AODISSEIA
Séries

Crítica: Sharp Objects é mais um trabalho impecável da HBO

Um belo e sufocante mergulho na mente de uma mulher destruída

29 de agosto de 2018 - 18:38 - Flávio Pizzol
[Atenção: Esse texto pode conter algum spoiler involuntário…]

A mente humana é uma das coisas mais complexas e misteriosas já vistas, logo tentar demonstrar o seu funcionamento pode ser um grande desafio para qualquer forma de arte, incluindo dos livros ao cinema. Entre tantos que tentaram, Gillian Flynn é uma pessoas não só enfrentou esse desafio e dominou – não cientificamente, é claro – essa habilidade em diversos livros que misturam traumas, conflitos psicológicos e empoderamento feminino com algum sucesso. Tanto que bagunçou a cabeça de muita gente com o roteiro do ótimo Garota Exemplar (cujo livro também é dela) e, agora, com a adaptação de Sharp Objects na forma de incrível minissérie da HBO.

A trama, levada para a TV por Marti Noxon (O Mínimo para Viver), acompanha um jornalista que precisa voltar para sua cidade-natal – um região interiorana chamada Wind Gap – quando duas adolescentes são encontradas mortas com requintes de crueldade. No entanto, o que era pra ser apenas uma investigação jornalística se transforma em pesadelo quando o reencontro com a família reacende diversos traumas do passado da protagonista.

Esse é o pontapé inicial para um roteiro que se divide propositalmente dentro dessas duas temáticas: a investigação criminal e o mergulho na meste dessa protagonista que ainda não conseguiu apagar as marcas (literais) do passado. O primeiro aspecto abraça alguns clichês de gênero durante sua construção, mas nenhum deles prejudica o cumprimento de sua função como motivação da protagonista e gancho para prender a atenção do espectador enquanto o foco do show recai justamente no segundo aspecto citado.

A série está de fato muito mais interessada em investigar como os traumas de Camille Preaker mexeram com a da própria e influenciam cada um de seus passos até hoje. Para isso, o texto deixa a parte policial em segundo plano com objetivo de instaurar outro mistério para o qual o espectador não havia sido convidado no início: o que aconteceu com Camille? E porque isso a deixou tão destruída emocional e fisicamente? Uma proposta incrível que, no entanto, depende da vontade do espectador para funcionar. Em outras palavras; se você ficar interessado nessa investigação quase metafísica, vai se apaixonar instantaneamente por Sharp Objects; caso isso não aconteça, você vai acabar ficando no grupo que se viu preso a uma série arrastada e confusa.

Um sentimento que, querendo ou não, passa tanto pelos roteiros cheios de metáforas e mudanças temporais, quanto pelo trabalho espetacular de Jean-Marc Vallée (Big Little LiesClube de Compras Dallas) como diretor. O canadense escolhe desenvolver a trama sem pressa nenhuma e usa o fato de ser o responsável por TODOS os episódios – algo raro na televisão atual – para injetar a mesma precisão narrativa em cada um deles. E isso inclui saber como aproveitar ao máximo os planos e cores trabalhados pela fotografia de Yves Bélanger (colaborador frequente de Vallée) e Ronald Plante, a montagem liderada por si mesmo e a trilha musical selecionada a dedo por Susan Jacobs (Eu, Tonya).

Lógico que a mistura disso tudo pode parecer confusa, mas a verdade é que cada fragmento do passado que surge no meio de uma cena “normal”, cada canção escolhida por personagens que literalmente comandam esse aspecto narrativo e cada iluminação diferenciada tem sim algum significado para o contexto de Sharp Objects. Acompanhar uma obra que se apropria desse jogo para imergir o espectador na mente dos personagens é uma atividade desafiadora e eu mesmo admito que posso não ter captado todas as nuances da trama, mas garanto que aquele pouquinho a mais de atenção que surge quando a história te fisga já é suficiente para sentir e compreender o que o que move Camille, Amma, Adora e tantos outros personagens que surgem na tela.

Na verdade, optar por essa estrutura narrativa toda espedaçada já é praticamente um atestado de que Sharp Objects quer colocar não um crime, mas seus personagens no foco de tudo. E é nesse ambiente que a nova minissérie da HBO brilha, já que tem uma gama bem grande de personagens complexos, profundos e cheios de camadas que tem muito pra dizer sobre a cidade, o passado e os próprio assassinatos que começam tudo. Nesse caso, o que realmente move a trama é a vontade de descobrir mais sobre os traumas de Camille, o aparente desgosto da mãe pela vida como um todo, a apatia do pai, os interesses obscuros do xerife que parece saber de tudo e por aí vai, criando um jogo intricado que roteiristas e diretor controlam através da apresentação pontual de pistas que podem estar no passado, no presente ou quiça no futuro.

Além disso, eles contam com um elenco simplesmente brilhante. Amy Adams (A Chegada) manda na porra toda como a protagonista Camille, convencendo tanto como a jornalista que sua Lois Lane nunca conseguiu ser, quanto como uma mulher destruída que se pune constantemente através do alcoolismo e do desamor com o próprio corpo. Patricia Clarkson (Ilha do Medo) surge como causa e consequência de tudo que suas filhas sofrem através da figura de uma mãe controladora, dúbia e venenosa. Já a pouco conhecida Eliza Scanlen (Home and Away) se revela uma atriz com grande potencial ao dar vida a uma das personagens mais complexas e indecifráveis da história da televisão, conquistando e destruindo os corações do público ao mesmo tempo. E, por fim, Chris Messina (A Lei da Noite), Matt Craven (X-Men: Primeira Classe), Taylor John Smith (American Crime), Miguel Sandoval (Dirk Gently’s Holistic Detective Agency), Elizabeth Perkins (This is Us) e Sophia Lillis (It: A Coisa) completam o elenco de Sharp Objects com participações menores, porém contundentes o suficiente para não serem ignoradas.

Todos eles são peças importantes, entretanto se engana quem está pensando que o crime é completamente abandonado para desenvolver os personagens. Existe sim um ponto onde a série engata de vez e mistura as duas temáticas citadas lá em cima com ainda mais precisão do que antes, revelando (como um bom livro de mistério faz) que tudo estava interligado. E a direção, o roteiro e o elenco encontram a maneira perfeita de resolver tudo através de uma montagem final que usa todos os elementos narrativos essenciais da série com as respostas chocantes que o espectador tanto esperou nos oito episódios do programa. É tão poderoso, forte, tenso, certeiro, emocional e recompensador para quem escolheu mergulhar na loucura de Sharp Objects que a nota máxima desse texto foi conquistada ali, anulando até mesmo alguns pequenos escorregões em prol de uma narrativa sufocante e bem amarradinha que merece ser assistida.