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Séries

Crítica: Sex Education – Uma diversão necessária

A Netflix erra bastante, mas quando acerta...

30 de janeiro de 2019 - 19:29 - Flávio Pizzol

Com um número cada vez maior de produções originais, a Netflix nem sempre divulga todos os seus lançamentos com o mesmo empenho. Isso faz com que algumas séries (ou filmes) tenham que atravessar os lançamentos ruins e andar com as suas próprias pernas, chegando sem muito alarde para ganhar o público aos poucos. Esse é o caso tanto de um pequeno fenômeno chamado Stranger Things quanto da ótima Sex Education. Eu demorei um pouco mais pra assistir por conta da maratona interminável de Justiceiro, mas acabei cedendo ao clamor das redes sociais e quero aproveitar essa introdução pra deixar um recado: não cometa o mesmo erro, porque Sex Education, além de ser muito melhor que a segunda parte da jornada de Frank Castle, também é uma série necessária.

A premissa levemente bizarra apresenta um garoto de 16 anos, chamado Otis, que se divide entre um dia-a-dia escolar sem muitas surpresas, seus inúmeros traumas sexuais e a convivência complicada com a mãe que atua como terapeuta sexual dentro da própria casa. Ao mesmo tempo, ele precisa lidar com algumas surpresas que agitam suas amizades da escola, despertando paixões impossíveis, libertando desejos reprimidos e resultando até mesmo na criação de uma clínica de terapia sexual para adolescentes.

A proposta é curiosa e já mexe com o espectador desde o início, porque é difícil saber o que esperar de uma série adolescente cujo o objetivo é falar sobre sexo abertamente em um contexto moderno. Só que, ao mesmo tempo, Sex Education faz questão de se apropriar desde seus primeiros minutos de uma linguagem visual que mistura tecnologia com uma certa pegada noventista. Isso gera uma certa confusão sim, mas acaba contando muitos pontos a favor quando o programa revela que é muito mais do que uma “coisinha simples” que pode ser compreendida sem nenhum esforço. Isso não significa que a série é difícil de ser vista, porém significa que estamos diante de um produto que trabalha os contrastes com eficiência e vai revelando (com muita inteligência, por sinal) todas as suas cartas na manga com o passar do tempo.

E boa parte desse movimento narrativo está intimamente ligada a uma série de personagens – entre protagonistas e coadjuvantes – que passam por muitos desses contrastes e expõem sua riqueza aos pouquinhos. É muito fácil notar com a maior parte das pessoas encarna estereótipos clássicos do longas adolescentes, passando por classes como o nerd, o pegador, o valentão, a patricinha, o amigo gay e a mãe sufocante. Entretanto, também é muito fácil entender, desde os primeiros minutos, que eles são muito mais do que uma persona monocromática, abrindo espaço para que o desenvolvimento da trama coloque os holofotes sobre novas camadas.

É um trabalho muito inteligente da quase novata Laurie Nunn (criadora e roteirista principal do projeto), sobretudo se consideramos que são justamente essas camadas que colocam os temas mais pesados na roda e transformam Sex Education nessa série tão necessária. Dessa forma, temos oito episódios que não abrem mão de falar da maneira mais honesta possível sobre sexo e diversos outros questionamentos que podem surgir a partir daí, incluindo objetificação da mulher, vazamento de fotos íntimas, homossexualidade reprimida, aborto e muito mais. E, por mais que isso já dê um caldo bem forte, a série mergulha no universo adolescente e volta com inúmeras perguntas – e algumas respostas – sobre amizade, pressão familiar, bullying, paternidade, suicídio e mais uma porção considerável de temáticas que poderiam ser facilmente consideradas tabus.

E, além do encaixe de peças tão diferentes, o que mais surpreende é a maneira simples com que o programa conversa com adolescentes, escolhendo a franqueza no lugar do choque proposto por 13 Reasons Why. Na verdade, tirando as cenas de sexo bem “ilustrativas”, estamos falando de uma série que não chega nem perto de ser excessivamente gráfica. Estamos falando de um programa que trata seu público de forma madura, o conquista através dos personagens, evita grandes polêmicas e mantém, mesmo no meio de tantos questionamentos sérios, um pezinho no bom-humor. E, mesmo sabendo que o “tratamento de choque” pode ter uma grande função na quebra de preconceitos, Sex Education é uma série muito mais educativa e acessível do que sua prima de streaming.

Diante disso, é importante que lembremos que muitos desses acertos acompanham o timing presente tanto no roteiro inteligentíssimo, quanto na direção tipicamente britânica da dupla Ben Taylor (Catastrophe) e Kate Herron (Five By Five). Eles se entendem muito bem e acertam em cheio na condução do tom da série, dando espaço para que os momentos dramáticos dialoguem com o espectador sem que a comédia seja retirada completamente da equação. E, por incrível que pareça, eles ainda conseguem fazer isso sem amenizar as dores e sofrimento, graças ao fato da comédia surgir mais de momentos do cotidiano que poderiam acontecer com qualquer um do que de piadas extremamente elaboradas. Isso cria uma conexão com o público e, ao mesmo tempo, ajuda na construção desse equilíbrio onde drama e comédia possuem seus momentos muito certeiros.

E, como sempre, um pacote tão completo como esse exige que elenco como um todo tenha a mesma sintonia exalada pela parte técnica. O trio de protagonistas composto por Asa Butterfield (O Espaço Entre Nós), Emma Mackey (Badger Lane) e Ncuti Gatwa (Stonemouth) possuem química pra dar e vender, ecoam diversidade e aproveitam suas subtramas – que ora anda junto, ora se separa – para carregar a série nas costas quando se trata do drama e da comédia. Junto com eles, Connor Swindells (VS.), Kedar Williams-Stirling (Death in Paradise) e a novata Aimee Lou Wood também se destacam com a revelação de dramas e situações que poderiam passar despercebidas. Isso sem contar que é muito merecido ver nomes do tamanho de Gillian Anderson (Deuses Americanos), Alistair Petrie (Utopia) e Jim Howick (Broadchurch) receberem papéis à altura do seu talento.

Gillian, por sinal, encarna uma das melhores personagens da série e deixa um enorme gostinho de quero mais no meio da amarração de tramas e construção de ganchos eficientes que marcam o final da primeira temporada de Sex Education. E, por mais que uma segunda temporada ainda não tenha sido confirmada até o momento, essas conexões abertas não chegam nem perto de ser um problema quando tantas linhas narrativas se cruzam a mesma eficiência de todos os episódios. E, acima de tudo, o primeiro ano de Sex Education merece ser visto de qualquer jeito, porque constrói um universo onde realidade e ficção se cruzam com leveza para dialogar com o público sem meias palavras, garantindo boas reflexões, algumas risadas e até mesmo uma playlist animal no Spotify.