwood, mas todos sabemos que ele pode ser melhor do que isso.

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Pelo menos, ele acerta na direção dos atores. Ainda não acho que Bradley Cooper esteja bem o suficiente para roubar a indicação de Jake Gyllenhaal ao Oscar de Melhor Ator, entretanto tenho que admitir que ele está muito bem. Chris Kyle é um personagem complicado, que exige muito no aspecto mental e físico. Bradley está realmente muito forte em ambos os aspectos, conseguindo cativar o público e criar um personagem realmente atraente.

Todavia, eu ainda acho o trabalho de Sienna Miller mais forte e interessante, mesmo tendo bem menos tempo de tela. Não sei porque ainda não fizeram um grande filme que buscasse retratar a guerra através do olhar de que não vai para o campo de batalha, como os filhos, pais e esposas. Sienna está linda e muito bem no retrato de uma personagem que sofre em casa, enquanto seu marido luta por uma bandeira.

Não é um filme perfeito, mas funciona tanto como um bom drama, quanto como um bom filme de guerra. É realista, intenso e forte, contando com boas atuações e um roteiro simples para contar a história de alguém que foi responsável por tirar a vida de mais de 160 pessoas, mesmo que tendo uma boa justificativa. Não é um filme que vai ter tanto impacto para nós brasileiros, mas é uma boa história que merece ser assistida.


 

OBS 1: Acho que o filme mostra muito pouco de Chris como um Sniper, efetivamente. Na maior parte do filme, ele atua no chão e como chefe de regimentos de ataque.

OBS 2: Não sei não existem relatos certeiros sobre o fato ou se o motivo foi outro, mas acho que o filme poderia ter mostrado a cena da morte de Kyle. O fim é legal e até choca mais do que uma cena de morte, mas retratar o assassinato em questão poderia ser interessante para quem não conhece a história.


 

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