AODISSEIA
Filmes

Crítica: Silêncio


15 de março de 2017 - 11:11 - Flávio Pizzol

Crer ou não crer, eis a questão!


Quem conheceu o trabalho de Martin Scorcese através da loucura de O Lobo de Wall Street (2013) pode não acreditar, mas o diretor cresceu no meio das máfias e religiões que brotavam constantemente no meio de uma Nova York pós Segunda Guerra Mundial. Não foi o acaso que fez com que seus maiores filmes brincassem com esses temas ou, no mínimo, utilizassem a metáfora do salvador enviado para livrar os oprimidos (vide Taxi Driver). Também não foi um mero acidente que o levou ao comando de uma espécie de trilogia espiritual que chega ao seu clímax contemplativo com Silêncio.

Antes disso, o diretor precisou travar, ao lado do roteirista Jay Cocks (Gangues de Nova York), uma batalha de mais de duas décadas para tirar a adaptação do livro de Shûsaku Endô do papel. O objetivo era justamente criar um épico religioso sobre crença e perdão em torno da história de dois padres jesuítas portugueses que viajam para o Japão em busca do seu mestre, que, segundo os boatos, abandonou a religião e virou praticamente um japonês após ser torturado. Ou seja, um filme completamente oposto à eloquência e ao sarcasmo que ocupam sua versão exagerada de Wall Street.

O próprio título já estabelece que o longa está inserido em um contexto onde culturas entravam em choque graças ao colonialismo, os momentos de reflexão eram valorizados por homens de qualquer religião e os gritos que cortavam o silêncio das vilas representavam a chegada do perigo. Martin e Jay tem plena noção disso e mergulham o espectador nesse universo sem pressa nenhuma, aproveitando a lentidão narrativa (às vezes mais arrastada do que deveria) para reforçar a contemplação e o intimismo presente nos questionamentos que movimentam a trama.

A cinematografia comanda pelo mexicano Rodrigo Prieto (Passageiros) – e merecidamente indicada ao Oscar – demonstra ter total controle desse espírito. Ele contrasta os planos abertos típicos do grandes épicos com os detalhes de mãos ou objetos religiosos, utiliza a névoa para dar corpo a um ambiente onírico, reverencia as grandes pinturas cristãs com sua câmera primordialmente estática e insiste em uma câmera em plongée que “imita” a visão de Deus. Tudo sem esquecer de trabalhar certos detalhes que refletem o enorme conhecimento cinematográfico de Scorcese, como, por exemplo, a grade que “separa” dois personagens que também estão afastados pelos seus ideais opostos.

Essa beleza indiscutível é acompanhada por um trabalho sonoro que contribui essencialmente para a imersão do espectador no Japão do século XIV. A trilha sonora de Kim Allen Kruge e Kathryn Kluge (que só haviam trabalhado em documentários até então) até marca presença com grande sutileza, mas a força do filme está em saber trabalhar o silêncio que já ocupava aquele ambiente por si só. Foge do padrão de cinema atual e, de certa forma, deixa o desenvolvimento um pouco mais lento, porém cria um paralelo muito forte – e necessário – com as orações feitas às escondidas.

Junto com a violência presente nas longas cenas de tortura, os paralelos religiosos surgem quase como uma inclusão pessoal desses temas tão elementares para a filmografia de Martin Scorcese. Silêncio inclui (com mais sutileza que Até o Último Homem) uma série de elementos bíblicos que vão das moedas de prata recebidas por Judas até a retirada dos corpos da cruz, passando por todo o arco narrativo de um protagonista igualado inúmeras vezes com as pinturas de Jesus. Inclusive, os questionamentos que Rodrigues faz em relação a sua fé e o seu confronto final com o Padre Ferreira podem ser analisados como uma recriação das tentações vividas por Cristo no deserto.

Na minha cabeça, essa experiência fica ainda mais curiosa ao ver Andrew Garfield (O Espetacular Homem-Aranha) assumir outro papel com inspirações cristãs logo após o longa de Mel Gibson e, mesmo assim, conseguir diferenciá-los substancialmente. Ele está mais contido, confuso e entregue ao personagem de uma forma que o permite carregar a jornada de Rodrigues como sua própria cruz, enquanto Adam Driver (Star Wars: O Despertar da Força) é deixado de lado muito cedo e Liam Neeson (Sete Minutos Depois da Meia-Noite) passa boa parte da trama como um MacGuffin digno dos suspenses de Hitchcock. Ambos tem pelo menos uma grande cena dramática e fazem sua parte com eficiência, porém o arco emocional de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka) exige mais investimento do ator e do público, por exemplo.

Infelizmente, a inclusão desnecessária de um narrador holandês durante os últimos quinze minutos me tirou do filme completamente. Ele não faz nada mais que repetir explicações já estabelecidas através das imagens e se torna um recurso redundante até quando suas falas revelam certa manipulação do Inquisidor. Os fatos e os diálogos dessa última parte já apresentavam a relação do sacerdote com sua própria religiosidade tão bem que eu acho até o último plano de Silêncio didático demais. Claro que a tal cruz possui sua importância dentro do longa, mas a sutileza encontraria um abrigo mais confortável em um filme que trabalha com a beleza do silêncio e dos detalhes na maior parte do tempo.

O resultado é um filme intenso, poderoso e cheio de simbolismos que pode afastar algumas pessoas tanto por sua longa duração quanto por sua violência chocante e escancarada. No entanto, nada disso impede que Silêncio seja uma experiência recompensadora que não merecia ser esnobada de forma tão brutal pelo Oscar. A temática talvez encontre mais relevância entre os cristãos pelas passagens de crer ou não em Deus, mas tentar enxergar o mundo com um pouquinho mais de espiritualidade (independente de religião) pode ser um caminho de salvação em tempos estranhos como os nossos.


OBS 1: Essa tal trilogia religiosa que eu citei também inclui o polêmico A Última Tentação de Cristo e o belíssimo Kundun, que conta a história de Dalai Lama. Curiosamente (ou não), Silêncio cruza o cristianismo e o budismo no seu confronto cultural.

OBS 2: Se você realmente não quiser se conectar com os aspectos religiosos, posso garantir que Silêncio transcende isso ao ser um ótimo filme sobre um momento histórico pouco explorado: a colonização cultural via padres jesuítas. Movimento esse que, por sinal, também aconteceu no Brasil com pequenas diferenças na recepção.