AODISSEIA
Séries

Shippados é a prova de que relações humanas não são fáceis

Primeiro ano da série de Fernanda Young e Alexandre Machado é um aviso sobre o perigo dos relacionamentos.


18 de junho de 2019 - 17:06 - Tiago Soares

Relacionamentos não são fáceis e esta frase não está limitada a relacionamentos amorosos. Relações em geral, sejam elas familiares, de amizade ou fraternais estão fadadas ao fracasso no menor sinal de desinteresse e vacilo que seja. Para retratar os encalços de uma relação, não há escolha melhor do que Fernanda Young e Alexandre Machado, o casal criador de “Os Normais”, sabe transpor como ninguém a loucura da mente humana para as telinhas, e por isso criou mais um casal estranho e improvável em “Shippados”.

Na série, Rita e Enzo já estão cansados de terem encontros proporcionados por aplicativos de relacionamentos e encontrarem pessoas que não tem nada a ver com eles. Tímidos, o casal peculiar acaba se formando pelo acaso e percebem que possuem muitas coisas em comum. Além de enfrentarem os problemas de um relacionamento, Rita precisa conviver com a mãe Dolores (Yara de Novaes) e Enzo com o casal que mora com ele, Valdir (Luis Lobianco) e Brita (Clarisse Falcão), ambos cercados de peculiaridades humanas e naturalistas .

shippados globoplay tatá werneck

A direção artística de Patricia Pedrosa não sei do lugar comum, com exceção da fotografia amarelada na maioria das vezes em que o casal se encontra, um recurso simples mas bastante útil já que a força está no texto de Machado e Young e nas incríveis atuações de Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch. A primeira ainda possui lampejos do jeito Tatá de ser, mas está muito mais introspectiva, o segundo já tinha mostrado seu viés dramático em alguns trabalhos, mas aqui está muito mais contido. Os dois tem química e ocupam a maior parte do tempo de tela, o que não é nenhum demérito.

O humor é sagaz, escapando de situações absurdas para ter uma veia cômica mais apegada a realidade. É muito mais difícil apoiar suas piadas em situações do cotidiano, e é da simplicidade que o talento de todos se sobressai. Tanto que quando decide ir por um caminho mais despirocado, “Shippados” perde um pouco de sua força durante seus 12 episódios, que poderem facilmente ser 10. Hoje, nenhuma série de comédia permanece no ar se não tiver um sub-texto apoiado no drama, além de discussões relevantes e felizmente a produção da Globoplay vai bem nesse quesito.

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Temas como paternidade, relacionamentos abusivos e traumas gerados por decepções anteriores são os pontos mais fortes da comédia romântica, que encontra leveza na bizarrice do casal, sem nenhuma vergonha de expor seus desejos mais profundos um para o outro. A entrada dos colegas de trabalho de Enzo e Rita, respectivamente Hélio (Rafael Queiroga) e Suzete (Júlia Rabelo), faz com que o espectador compare a “normalidade” dos casais e suas particularidades, mostrando que por mais comuns que sejam, não estão isentos de relacionamentos complicados em vários âmbitos sociais.

A trilha sonora nada animada e sempre presente contrasta com a comédia, desde a abertura ao som de “Estive” da banda Vanguart, passando por A história mais velha do mundo, da O Terno, e várias do Los Hermanos. Nada apelativa, seja no texto ou no visual, Shippados é um acerto do serviço de streaming da Globo e termina bem mesmo se não for renovada, mas sabemos que um relacionamento pode render muito mais e gostaríamos de ver mais do shipp Rizo.