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Filmes

Crítica: Sete Homens e um Destino (2016)

Atualização cheia de metralhadoras, efeitos especiais e diversidade.


23 de setembro de 2016 - 11:00 - Flávio Pizzol

Já quero pedir desculpa pela repetição, mas o assunto de hoje é basicamente o mesmo do mês passado, quando a nova versão de Ben-Hur chegou aos cinemas. Afinal de contas estamos falando de um faroeste que nasceu com base no grande Os Sete Samurais, reuniu astros do calibre de Charles Bronson, Steve McQueen e Eli Wallach, marcou época em um período onde o faroeste era um dos principais gêneros do cinema e se transformou em um clássico instantâneo. Um filme praticamente perfeito que não precisaria ser refilmado, mas apoia sua atualização em homenagear o passado e encontrar um público que quer mais agilidade, efeitos especiais e testosterona nos filmes de ação.

Para alcançar seu  principal objetivo, esse novo Sete Homens e um Destino mantém a essência do longa de 1960 (e da fonte original dirigida por Akira Kurosawa) do início ao fim. Com exceção da substituição da vila mexicana e outros pequenos plots paralelos, o que temos aqui basicamente a mesma história dos sete pistoleiros que se reúnem para salvar uma pequena cidade das mãos de um grande vilão. Nesse caso, Bartholomew Bogue (Peter Sarsgaard) está inserido na corrida do ouro para traçar uma crítica pontual ao início do capitalismo nos EUA.

Os efeitos imediatos de manter a estrutura principal da trama ficam evidentes na falta de inovação dentro do gênero, nos personagens que não fogem dos arquétipos pré-estabelecidos na divulgação e no roteiro completamente previsível, mas nada disso pode ser considerado o grande problema do filme. O que mais me incomoda aqui são os diálogos fracos e a falta de motivação para inclui cada um dos heróis na empreitada, porque isso acaba prejudicando a própria relação de amizade que era construída entre eles no longa original. Era um senso de união que não abria espaço para um personagem perguntar para seu “líder” o que eles deveriam fazer, caso ele morresse. Eles formavam uma espécie de família que iria se vingar e lutar pela vila até o fim com mais propriedade.

Por outro lado, o filme acerta em cheio na atualização que se propôs a fazer com destaque para o novo contexto econômico e a diversidade. Apesar de toda equipe jurar que a escolha do elenco não é fruto dessa organização politicamente correta em que vivemos, uma boa parte da força do filme está justamente na inusitada reunião entre mexicanos, índios, orientais, mulheres, brancos e negros. Melhor ainda é ver o roteiro de Richard Wenk (Mercenários 2) e Nic Pizzolatto (True Detective) simplesmente ignorar e ainda tirar sarro com o fato de que, historicamente, essas pessoas não poderiam estar trabalhando lado a lado.

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A direção de Antoine Fuqua (Nocaute) equilibra as homenagens aos faroestes clássicos e o seu aspecto mais explosivo com muita segurança, contando com o suporte constante de uma ótima ambientação e da fotografia comandada pelo italiano Mauro Fiore, colaborador frequente do diretor. É um trabalho lotado de referências em duelos e várias cavalgadas em direção ao pôr-do-sol, mas não esquece aproveitar uma pitada do contexto urbano que marcou o cinema de Antoine em filmes como Dia de Treinamento e O Protetor.

Ele também comprova o seu talento como diretor de ação, utilizando explosões, câmeras lentas e metralhadoras para construir cenas frenéticas, divertidas e muito próximas do que o público mais jovem quer assistir hoje. Apesar de ser um pouquinho longo demais, o clímax que apresenta duelo final contra o exército de Bogue possui um grande domínio de espaço cênico, tira proveito da edição certeira de John Refoua (Invasão à Casa Branca e Avatar) e prende o espectador com vários momentos impactantes.

A falta de uma união genuína entre os protagonistas chega bem perto de prejudicar os momentos finais, mas o carisma e o talento individual de cada membro do elenco superam os clichês e salvam todo o processo. Denzel Washington passa a imponência e o respeito que Sam Chisolm precisa, Chris Pratt rouba todos os holofotes com sua versão western do Senhor das Estrelas, Ethan Hawke fica responsável pelo único dilema emocional do grupo, Vincent D’Onofrio surpreende com um Jack Horne completamente surtado e Byung-hun Lee adiciona ótimas cenas de luta dentro do contexto de bang bang. Por fim, Manuel Garcia-RulfoMartin Sensmeier ficam em segundo plano, mas também encontram seu momento de brilho.

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Mesmo assim, nem tudo pode ser perfeito. Os cidadãos da vila representados com mais força e presença por Haley BennettLuke Grimes e Matt Bomer não possuem uma ligação tão forte com os seus salvadores e acabam sendo subutilizados pelo roteiro. Da mesma forma, Peter Sarsgaard não precisa se dar ao trabalho de construir um grande vilão quando o roteiro resume sua participação a caretas e frases de efeito bem bregas.

Isso não é o suficiente para estragar um filme que cumpre exatamente o que prometeu: atualizar um clássico do faroeste com mais agilidade, efeitos especiais e característica dos típicos filmes-pipoca de Hollywood. Apesar de alguns tropeços comuns em remakes,  o roteiro marcado pela diversidade, a ótima direção de Antoine Fuqua e o seu elenco cheio de carisma acabam sendo os ingredientes perfeitos para fazer o filme funcionar. Sete Homens e um Destino não pode chegar nem perto de ser comparado ao magnífico filme de 1960, mas diverte bastante e tem potencial para conquistar novos fãs para o gênero.


OBS 1: Durante a escalação do elenco, o brasileiro Wagner Moura tinha sido escolhido para interpretar o mexicano, mas não pode assinar o contrato por conta das filmagens da segunda temporada de Narcos.